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do meio familiar, revelando as qualidades morais do 
pretendente. Nas palavras da autora: 
 
Teoriza-se assim no sentido da seleção e preparação 
de uma pequena elite virtuosa, escolhida em meio à 
boa sociedade, e que vê por missão redimir os 
elementos decaídos do quadro social. [...] a 
formação do Assistente Social se dividiria, 
geralmente em quatro aspectos principais: 
científica, técnica, moral e doutrinária 
(IAMAMOTO, 1985, p.228-9). 
 
Neste cenário inicial, o Serviço Social configura-se como 
prolongamento da Ação Social, veículo de doutrinação e 
propaganda do pensamento da Igreja Católica. Trata-se de 
intervenção com ações educativas de cunho moralista, ressaltando 
a ação ideológica de ajustamento às relações sociais vigentes. 
Evidencia-se a visão moral dos fenômenos sociais com a 
naturalização do capitalismo, na qual a Igreja criticava os excessos 
desse sistema e não sua essência (modo produção), atribuindo ao 
indivíduo responsabilidade sobre as suas mazelas, sendo 
fundamental a intervenção do Assistente Social quanto ao 
ajustamento do sujeito ao meio, o qual era visto como \u201cproblema\u201d 
desajustado às estruturas existentes. Destaca-se também a 
necessidade de reeducar a família para a sociedade industrial que 
emergia e recrutava as mulheres e seus filhos para o trabalho. 
Segundo Iamamoto (1985, p.238) \u201co julgamento moral tem por 
base o esquecimento das bases materiais das relações sociais\u201d. 
Ressaltamos, ainda, que o Serviço Social não nasce da 
evolução da filantropia, conforme se pensava na época da criação 
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da profissão. Salientando que essa idéia marcou a formação 
profissional desde seu surgimento, perpassando pelo movimento 
de reconceituação até o processo de ruptura. Afirma Iamamoto 
(1985, p. 77) \u201cO Serviço Social se gesta e se desenvolve como 
profissão reconhecida na divisão social do trabalho, tendo por 
pano de fundo o desenvolvimento capitalista industrial e a 
expansão urbana\u201d, e ressalta ainda que \u201cÉ nesse contexto, em que 
se afirma a hegemonia do capital industrial e financeiro, que 
emerge sob novas formas a chamada \u201cquestão social\u201d, a qual se 
torna a base de justificação desse tipo de profissional 
especializado\u201d. 
Nessa perspectiva, esclarece Netto (2005, p.69) \u201cé somente 
na intercorrência do conjunto de processos econômicos, sócio-
políticos e teórico-culturais [...] que se instaura o espaço histórico-
social que possibilita a emergência do Serviço Social como 
profissão\u201d e complementa referindo-se em termos histórico-
universais \u201cA profissionalização do Serviço Social não se relaciona 
decisivamente à \u201cevolução da ajuda\u201d, à \u201cracionalização da 
filantropia\u201d nem à \u201corganização da caridade\u201d; vincula-se à 
dinâmica da ordem monopólica\u201d (p. 74). 
 
2. O Serviço Social no período desenvolvimentista 
 
A influência norte-americana no ensino especializado 
brasileiro teve como marco o Congresso Interamericano de Serviço 
Social realizado em 1941, em Atlantic City \u2013 USA, segundo 
Iamamoto (1985, p. 234), que esclarece ainda: 
 
A partir desse evento se amarram os laços que irão 
relacionar estreitamente as principais escolas de 
Serviço Social brasileiras com as grandes 
instituições e escolas norte-americanas e os 
programas continentais de bem-estar social (p. 
234). 
 
É importante recordar o respectivo contexto histórico 
brasileiro, a partir da tomada de poder com o golpe militar de 
Getúlio Vargas em 1930. Segundo Iamamoto (1985, p. 243) 
 
a violência que caracterizava o Estado Novo, a 
tentativa de superação da luta de classes através da 
repressão e tortura, não podem esconder a outra 
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face de sua postura, que se traduz na influência de 
sua política de massas. 
 
Nesta perspectiva, segundo Silva (2006), a estrutura 
corporativa do Estado Novo, visando sua legitimação, incorpora de 
alguma forma reivindicações populares, o qual institui direitos 
trabalhistas pelo viéis corporativo, com claro intuito de controlar a 
classe trabalhadora. Ressaltando, que ainda hoje se percebe a 
herança cultural da era Varguista (1930 a 1945). Vargas, conhecido 
como \u201cpai dos pobres\u201d, governou o país de forma ditatorial e 
populista, reconheceu a questão social (até então tratada como 
caso de polícia) como estratégia de controle social e ideológico, 
criou o Ministério do Trabalho para controlar os sindicatos 
vinculados ao Estado, conhecidos como \u201csindicato pelego\u201d. Neste 
governo se consolida a idéia do favor do Estado protetor, 
paternalista, que ainda hoje permanece no ideário popular 
brasileiro e norteia as relações sociais estabelecidas, reforçando a 
idéia de submissão da população ao Estado. 
Neste período, afirma Iamamoto (1985, p. 244): 
 
A noção fetichizada dos direitos, cerne da política de 
massas do varguismo e da ideologia da outorga, tem 
por efeito obscurecer para a classe operária, impedi-
la de perceber a outra face da legislação social, o fato 
de que representa um elo a mais na cadeia que 
acorrenta o trabalho ao capital, legitimando sua 
dominação. 
 
No que se refere à organização da categoria, ressaltamos já 
na década de 1930, a criação do Conselho Nacional de Serviço 
Social \u2013 CNSS, através do Decreto-lei n. 1/7/1938, sob a vigência 
do Estado Novo, \u201ccom as funções de órgão consultivo do governo e 
das entidades privadas, e de estudar os problemas do Serviço 
Social\u201d (idem, p. 256). Entretanto, segundo a autora, sua ação 
efetiva foi muito restrita e \u201ccaracterizou-se mais pela manipulação 
de verbas e subvenções, como mecanismo de clientelismo político\u201d 
(ibidem). 
Neste cenário, segundo a autora, há uma expansão e 
aumento quantitativo (e não qualitativo) da atuação do Serviço 
Social, em virtude do surgimento de grandes instituições nacionais 
de assistência social, a exemplo da Legião Brasileira de Assistência 
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\u2013 LBA (Decreto-lei n° 4830 de 15/10/1942), e do Serviço Nacional 
de Aprendizagem Industrial \u2013 SENAI (Decreto-lei n° 4048 de 
22/02/1942), criado no limiar de um novo ciclo de expansão 
capitalista, enquanto instituição social destinada a possibilitar a 
adequação da força de trabalho às necessidades do sistema 
industrial vigente, a partir de dois aspectos principais: \u201co 
atendimento objetivo ao mercado de trabalho, no sentido de supri-
lo de trabalhadores portadores das qualificações técnicas 
necessárias\u201d além da \u201cprodução de uma força de trabalho ajustada 
psicossocialmente (ideologicamente) ao estágio de 
desenvolvimento capitalista\u201d (ibid, p. 271). 
Desta forma, as práticas sociais desenvolvidas pelos 
técnicos educadores cooptados pelo SENAI, inclusive o Assistente 
Social, atuam para a \u201csuavização dos aspectos contraditórios 
(antagônicos) desse ajustamento, reforçando, objetivamente, a 
dominação de classe\u201d (p. 272). Neste sentido, ainda segundo 
Iamamoto \u201calém das transformações na retórica do discurso oficial 
do Serviço Social, solidifica-se uma adesão ao capitalismo em sua 
etapa de aprofundamento industrial urbano\u201d (idem, p. 273). 
Na década de 1950, abre-se campo para o Serviço Social, 
com o surgimento das grandes indústrias, acrescido as grandes 
instituições assistenciais mencionadas anteriormente, que 
requerem maior sistematização técnica e teórica de suas funções. A 
categoria profissional sobre forte influência norte-americana, 
evidenciada através da psicologização, atua atendendo aos 
considerados desajustados psicossociais, que deveriam, pois, ser 
\u201cajustados\u201d ao meio, além de atuar no Desenvolvimento de 
Comunidade, com a educação para adultos, demonstrando, assim, 
a expansão da profissão aliada a ideologia desenvolvimentista. 
Quanto à trajetória histórica do Serviço Social, segundo 
Netto (1998,