RevistaOAB_91
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nome e com as mesmas duas funções que ele tem hoje: a função administrativa de planejamento estratégico e a função correcional de controle da atividade dos juízes. 
3. A ideia da criação do CNJ 
 A discussão sobre a autonomia orçamentária e financeira do Poder Judiciário e uma contraparte de controle já era antiga, inspirada principalmente na experiência prática. A ênfase da questão era o controle externo, mas o subtexto era o planejamento estratégico. Falava-se muito que o Judiciário era uma espécie de arquipélago e que precisava ser integrado e unificado, de modo a se transformar em um continente. Frente a esse cenário de desarmonia interna, o Judiciário demandava planejamento e gestão. Era necessário estabelecer rotinas, práticas e condições para que ele pudesse se renovar e, ao mesmo tempo, se integrar. O organismo para fazer isso era justamente o CNJ. O professor Calmon de Passos, que foi presidente da Ordem da Bahia, era um defensor ferrenho disso, ao afirmar, com muita razão, que \u201ccontrole interno não controla nada\u201d. Essa foi, portanto, uma ideia dos advogados que nasceu dentro da OAB. De um lado, a noção de controle externo do Poder Judiciário e, de outro, o planejamento estratégico. Diante da tarefa de impulsionar essa questão no Conselho Federal, busquei compor um grupo para trabalhar com o tema, reunindo as melhores pessoas para coordenar demandas internas 
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e, ao mesmo tempo, comunicar para fora o que parecia ser mais importante para a Advocacia. A equipe era formada por Marcelo Lavenère, Olga Cavalheiro Araújo, Marília Muricy, Sérgio Sérvulo da Cunha e Lamartine Corrêa de Oliveira. Esse grupo prestava uma ótima assessoria, acompanhando os trabalhos da Constituinte de modo informal e desburocratizado. Chegou a ganhar roupagem institucional com o nome de Bureau de Acompanhamento Constitucional. Dali saiu, inclusive, a emenda do Conselho Nacional de Justiça. 
4. O processo legislativo de criação do CNJ na Constituinte A emenda gestada pelo Bureau e pela Presidência da OAB foi, finalmente, apresentada por Nelson Jobim, que tinha sido vice-presidente da Ordem e também o interlocutor mais frequente do Conselho Federal na Constituinte. O projeto passou pela Subcomissão de Reforma do Judiciário, porém sofreu uma forte pressão porque o Judiciário estava organizado para impedir a criação do CNJ. Além disso, como já enfatizado, esse tema não era visto como uma vontade da sociedade, mas como algo de interesse específico. Os próprios sindicatos não tinham um entusiasmo pela tese porque soava muito restrita aos advogados. Apesar da resistência, era esperado que o projeto fosse aprovado, o que, infelizmente, não ocorreu, pois acabou sendo barrado pelo \u201cCentrão\u201d. Quando chegou na Comissão de Sistematização, o relator da Constituinte, Bernardo Cabral, que tinha sido presidente da Ordem, para a nossa surpresa deu parecer contrário à reforma, alegando que a falta de consenso dentro da classe dos advogados o levava a tomar aquela decisão. Tal atitude foi inesperada porque o mesmo Cabral havia se manifestado a favor da emenda em parecer anterior. A votação foi dura para nós, que defendíamos o projeto. Mas é fato que, dentro da própria OAB, havia objeções ao CNJ. Se o controle externo tivesse sido aprovado naquele momento, a história recente do Poder Judiciário brasileiro poderia ter sido outra. O Poder Judiciário e o Ministério Público exerciam um lobby fortíssimo. A pressão do Ministério Público correspondia a um projeto. Já a ideia do Poder Judiciário, liderado pela Associação dos Magistrados Brasileiros, era basicamente não ter projeto, era deixar tudo como estava. Tanto foi assim que, quando eles derrotaram as nossas proposições \u2013 fundamentalmente a Corte Constitucional e o Conselho Nacional de Justiça \u2013 eles não tinham nada para oferecer em substituição e acabamos sem CNJ. A proposta de um controle 
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externo chegava a provocar reações emocionais nos juízes. Pessoas importantes, ao discutir o tema, falavam que se aposentariam se tivessem um controle nacional sobre sua atividade. 
5. A formação de um consenso sobre as necessidades administrativas do Poder 
Judiciário À época da Constituinte, havia um consenso de que o Judiciário estava lento e moroso, não conseguindo dar conta do trabalho. A demanda do próprio Judiciário era pela melhoria da infraestrutura. Alguma melhoria é, todavia, sempre necessária. A grande questão era o abismo entre esse Poder e o povo, algo que exigia uma reforma maior do que o aumento de verbas. Havia um problema de legitimidade democrática. O Conselho Nacional de Justiça, naquele contexto, parecia a única esperança de modernizar a administração da Justiça e, hoje, vemos que, de fato, há grandes avanços. Ainda retomando a Constituinte, chegamos a defender, naquele momento, a existência de uma Corte Constitucional no lugar do Supremo Tribunal Federal, deixando para o STF o papel que cabe hoje ao Superior Tribunal de Justiça. A Corte Constitucional seria apenas uma espécie de guardiã da Constituição, com mandatos de sete anos renováveis por mais sete e sem vitaliciedade. Esse modelo foi adotado por uma série de países que passaram de um regime ditatorial para um regime democrático. Não parecia possível concretizar a Constituição democrática sem um instrumento voltado a essa missão. Isso, no entanto, sequer foi considerado. Não passou na Subcomissão. O relator era um grande ativista político, o Plínio de Arruda Sampaio, mas ele não deu a devida importância à proposta. Não conseguimos vencer os óbices regimentais e essa ideia também não passou. 
6. Conquistas dos Advogados na Constituinte Apesar de termos sofrido com a ressaca dessas derrotas, a OAB deu contribuições excelentes à Constituição. A parte de direitos e garantias do artigo 5º foi, basicamente, toda escrita pela Ordem. Além disso, o próprio papel da OAB foi muito reforçado na parte da Constituição que trata da Advocacia. Tendo em vista essas mudanças, podemos considerar que a Constituição foi uma obra importante rumo à redemocratização, a despeito da relutância de seus elaboradores para enfrentar certas questões delicadas. 
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No mesmo ano da aprovação da Constituição, houve a XII Conferência Nacional da Ordem, em Porto Alegre. O tema dessa Conferência foi \u201cO advogado e a OAB no processo de transformação da sociedade brasileira\u201d. Os debates lá realizados combinaram muito bem com a tônica da nova Constituição, reforçando a importância de que temas como a defesa dos direitos das minorias fossem levados a sério pela sociedade brasileira. A verdade é que a Constituição caminhava para ser um documento à esquerda, com tudo de bom e de ruim que isso pudesse trazer. Em reação, o \u201cCentrão\u201d articulou-se, formando uma resistência conservadora. O resultado foi uma Constituição um pouco híbrida. O presidente Sarney, inclusive, combateu fortemente a Constituinte, alegando que o país ficaria ingovernável. De todo modo, é certo que a Constituição foi um bem para o Brasil. Ainda que ela pudesse ter avançado mais, seu conjunto permitiu ao país ter esses vinte e um anos de normalidade democrática. Não se pode negar também que o Conselho Nacional de Justiça foi germinado ali. Apenas depois que saímos da Constituinte, o CNJ começou, aos poucos, a reaparecer junto a outros temas mais sensíveis. 
7. O renascimento da ideia do CNJ após a Constituinte e a Secretaria de Reforma do 
Judiciário Em 1992, foi apresentado por iniciativa de Hélio Bicudo outro projeto de reforma do Judiciário, no qual não estava prevista a criação do Conselho Nacional de Justiça sob a justificativa de que não havia clima para isso naquele momento. No mesmo ano, aliás, escrevemos a petição inicial do impeachment do