RevistaOAB_91
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e, inversamente, tornar-se fatores determinantes da riqueza do resultado. A International Bar Association (IBA) teve iniciativas importantes no campo da informação. Fez circular entre as Ordens de Advogados associadas o Documento de Orientação para os Consultores em Direito Estrangeiro. E em 2002, já fizera circular uma publicação bastante didática, que apresenta de modo minucioso o Acordo Geral sobre o Comércio de Serviços (GATS). 
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Preparou a resolução sobre o GATS, que leva em consideração o interesse público da OMC e da OCDE na desregulamentação da profissão jurídica, no que diz respeito a regras que não se coadunem com a economia globalizada. Posteriormente, a Força de Trabalho sobre Prática Comercial Multijurisdicional da seção de Direito Empresarial da IBA emitiu a \u201cRecomendação para a Prática Comercial Transfronteiriça Temporária\u201d. A IBA tem como meta o aumento das exportações dos serviços jurídicos, a representação da advocacia mundial perante a OMC e o envolvimento das Ordens de Advogados no tocante às discussões do GATS. O problema é que, embora mantenha interlocução bastante afiada com a OMC, promovendo inclusive diversos eventos sobre o tema, desconsidera, em parte, as peculiaridades de cada país quanto ao tema. Por exemplo: no Brasil, a advocacia não é considerada um serviço mercantil \u2013 ou pelo menos não apenas mercantil. É função pública, prevista na Constituição Federal, que, em seu artigo 133, diz que \u201co advogado é indispensável à administração da justiça, sendo inviolável por seus atos e manifestações no exercício da profissão, nos limites da lei\u201d. Ao tornar a advocacia \u201cpreceito constitucional\u201d, o constituinte brasileiro definiu-a para além de atividade estritamente privada, qualificando-a como prestadora de serviço de interesse coletivo e conferindo a seus atos múnus público. O Estatuto da Advocacia, por sua vez, em seu artigo 44, inciso I, reforça esse tratamento, ao atribuir à Ordem dos Advogados do Brasil o dever de: \u201cDefender a 
Constituição, a ordem jurídica do Estado democrático de Direito, os direitos humanos, a 
Justiça Social, e pugnar pela boa aplicação das leis, pela rápida administração da Justiça e 
pelo aperfeiçoamento da cultura e das instituições jurídicas.\u201d Isso, como é óbvio, nos coloca bem além de nossos deveres como entidade corporativa. Nos envolve praticamente com todo o processo político-institucional do país, sem que, no entanto, nos autorize a ingressar no jogo político-partidário-ideológico. Nosso desafio é exatamente figurar nesse embate com o distanciamento necessário para não nos contaminarmos pelo varejo político, nem perdermos de vista a isenção que nos cabe como guardiães da cidadania, algo impensável para um advogado norte-americano. Como se vê, estamos ainda longe de professar fundamentos éticos universais. A IBA representa o interesse dos grandes escritórios de advocacia com capacidade de prestação de serviços jurídicos em âmbito mundial. Não creio que seja 
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impossível conciliar interesses e pontos de vista, quanto a isso, mas esse é um processo que exige labor e mútua compreensão. Estamos ainda na fase preliminar, de diagnóstico de problemas, e ainda distante de efetivamente resolvê-los. Mas a busca de unidade pelo viés ético é um bom começo. Talvez o único. 
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EVOLUÇÃO HISTÓRICA DA INSCRIÇÃO OBRIGATÓRIA \u2013 INSTRUMENTO DE DEFESA DAS 
PRERROGATIVAS PROFISSIONAIS 
Roberto Antonio Busato Presidente do Conselho Federal da OAB (2004/2007) 
 O tema \u2013 EVOLUÇÃO HISTÓRICA DA INSCRIÇÃO OBRIGATÓRIA \u2013 que pretendo abordar adiante, fazendo uma correlação desta evolução como instrumento de defesa das prerrogativas profissionais, é de vital importância neste momento em que nós advogados brasileiros estamos empenhados na luta para melhor enfrentar os desafios contemporâneos, principalmente advindos da globalização especificamente do serviço jurídico e da defesa dos Códigos de Defesa do Consumidor, bem como de governos despóticos e autoritários que se instalaram na América do Sul. A inscrição obrigatória é o caminho para que esta união se efetue de forma consistente, segura, e gere os resultados que buscamos. Não podemos permitir que um setor vital que é a advocacia saia do nosso controle e acabe anexado por outros mercados, mais ricos, organizados e experientes. As palavras chaves são \u2013 organização e unidade. Nós advogados brasileiros, ficamos surpresos, diante da importância da inscrição obrigatória, que em nosso continente \u2013 América do Sul -, contam com poucos países que adotam a inscrição obrigatória ou universal, sendo o Brasil o que há mais tempo se organizou neste sentido. A Ordem dos Advogados do Brasil \u2013 cujo Conselho Federal, seu órgão máximo, tive a honra de presidir entre 2004 a 2007 \u2013 foi criada em 1930. Já no ano seguinte, decreto do governo federal estabeleceu a obrigatoriedade da inscrição como advogado, em seus quadros. Portanto, desde 1931 nenhum bacharel pode exercer a advocacia no Brasil sem antes ser aprovado no exame de admissão e ser inscrito nos quadros da Ordem. 
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Isto além de garantir ao mercado de trabalho um padrão mais elevado de serviços, a inscrição obrigatória confere organicidade à advocacia brasileira. Uma organicidade ímpar, que nenhuma outra profissão organizada possui no Brasil. O ganho social desta inscrição obrigatória não é apenas técnico. Há um ganho ético. A Ordem julga os profissionais faltosos, garantindo-lhe ampla defesa e o devido processo legal. Seu Estatuto é lei federal, e a compromete não apenas com questões corporativas, mas também político-institucionais. Sem a inscrição obrigatória seria impossível a Ordem dos Advogados do Brasil exercer seu papel dentro da República, onde é considerada sua mais importante instituição civil, transformando-se habitualmente numa \u201ctribuna de cidadania\u201d. No campo corporativo propriamente dito, a inscrição obrigatória nos permite lidar com temas complexos, como a má qualidade do ensino jurídico ou a internacionalização dos escritórios de advocacia, de maneira consistente e eficaz. Feitas estas considerações preliminares, julgo importante um retrospecto histórico a respeito da advocacia brasileira e de como chegamos à situação que hoje ostentamos para, principalmente, servir de subsídios aos colegas brasileiros, especialmente os mais jovens e aos quais queremos estar unidos na meta comum de fortalecimento da instituição \u2013 Ordem dos Advogados do Brasil. A referência primordial de regulamentação da atividade advocatícia em terras brasileiras foi disposta nas ORDENAÇÕES FILIPINAS \u2013 Código ibérico do século XVII. Até a publicação do Código Civil de 1916, essas ODENAÇÕES eram consideradas \u201ca pedra angular 
do direito civil brasileiro\u201d. Publicadas originalmente em 1603, exigiam o cumprimento de curso jurídico de oito anos, além do exame para atuar na Casa de Suplicação, ressaltando a responsabilidade civil do advogado. No início do Império, princípios disciplinares como probidade, sigilo profissional e responsabilidade por dano decorrente do desleixo já estavam estabelecidos e a infração a tais princípios era punida com pena de privação do ofício, aplicado pelos juízes, diante da inexistência de um órgão que representasse os advogados nacionais, o que só iria ocorrer em 1843 com a criação do INSTITUTO DOS ADVOGADOS BRASILEIROS. O Instituto previa em seu Estatuto, a existência da Ordem dos Advogados do Brasil, como entidade de seleção e defesa da profissão, ou seja, de regulação do exercício da advocacia. Previa, mas não instituía. Isso só ocorreria quase um século depois, no Brasil republicano. Estávamos ainda