RevistaOAB_91
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pela suas bancadas: 
- Acho que é um crime de responsabilidade política e quem 
deve apurar isso, quem deve propor o Impeachment, são os 
deputados e senadores. 
Ai o senador Pedro Simon, com os arroubos que nós 
sabemos que ele é capaz, não esperou eu terminar a frase, e ele 
disse a seguinte frase que até hoje ecoa em meus ouvidos: 
- Presidente nós não temos credibilidade bastante para 
assinar esse pedido de Impeachment, vai parecer coisa de política, 
vai parecer coisa de oposição ao governo e o pedido de 
Impeachment não vai ter a respeitabilidade que somente a OAB e 
a ABI podem trazer. 
Diante de uma declaração tão formal, com a qual anuíam 
os demais presentes, nomeadamente o senador Fernando 
Henrique Cardoso e os deputados Vivaldo Barbosa e Aldo Rabelo, 
comprometi-me com essa comissão que me reuniria com o colégio 
de presidentes e o Conselho Federal e se por acaso esses dois 
colegiados da OAB decidissem que eu deveria assinar como pessoa 
física, eu assinaria. 
Veja, eu não tenho nenhuma dificuldade de reconhecer 
que a decisão de assinar o pedido de impeachment não poderia 
ser individual, ainda quando fosse o cidadão Marcelo Lavenère 
que assinava, mas que trazia indescritivelmente o peso da 
entidade que ele presidia. 
A pergunta é, por que eu fui pedir esse apoio?Porque eu 
sabia e não tinha nenhuma dúvida de que quem estava ali 
assinando, por mais que eu pudesse dizer é o cidadão Marcelo 
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Lavenère, mas, na ocasião quem estava assinando era o 
presidente da OAB, por uma questão Constitucional tinha que ser 
uma pessoa física, mas na verdade era o presidente da OAB, que 
estava assinando, como era o presidente do ABI doutor Barbosa 
Lima Sobrinho. 
Então eu não podia, portanto, decidir isso sozinho. 
A oposição foi pequena, a grande maioria dos conselheiros 
federais e dos presidentes de quase todas seccionais disseram; 
'não concordamos com isso'. Havia pessoas ali que tinham votado 
no Collor, só que eles tinham votado no Collor pensando que o 
Collor iria salvar o Brasil. E estavam muito entristecidos e 
frustrados, como uma esposa traída, porque votaram no Collor 
conscientes, ninguém votou no Collor pensando que ele era um 
traste, ninguém votou no Collor pensando que ele era uma fraude, 
quem votou no Collor, votou convencido que estava fazendo uma 
coisa boa para o Brasil e tenho consciência disso. 
Pois bem, então, tínhamos esse convite do Congresso 
Nacional. Era um convite, mas o convite não era para uma festa, 
era um convite para uma guerra. 
 O senador Pedro Simon relembra o episódio29: 
Os trabalhos da Comissão que investigou PC Farias foram 
marcados pela imparcialidade e pela seriedade. Quando a 
Comissão concluiu pelo Impeachment, decidimos que assinariam 
o pedido, em nome da sociedade brasileira, os presidentes da OAB, 
Marcello Lavenère, e da ABI, Barbosa Lima Sobrinho. 
 
29 Entrevista gentilmente concedida por escrito pelo senador Pedro Simon, no dia 22 de outubro de 2010, em 
Brasília. O inteiro teor da entrevista foi entregue pelos autores ao arquivo do Conselho Federal da OAB, para ser 
guardada junto com as pastas já existentes sobre o Impeachment. 
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Convite para a guerra feito. O convite para a guerra poderia ser facilmente recusado. Afinal, pelos seus Estatutos, a Ordem dos Advogados do Brasil não pode manifestar qualquer posição de natureza política, por mais elevada que seja, para não transformar seus objetivos essenciais em instrumento de um partido político, em detrimento de outro. Poderia ser facilmente recusado porque o homem na presidência do Conselho Federal da OAB vinha do pequeno estado de Alagoas, como o presidente da República. Ambos faziam parte da mesma elite política. Seu pai havia sido procurador-geral do estado quando o pai do presidente Collor havia sido governador. A mãe do presidente da República havia sido sua colega, o tesoureiro Paulo César Farias havia sido seu aluno - em sua formatura, fizeram discurso juntos: Marcello Lavenère como paraninfo, PC Farias como orador. O presidente da OAB e o presidente da República chegaram a formar chapa juntos: o primeiro foi candidato a deputado na chapa em que o segundo era candidato a governador. Podendo ser facilmente recusado, o convite para a guerra foi aceito. E o presidente do Conselho Federal da OAB se empenhou pessoalmente para que a autorização para falar em nome da Instituição fosse dada. Nesse particular, três depoimentos são emblemáticos. O então secretário-geral do Conselho Federal, Dr. Antonio Carlos Osório registra que30: "o pedido de Impeachment se deveu mais ao esforço pessoal do Dr. 
Marcello Lavenère do que à própria OAB." O assessor do Conselho Pleno do Conselho Federal da OAB há 25 anos, que trabalhou diretamente com os últimos onze presidentes da Instituição, Dr. Paulo Guimarães, relembra que31: 
O Presidente Lavenère gestava o assunto após uma sessão 
polêmica do Conselho Pleno, realizada dois meses antes, na qual 
se havia decidido situar a Ordem apenas no plano da vigilância do 
procedimento perante o Poder Legislativo. 
 
30 Entrevista gentilmente concedida pelo Dr. Antonio Carlos Osório aos autores, no dia 21 de outubro de 2010, em 
Brasília. A degravação da entrevista foi entregue pelos autores ao arquivo do Conselho Federal da OAB, para ser 
guardada junto com as pastas já existentes sobre o Impeachment. 
31 Entrevista gentilmente concedida por escrito pelo Dr. Paulo Torres Guimarães, no dia 21 de outubro de 2010, em 
Brasília. O inteiro teor da entrevista foi entregue pelos autores ao arquivo do Conselho Federal da OAB, para ser 
guardada junto com as pastas já existentes sobre o Impeachment. 
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Com a atenção da cidadania voltada para a OAB, depois 
de consumado o julgamento moral do Presidente Collor pelo povo, 
e a pressão da mídia, Dr. Marcello, com cautela, procurou sentir o 
calor dos advogados nos Estados que, pela voz das Seccionais, em 
reunião extraordinária do Colégio de Presidentes realizada em 
agosto, anunciava que a responsabilidade já estava nos ombros 
da Entidade. 
Ainda em agosto, com o peso do pronunciamento do 
Colégio, motivado pela iniciativa do então Presidente Nacional, o 
Pleno aprovou uma nota oficial que previa a possibilidade dos 
dirigentes da OAB, enquanto cidadãos, requerer as medidas 
judiciais cabíveis, inclusive o impeachment. 
Concluída a CPI, o Presidente, empunhando a bandeira da 
ética na política, promoveu ação inflexível e convocou, também 
extraordinariamente, o Conselho Federal, exortando a altivez e a 
disposição da Ordem para incorporar-se à marcha dos fatos, não 
obstante as críticas contrárias ao envolvimento da Instituição, em 
vozes isoladas, mas audíveis. 
Lembro que Dr. Lavenère abarcou individualmente os 
membros da OAB, declarando o quanto cada um era valioso para 
a Nação naquele momento. Os presentes, respondendo com 
discursos cheios de ardor, exibiam um ar de heroísmo ao serem 
chamados, os Conselheiros, Presidentes Seccionais e Membros 
Honorários, para assinar o documento que serviu de apoio à 
petição encaminhada ao Presidente da Câmara dos Deputados, 
encerrando-se a sessão histórica com a intensidade da execução 
do Hino Nacional. 
 Também ressaltando a importância do empenho pessoal do presidente Marcello Lavenère, o relator da Comissão Parlamentar de Inquérito Senador Amir Lando faz questão de destacar que32: 
 
32 Entrevista gentilmente concedida pelo senador Amir Lando, no dia 18 de outubro