RevistaOAB_91
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posse do Vice-Presidente, o gaúcho João Goulart. Com o país afundando em agitação política, manifestações de massa, insubordinações nos quartéis, inflação de 100% (cem por cento) ao ano, denúncias de corrupção, Goulart conheceu a face cruel da política, foi abandonado por todos (direitistas, esquerdistas, militares, partidos) e deposto por um golpe militar. Assim, a década trouxe ao Brasil uma ditadura militar, em 1964, que, sob o argumento da necessidade de repor a ordem ao País, criou mecanismos de repressão e opressão, capazes de eliminar todos os críticos e inimigos do governo. Implantado o regime de força, os novos donos do Poder sentiram a imediata necessidade de definir roupagens legais para os atos de violência que seriam perpetrados. Foi editado o Ato Institucional nº 1, em 09 de abril de 1964, permitindo as primeiras cassações de direitos políticos e demissões sumárias no Serviço Público, além da instalação de centenas de IPMs (Inquéritos Policiais Militares), que processaram milhares de brasileiros. Os anos 60 incorporavam, entretanto, um tamanho componente de contestação que, mesmo sob regime de força, as organizações civis gritavam por liberdade. Em 1966, houve manifestações populares em vários Estados. No Rio de Janeiro, dezoito faculdades entraram em greve. Em São Paulo, houve barricadas em frente da Faculdade de Filosofia, resultando em numerosos feridos. Em 1967, a UNE (União Nacional de Estudantes), que havia sido extinta pelo governo militar, realizou em São Paulo, na semi-clandestinidade, um congresso estudantil. E em 1968, no mês de março, dois mil estudantes reunidos no restaurante \u2018Calabouço\u2019, no Rio de Janeiro, foram reprimidos pela polícia, morrendo o estudante Edson Luís. Na missa de sétimo dia do estudante morto, a cavalaria da polícia atacou os manifestantes, efetuando seiscentas prisões. 
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A 24 de janeiro de 1967, o País tem uma nova Constituição, com traços de autoritarismo e de fortalecimento do Poder Executivo. As conferências nacionais da OAB não se realizaram durante oito anos. O regime, implantado em março de 1964, de perseguição política, de cassações de mandatos parlamentares, de prisões de oposicionistas, de amordaçamento da opinião, não permitia que se reunissem os defensores da Justiça e da Liberdade, sempre ameaçados de prisão. E muitos, realmente, estavam presos. Por outro lado, ocorrera que a luta contra a ditadura estado-novista aproximara a OAB a um dos grandes partidos políticos de então, a UDN (União Democrática Nacional), partido este que apoiou o movimento militar de 1964. Talvez por essa razão, e também porque o golpe invocava a preservação da moralidade pública, a OAB não reagiu de imediato ao golpe de 1964. Em depoimento prestado a Marly Silva da Motta3, o ex-presidente José Cavalcanti Neves (eleito em 1971), foi corajoso e polêmico ao declarar: \u201cNão tenho dúvidas em proclamar 
que o Conselho Federal da OAB aplaudiu o chamado \u2018golpe de 64\u2019\u201d. Não se tem notícia de que a OAB, no primeiro momento, tenha condenado o golpe; mas, daí até se afirmar que o \u201caplaudiu\u201d, há uma considerável distância. Somente em dezembro de 1968 (de 07 a 13), teve lugar, em Recife, Pernambuco, mais um encontro dos advogados brasileiros, a III CONFERÊNCIA NACIONAL 
DA OAB, sob a presidência de Samuel Vital Duarte. A proteção aos direitos humanos constituiu-se na principal pauta dos debates, não sem razão, uma vez que, quatro anos após o golpe, já se notavam em todo o País muitas manifestações públicas contra o governo. Durante a conferência, discursou o célebre advogado e Conselheiro Federal, Sobral Pinto, que exaltou a criação do Conselho de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana - CDDPH, do qual fazia parte o presidente do Conselho Federal da OAB. Durante algum tempo, o CDDPH representou um foco de resistência ao arbítrio do governo. O destino fechou a III Conferência com uma infeliz coincidência. O encontro concluía pela necessidade de aprofundamento das discussões sobre a garantia dos direitos humanos no País e sua sessão de encerramento ocorreu no dia seguinte à decisão da Câmara dos Deputados, que negou a suspensão da imunidade do deputado Márcio Moreira Alves, votação aplaudida pelo Conselho Federal. Nesse mesmo dia do encerramento da Conferência, o governo divulgou suas novas regras de \u201carrocho\u201d do regime, contidas no Ato Institucional nº 5. 
 
3 . Marly Silva da Motta, A Ordem dos Advogados do Brasil: entre a corporação e a instituição. Ciência Hoje, Rio de 
Janeiro, v. 39, pg. 32/37, dezembro \u2013 2006. 
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Com a edição do Ato Institucional nº 5, o famoso AI-5, em dezembro de 1968, o Congresso Nacional sofreu perdas consideráveis; os deputados mais atuantes (não todos, mas a sua maior parte) foram cassados. A Câmara dos Deputados, afastados os membros oposicionistas, passou a ser um órgão de mera figuração. A sua inutilidade pode ser constatada pelo fato de que, durante quatro anos, de 1969 a 1972, não instalou sequer uma CPI \u2013 Comissão Parlamentar de Inquérito. O AI-5 representou dura reação de força contra sindicatos e entidades civis que já se organizavam, já saíam às ruas, protestando e pressionando por mais liberdade e retorno à normalidade democrática. O novo Ato Institucional exacerbou o poder de arbítrio, impondo um doloroso silêncio a toda a Nação. 
6 - A década 1970/1980: o Brasil vive a contradição da abertura política ao lado de 
torturas e mortes nas prisões da ditadura; a OAB pede anistia para presos políticos e 
manifesta repúdio ao estado de exceção 
 No começo dos anos 70, viveu o País a época do \u201cmilagre econômico\u201d, durante o Governo do general Emílio Garrastazu Médici. Com a imprensa censurada, não se sabia da feroz repressão promovida contra os opositores do regime. E a população viveu uma época de aprovação do regime militar. Tudo aparentemente corria bem. Cantores populares gravavam músicas de sucesso, exaltando o País e o governo. Foi criado o slogan de cunho nacionalista: \u201cBrasil, ame-o ou deixe-o\u201d. E, para completar a felicidade geral, a seleção brasileira de futebol venceu no México, em junho de 1970, o campeonato mundial, tornando-se o Brasil o primeiro país a ostentar o título de tricampeão mundial de futebol. Nesse ambiente em que o povo brasileiro manifestava uma certa aceitação do regime militar, realizou-se a IV CONFERÊNCIA NACIONAL DOS ADVOGADOS, de 26 a 30 de outubro de 1970, em São Paulo, tendo como tema central a contribuição do advogado para o desenvolvimento nacional. Entre todos os congressos nacionais dos advogados, a IV Conferência talvez tenha sido a mais tímida, uma vez que tangenciou a questão da ilegitimidade do regime autoritário, preferindo destacar questões relativas ao desenvolvimento econômico do País e ao desafio que a modernização impunha aos advogados. Entretanto, a OAB não se distanciou totalmente do seu papel de contribuir para o aperfeiçoamento das instituições nacionais. A maioria das teses da Conferência alertava que as transformações sociais, políticas e econômicas, não podiam perder de vista os ideais de liberdade, fraternidade, paz e justiça. 
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O general Ernesto Geisel, quarto presidente militar, assume o poder em 15 de março de 1974, prometendo abertura lenta e gradual. Mas, com a inflação em alta, dívida externa elevada, arrocho salarial e denúncias de tortura e morte de presos políticos, a oposição ao regime solidificava-se, organizava-se, unia-se, ganhando grande impulso. Em maio e julho de 1974, o governo militar investiu contra a OAB, numa tentativa de eliminação da sua voz de independência. Tentando fazer crer que se tratava de mera providência administrativa,