RevistaOAB_91
648 pág.

RevistaOAB_91


DisciplinaIntrodução ao Direito I92.977 materiais691.362 seguidores
Pré-visualização50 páginas
que recebia de toda a Nação, inclusive dos seus dirigentes, que, no decorrer da VII Conferência, o presidente da Ordem, 
 
5 . in Revista da Ordem dos Advogados do Brasil, ano IX, vol. IX, janeiro-abril 1978, p. 174. 
 REVISTA DA ORDEM DOS ADVOGADOS DO BRASIL ANO XL N° 91 JULHO/DEZEMBRO 2010 
148 
 
Raymundo Faoro, recebeu comunicado do general Ernesto Geisel, garantindo que seria decretada a anistia, objeto de tanto empenho da Ordem dos Advogados. O próximo passo da OAB foi centralizar os seus debates na defesa da convocação de uma Assembleia Constituinte, demonstrando que este era o único caminho jurídico adequado à retomada da organização das instituições políticas dentro de princípios democráticos. As posições da OAB não eram tomadas apenas quando da realização das Conferências. Estas tinham grande importância porque reuniam, naquelas ocasiões, advogados de todo o País, que se dedicavam a debates intensos e divulgavam as conclusões ali proclamadas. Mas a Ordem, no dia a dia e pela voz do seu Presidente, criticava a exacerbação do poder de arbítrio e a censura à imprensa. Abertamente defendia a revogação do AI-5, a autonomia sindical e a anistia. E pedia o fim do Estado autoritário implantado em 1968. Finalmente, a 13 de outubro de 1978, caiu o AI-5, sendo restabelecidas as prerrogativas da magistratura e o habeas corpus, e abrindo-se caminho para a decretação da futura anistia, aspectos que sempre foram objeto das veementes manifestações da OAB. 
7 - A década 1980/1990: a oposição vence as eleições e o Brasil tem nova Constituição; 
no ano do seu cinquentenário a OAB sofre atentado a bomba e lidera a luta das \u2018diretas 
já\u2019 
 Esta foi uma década de intensa movimentação política, de grandes transformações institucionais e de protestos violentos. O País não mais suportava as restrições impostas pelo regime militar implantado em 1964. A partir do início dos anos 80, a política recessiva levou o desemprego a proporções dramáticas. Em 1980, a OAB completava cinquenta anos de presença no cenário político do País e gozava de grande prestígio nos mais diversos segmentos sociais. No princípio desta década, a Ordem ampliou a sua participação na vigilância dos interesses da sociedade, passando a empunhar bandeiras mais gerais, que iam além dos pleitos específicos dos advogados. O Presidente da entidade tinha assento no CDDPH (Conselho de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana). Dezenas de pessoas procuravam a OAB, pedindo ajuda em questões como o desaparecimento de presos políticos. Evidentemente, porém, no seu cinquentenário e mercê das suas posições firmes em favor da liberdade, a OAB também já 
 REVISTA DA ORDEM DOS ADVOGADOS DO BRASIL ANO XL N° 91 JULHO/DEZEMBRO 2010 
149 
 
havia angariado antipatias dos setores conservadores e direitistas, assim como dos governantes ilegítimos. No mês de maio de 1980, do dia 18 ao dia 22, instalou-se em Manaus, Amazonas, a 
VIII CONFERÊNCIA NACIONAL DOS ADVOGADOS, cujo tema principal, refletindo o momento histórico do País, era a Liberdade, entendida como fundamento e finalidade última da democracia. Presidia a OAB o advogado Seabra Fagundes. Mesmo reconhecendo os avanços da abertura política, os advogados salientavam que ainda remanesciam estruturas legais de sustentáculo da ditadura, retardando o processo de redemocratização. A \u201cDeclaração de Manaus\u201d afirmou: \u201cO 
Grande problema atual do poder é um problema de legitimidade. Não há poder legítimo sem 
consentimento do povo. Os advogados brasileiros afirmam que falta legitimidade ao poder 
institucionalizado em nosso país.\u201d A partir de 1980, aprofundou-se o agravamento das condições de vida da população. O regime militar não conseguia acabar com a crise social. E setores direitistas, interessados na manutenção do governo ditatorial e contrários ao processo de abertura, iniciaram uma série de atentados terroristas. Em 27 de agosto de 1980, um trágico e covarde atentado abalou a OAB: a secretária da Ordem, Lyda Monteiro da Silva, teve o corpo dilacerado no momento em que abria uma carta dirigida ao Presidente da OAB, Eduardo Seabra Fagundes. A Ordem contratou um perito independente para acompanhar as investigações, mas o caso nunca foi esclarecido, ninguém foi considerado culpado. Sobre o episódio, em entrevista concedida a Marly Motta 6, Seabra Fagundes declarou: \u201cAquilo ali foi o início da derrocada do regime. Tudo 
o que aconteceu depois, até a Constituinte, começou naquele dia (...) Em função do atentado, a 
Ordem e eu mesmo aparecíamos diariamente na primeira página dos principais jornais do país.\u201d Houve outros atentados a bomba. O jornal \u201cO Estado de São Paulo\u201d também foi vítima. E, em 30 de abril de 1981, duas bombas explodiram durante um show de música popular brasileira em comemoração ao dia 1º de maio. O episódio ficou conhecido como o atentado do RIOCENTRO, pois o show se realizava no Centro de Convenções Riocentro, no Rio de Janeiro. A OAB, através do CDDPH, reagiu energicamente ao atentado, exigindo o mais completo e cabal esclarecimento do episódio terrorista. Tendo como tema geral a \u201cJustiça Social\u201d, realizou-se em Florianópolis, Santa Catarina, de 02 a 06 de maio de 1982, a IX CONFERÊNCIA NACIONAL DOS ADVOGADOS. O 
 
6 . Marly Silva da Motta. A Ordem dos Advogados do Brasil: entre a corporação e a instituição. Ciência Hoje. Rio 
de Janeiro, vol. 39, p. 32/37, dezembro \u2013 2006. 
 REVISTA DA ORDEM DOS ADVOGADOS DO BRASIL ANO XL N° 91 JULHO/DEZEMBRO 2010 
150 
 
advogado Bernardo Cabral presidia a OAB. O assunto mais debatido neste encontro foi a necessidade de promulgação de uma Constituição democrática. Cada vez mais identificada com os anseios da população, a OAB, além de defender uma Assembleia Constituinte eleita livremente, pregava também o respeito às prerrogativas dos poderes legislativo e judiciário e a abolição dos mecanismos legais arbitrários, como a Lei de Segurança Nacional e a Lei Falcão. Nesta IX Conferência, a OAB reivindicava uma Constituição modelo, que fosse \u201co espelho da nação\u201d. A nova Carta constitucional deveria assegurar autonomia dos sindicatos, revisão do sistema penal brasileiro, assistência judiciária gratuita aos necessitados, liberdade de imprensa, direito de greve e, finalmente, um Parlamento independente, livre de submissão ao Poder Executivo. O ano de 1982 registrou, pela primeira vez desde 1964, a vitória da oposição nas eleições, ficando a Câmara Federal com maioria oposicionista. Nessa mesma eleição, a oposição também conquistou o governo de dez Estados da Federação. Em abril de 1983, saques e depredações atingiram populações inteiras de vilas e bairros das capitais dos Estados, notadamente em São Paulo, onde foram devastadas centenas de casas comerciais. No interior paulista, boias-frias enraivecidos com baixos salários e péssimas condições de trabalho promoveram confrontos com policiais armados e incendiaram canaviais. A crise refletia-se na perda do valor da moeda, com a inflação atingindo incríveis 300% ao ano. O ano de 1984 também foi marcado por grande mobilização popular, que atingiu o País de norte a sul, de leste a oeste, dos mais recônditos grotões aos mais refinados salões dos centros urbanos. 1984 foi o ano das oposições. Clamava-se por eleições diretas em todos os níveis e exigia-se definitivamente o fim do regime ditatorial, que há 20 anos emudecia a Nação. O povo saía às ruas em comícios que, calculava-se na época, reuniam cerca de 1,5 milhão de pessoas. O Presidente da República era o general João Baptista Figueiredo, o quinto presidente escalado pelos militares, desde o golpe de 64. O povo queria escolher o seu sucessor. Presidida por Mário Sérgio Duarte Garcia, a X CONFERÊNCIA NACIONAL DOS 
ADVOGADOS foi realizada em Recife, Pernambuco, de 30 de setembro a 04 de outubro