RevistaOAB_91
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XX foi a era do relativismo moral e da desindividualização da culpa, que foram o \u201cabra-te, Sésamo\u201d das catástrofes autoritárias que ensanguentaram o século passado. O que importa extrair dos parágrafos anteriores é reconhecimento de que o século XX não começou em 1901 e nisto, o Brasil tampouco foi exceção. Pode-se dizer que o primeiro ano do século XX brasileiro foi o ano de 1922. O início daquele ano foi sacudido pela 
 
2 Muito embora a denominação e a fundamentação teórica do instituto do contrato de adesão tenham surgido antes 
da Primeira Guerra Mundial, com o estudo do jurista francês Raymond Saleilles sobre a parte geral do Código Civil 
alemão, o famoso BGB (Bürgerliches Gesetzbuch). 
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campanha presidencial de Nilo Peçanha, a \u201cReação Republicana\u201d, opositora ao pacto oligárquico do \u201ccafé-com-leite\u201d. A \u201cReação Republicana\u201d foi a primeira campanha presidencial moderna da História do Brasil, com seu candidato percorrendo vários estados do país durante a campanha, propondo uma plataforma que pedia, entre outras demandas, o voto secreto e direitos trabalhistas para os operários, tudo isto acompanhado por uma propaganda agressiva que buscava galvanizar a opinião pública. Tudo em vão, pois o candidato governista, Artur Bernardes, fraudulentamente venceu a eleição. Em fevereiro de 1922 ocorreu a Semana de Arte Moderna, que na verdade durou apenas três dias, assinalando a entrada da Cultura Brasileira no Modernismo. Em 25 de março daquele ano foi fundado o Partido Comunista Brasileiro (PCB), o primeiro partido político verdadeiramente moderno da História do Brasil, posto que até então os partidos brasileiros eram mais clubes políticos do que verdadeiras agrupações programáticas. Em maio de 1922, Jackson de Figueiredo fundou o Centro Dom Vital, que seria o grande catalisador da intelectualidade católica brasileira durante as décadas seguintes. Em 17 de junho, os aviadores portugueses Gago Coutinho e Sacadura Cabral pousaram no Rio de Janeiro, culminando com êxito a primeira travessia aérea do Atlântico Sul. Em 5 de julho de 1922 estourou o levante dos Dezoito do Forte, o primeiro levante tenentista, que marcou a entrada em cena de atores que seriam fundamentais na trama histórica brasileira das décadas seguintes: os tenentes dos anos 1920 seriam os coronéis dos anos 1950 e os generais dos anos 1960. Seria a geração militar que pugnou por uma modernização acelerada, porém autoritária, do Brasil. E quanto mais impaciente fosse esse militar em seu anseio modernizador, mais autoritário ele seria. E quanto mais a força armada dependesse da modernização, mais ela penderia para o autoritarismo. Daí que não é de surpreender o caráter mais radical e autoritário de boa parte da Força Aérea Brasileira: Jacareacanga, Aragarças, a tentativa de forjar um atentado terrorista em 1968 no Gasômetro da cidade do Rio de Janeiro etc. No entanto, caso se queira ter no Estado brasileiro o referencial para o início do século XX brasileiro, o ano chave foi, sem sombra de dúvida, 1930. Em 1930, a economia brasileira entrou em crise, posto que a quebra da Bolsa de Nova York no ano anterior afetara em cheio o principal mercado consumidor do café brasileiro: os Estados Unidos. A crise econômica precipitou a crise política: o pacto que fazia com que as duas principais oligarquias do Brasil (a paulista e a mineira) compartilhassem o poder federal foi rompido. Sérgio Buarque de Holanda, no seu Raízes do Brasil, já advertia que numa \u201cterra de barões\u201d como o Brasil, o pior pecado é o rompimento da palavra dada, o rompimento do pacto. O pacto sobre o qual se assentava a \u201cPolítica do Café com Leite\u201d previa que a sucessão presidencial de 1930 fosse definida em favor de um mineiro, porém o então 
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presidente Washington Luís preferiu indicar um paulista para sucedê-lo: Júlio Prestes. Os preteridos e descontentes agruparam-se em torno da fórmula presidencial Getúlio Vargas-João Pessoa, que, em março de 1930, foi derrotada em eleições novamente fraudulentas pela chapa Júlio Prestes-Vital Soares. A princípio, as oligarquias derrotadas aceitaram o resultado fraudulento, cúmplices que eram daquele sistema que era, antes de tudo, oligárquico. No entanto, a bala homicida que tirou a vida de João Pessoa, em 26 de julho daquele ano, no Recife, precipitou os acontecimentos. O movimento revolucionário de 1930 era heterogêneo. Seu componente civil era predominantemente liberal: protestava contra as farsas eleitorais, propondo a ampliação do eleitorado e a instituição do voto secreto, a anistia aos condenados políticos e o fim do poder das oligarquias locais. Porém, a Revolução de 1930 era também um movimento conservador, pois muitos dos seus participantes eram membros das próprias oligarquias estaduais, como o próprio João Pessoa3. Já o componente militar do movimento, de extração tenentista, era autoritário e pretendia centralizar o poder, colocando sob seu controle as oligarquias estaduais e facilitando assim o desenvolvimento acelerado do Brasil. A Revolução de 1930 significou a chegada das classes médias brasileiras ao poder. Não que antes não governassem homens oriundos das classes médias. A maioria dos presidentes da República Velha, por exemplo, veio das classes médias, quase todos eles advogados. No entanto, eles não governavam em nome das classes médias nem para elas, mas para as classes conservadoras oligárquicas, vinculadas à agro-exportação. Em 1930, com a chegada de Getúlio Vargas ao poder, também ele um advogado, começou-se a se governar satisfazendo os anseios das classes médias brasileiras. E o principal anseio destas era o desenvolvimento do país. O Desenvolvimento seria o norte da bússola do projeto nacional brasileiro por pelo menos meio século, até meados da década de 1980. Dentre as profissões mais vinculadas às classes médias no imaginário coletivo, encontra-se a profissão do advogado. Assim, não é mera coincidência que tenha sido logo após a vitória da Revolução de 1930 que a OAB tenha sido fundada. O artigo 17 do Decreto nº 19.408, de 18 de novembro de 1930, criou a Ordem dos Advogados do Brasil, apenas quinze dias depois da chegada de Getúlio Vargas ao poder e da vitória da Revolução de 1930. O desembargador mineiro André de Faria Pereira persuadiu 
 
3 João Pessoa era então governador da Paraíba (1928-1930). Àquela época, os Pessoas dominavam, juntamente 
com um punhado de famílias, a política paraibana, tanto que um dito popular afirmava: \u201cParaíba: terra boa. Pouca 
gente, mas muitas pessoas\u201d. O presidente Epitácio Pessoa (1919-1922) também pertencia a esse ramo da família. 
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o então Ministro da Justiça, o advogado gaúcho Osvaldo Aranha, a inserir no referido decreto o seu artigo 17, com a seguinte redação: 
Art. 17. Fica criada a Ordem dos Advogados Brasileiros, órgão de disciplina e 
seleção da classe dos advogados, que se regerá pelos estatutos que forem votados pelo Instituto 
da Ordem dos Advogados Brasileiros, com a colaboração dos Institutos dos Estados, e aprovados 
pelo Governo. Na presidência do Instituto da Ordem dos Advogados Brasileiros estava Levi Carneiro, então Consultor-Geral da República, que assumiu a tarefa de organizar a Ordem dos Advogados do Brasil, tornando-se assim o primeiro presidente do Conselho Federal da OAB. Coube a Levi Carneiro coordenar a elaboração dos estatutos da OAB, elaborar uma exposição de motivos para tal e obter a sua aprovação. Esta se deu pelo Decreto nº 20.784, de 14 de dezembro de 1931. Permaneceu este em vigor até ser revogado pela Lei nº 4.215, de 27 de abril de 1963, que o substituiu. Ganhava assim a advocacia brasileira