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DisciplinaIntrodução ao Direito I92.949 materiais690.147 seguidores
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O censo demográfico relativo à última década do século XX, levantando pelo IBGE, 
demonstra que a pirâmide da perversa distribuição de renda no Brasil exclui a grande maioria da 
população da incidência das normas da legislação civil voltadas à tutela do patrimônio. A realidade 
palpável é a de o Código Civil permanecer impermeável - inclusive no que concerne às relações de 
família - aos interesses da maioria da população brasileira que não tem acesso às riquezas materiais. 
 Evidentemente, as relações de família também têm natureza patrimonial; sempre terão. 
Todavia, quando passam a ser determinantes, desnaturam a função da família, como espaço de 
realização pessoal e afetiva de seus membros. 
 
2 VILLELA, João Baptista, considera a proibição de casar aos maiores de sessenta anos um reflexo agudo da 
postura patrimonialista do Código Civil e constitui mais um dos ultrajes gratuitos que nossa cultura inflige à 
terceira idade. E arremata: \u201ca afetividade enquanto tal não é um atributo da idade jovem\u201d. Liberdade e 
Família. Belo Horizonte: Faculdade de Direito da UFMG, 1980, p. 35-6. 
 
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4. A repersonalização 
 
 A família, ao converter-se em espaço de realização da afetividade humana, marca o 
deslocamento da função econômica-política-religiosa-procracional para essa nova função. 
Essas linhas de tendências enquadram-se no fenômeno jurídico-social denominado 
repersonalização das relações civis, que valoriza o interesse da pessoa humana mais do que 
suas relações patrimoniais. É a recusa da coisificação ou reificação da pessoa, para ressaltar 
sua dignidade. A família é o espaço por excelência da repersonalização do direito. 
 Retoma-se o itinerário da afirmação da pessoa humana como objetivo central do 
direito. No mundo antigo, o conceito romano de humanitas era o da natureza compartilhada 
por todos os seres humanos. No Digesto (1, 5, 2) encontra-se o famoso enunciado: hominum 
causa ius constitutum sit, todo direito é constituído por causa dos homens. Essa centralidade na 
pessoa humana foi acentuada na modernidade desde seu início, principalmente com o 
iluminismo, despontando na construção grandiosa dos direitos humanos fundamentais e do 
conceito de dignidade da pessoa humana. Daí a bela proclamação da Declaração Universal dos 
Direitos Humanos contida em seu art. 1º: \u201cTodos os seres humanos nascem livres e iguais em 
dignidade e direitos\u201d. No mundo atual, o foco na pessoa humana é matizado com a consciência 
da tutela jurídica devida aos outros seres vivos (meio ambiente) e da coexistência necessária, 
pois a pessoa existe quando coexiste (solidariedade). 
 O anacronismo da legislação sobre família revelou-se em plenitude com o despontar 
dos novos paradigmas das entidades familiares. O advento do Código Civil de 2002 não pôs 
cobro ao descompasso da legislação, pois várias de suas normas estão fundadas nos 
paradigmas passados e em desarmonia com os princípios constitucionais referidos. 
 A excessiva preocupação com os interesses patrimoniais que marcou o direito de 
família tradicional não encontra eco na família atual, vincada por outros interesses de cunho 
pessoal ou humano, tipificados por um elemento aglutinador e nuclear distinto - a afetividade. 
Esse elemento nuclear define o suporte fático da família tutelada pela Constituição, 
conduzindo ao fenômeno que denominamos repersonalização. 
 É necessário delimitar o sentido que desejamos emprestar ao terno. Não se está 
propugnando um retorno ao individualismo liberal. O liberalismo tinha a propriedade como 
valor necessário da realização da pessoa, em torno da qual gravitavam os demais interesses 
privados. A família, nessa concepção, deveria ser referencial necessário para a perpetuação das 
relações de produção existentes, sobretudo mediante regras formais de sucessão de bens, de 
unidade em torno do chefe, de filiação certa. 
 
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 O desafio que se coloca ao jurista e ao direito é a capacidade de ver a pessoa humana 
em toda sua dimensão ontológica e não como simples e abstrato sujeito de relação jurídica. A 
pessoa humana deve ser colocada como centro das destinações jurídicas, valorando-se o ser e 
não o ter, isto é, sendo fator de medida do patrimônio, que passa a ter função complementar. 
 Orlando de Carvalho julga oportuna a repersonalização de todo o direito civil \u2013 seja qual 
for o invólucro em que esse direito se contenha \u2013 isto é, a acentuação de sua raiz antropocêntrica, de 
sua ligação visceral com a pessoa e seus direitos. É essa valorização do poder jurisgênico do homem 
comum \u2013 inclusive no âmbito do direito de família, quando sua efetividade se estrutura \u2013 é essa 
centralização em torno do homem e dos interesses imediatos que faz o direito civil, para o autor, o 
foyer da pessoa, do cidadão mediano, do cidadão puro e simples. 
 A restauração da primazia da pessoa, nas relações de família, na garantia da 
realização da afetividade, é a condição primeira de adequação do direito à realidade. Essa 
mudança de rumos é inevitável. 
 A Convenção Internacional sobre os Direitos da Criança, de 1989, adotada pela 
Assembléia das Nações Unidas, e internalizada no direito brasileiro, com força de lei em 1990, 
preconiza a proteção especial da criança mediante o princípio do melhor interesse, em suas 
dimensões pessoais. Para cumprir o princípio do melhor interesse, a criança deve ser posta no 
centro das relações familiares, devendo ser considerada segundo o \u201cespírito de paz, dignidade, 
tolerância, liberdade, igualdade e solidariedade\u201d. As crianças são agora definidas de maneira 
afirmativa, como sujeitos plenos de direitos; \u201cjá não se trata de \u2018menores\u2019, incapazes, pessoas 
incompletas, mas de pessoas cuja única particularidade é a de estarem crescendo\u201d. Tais valores 
não são compatíveis com razões predominantemente patrimoniais. 
 A família tradicional aparecia através do direito patrimonial e, após as codificações 
liberais, pela multiplicidade de laços individuais, como sujeitos de direito atomizados. Agora, 
é fundada na solidariedade, na cooperação, no respeito à dignidade de cada um de seus 
membros, que se obrigam mutuamente em uma comunidade de vida. A família atual é apenas 
compreensível como espaço de realização pessoal afetiva, no qual os interesses patrimoniais 
perderam seu papel de principal protagonista. A repersonalização de suas relações revitaliza as 
entidades familiares, em seus variados tipos ou arranjos. 
 Por outro ângulo, o interesse a ser tutelado não é mais o do grupo organizado como 
esteio do Estado e o das relações de produção existentes. A subsunção da família no Estado, 
uma condicionando o outro, estava pacificamente assente na doutrina jurídica tradicional. 
Savigny afirmava que na família se teria o germe do Estado, e o Estado, uma vez formado, tem 
por elemento imediato a família e não as pessoas. 
 As relações de consangüinidade, na prática social, são menos importantes que as 
oriundas de laços de afetividade e da convivência familiar, constituintes do estado de filiação, 
que deve prevalecer quando houver conflito com o dado biológico, salvo se o princípio do 
melhor interesse da criança ou o princípio da dignidade da pessoa humana indicarem outra 
 
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orientação, não devendo ser confundido o direito àquele estado com o direito à origem 
genética, como demonstramos alhures. A adoção foi alçada pela Constituição à mesma 
dignidade da filiação natural, confundindo-se com esta e revelando a primazia dos interesses 
existenciais e personalizantes. Até mesmo a adoção de fato, denominada de \u201cadoção à 
brasileira\u201d,