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Paulo: 1998. p. 311-312. 
 
REVISTA DA ORDEM DOS ADVOGADOS DO BRASIL ANO XL Nº 90 JANEIRO/JUNHO 2010 
 
 
 
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\u201cA variação de predominância de interesse municipal, no tempo e no espaço, é 
um fato, particularmente no que diz respeito à educação primária, trânsito 
urbano, telecomunicações etc.\u201d 
 
Sabe-se que os interesses locais do município são aqueles predominantes, portanto, se 
não são exclusivos, vislumbra-se a possibilidade de matérias sujeitas a regulamentação das três 
ordens estatais. Nesse sentido, admite-se que sobre um mesmo assunto, concomitantemente, 
legislem a União, Estados, Distrito Federal e Municípios, atendendo ao princípio da 
predominância do interesse. Portanto, sempre que \u201cessa predominância toca ao município a ele 
cabe regulamentar a matéria, como assunto de seu interesse local\u201d e, nesses casos, as 
reminiscências de aspecto municipal avultam ao Poder Público local o dever de agir. 
 
4. COMPETÊNCIA AMBIENTAL MUNICIPAL INFRACONSTITUCIONAL 
 
4.1. Competência material 
 
Privativamente, compete ao município administrar os assuntos de interesse local (art. 30, I). 
A Constituição da República de 1988, no art. 23, partilhou entre os vários entes da 
Federação, inclusive os municípios, competência comum, em que todos, isolados, em parceria 
ou em conjunto, a saber: 
 
\u201cArt. 23. É competência comum da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos 
Municípios: 
III- proteger os documentos, as obras e outros bens de valor histórico, artístico e 
cultural, os monumentos, as paisagens naturais notáveis e os sítios arqueológicos; 
VI \u2013 proteger o meio ambiente e combater a poluição em qualquer de suas formas; 
VII \u2013 preservar as florestas, a fauna e a flora.\u201d 
 
Conforme assevera Vladimir Passos de Freitas (2001)21, é importante observar que, em 
face da competência comum, pouco importa quem seja o detentor do domínio do bem ou o 
ente que legislou a respeito. Todos podem atuar na preservação das árvores, da fauna, da flora. 
 
 
21 FREITAS, Vladimir Passos de. Direito administrativo e meio ambiente. 3. ed., Curitiba: Juruá, 2001, p. 20-
24. 
 
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Acrescenta o mestre sobre a necessária cooperação entre as pessoas políticas. Acentua 
que a Constituição é feita e dirigida para pessoas e que avaliaram os constituintes as disputas e 
desavenças possíveis na partilha de competência material. Foi por isso que o art. 23, parágrafo 
único, estipulou que: 
 
"Lei complementar fincará normas para a cooperação entre a União e os 
Estados, o Distrito Federal e os Municípios, tendo em vista o equilíbrio do 
desenvolvimento e do bem-estar em âmbito nacional". 
 
Todavia, apesar do tempo passado, não foi elaborada a lei complementar. Discute-se, por 
outro lado, a necessidade de lei complementar para que dita cooperação se efetive. Afirma ainda o 
professor que: 
 
 "o artigo 23 tem eficácia plena, e não necessita de norma infraconstitucional para 
regulá-lo. A referida lei complementar, a nosso ver, viria apenas indicar a maneira 
pela qual se daria a cooperação entre as entidades". 
 
De fato, é a conclusão mais coerente, pois em matéria constitucional ambiental, leciona o 
professor Vladimir, é importante que se opte pela que mais favorecer ao meio ambiente. Se a 
cooperação é voluntária e prevista na Constituição, razão não há para negar-lhe aplicação por falta 
de lei complementar, uma vez que ela virá apenas detalhar a forma como se dará a cooperação. 
Porém não são poucas variáveis que dificultam ou até inviabilizam uma eficiente realização 
das atribuições decorrentes da competência material comum. O Desembargador Federal Paulo 
Afonso Brum Vaz (2009)22, elenca uma série de fatores e causas responsáveis pela inefetividade da 
proteção ambiental no Brasil. Especificamente no que concerne às atribuições administrativas para 
proteger o meio ambiente, assim se manifesta: 
 
 
"não obstante a clareza da disposição constitucional ao consagrar a competência 
protetiva comum para proteger o meio ambiente e combater a poluição em qualquer 
de suas formas (art. 23, VI), constata-se que poucas são as questões que não 
suscitam discussões. Os municípios, muitos sem aparato suficiente para fiscalizar a 
 
22 VAZ, Paulo Afonso Brun. Direito Administrativo Ambiental: aspectos de uma crise de efetividade. 2009, p. 
12. 
 
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poluição local, discutem com os Estados e estes com a União e suas Autarquias. 
Enquanto se discute, diante da indefinição, não há disciplina, não há licenciamento 
de atividades, tampouco fiscalização e, portanto, controle prévio. Ora se debate 
diante de um conflito negativo, nenhuma esfera, entidade ou órgão reconhece sua 
atribuição para atuar sobre a matéria, ora se discute um conflito positivo, duas 
esferas, órgãos ou entidades se entendem competentes para a matéria, gerando as 
conhecidas confusões: um licencia, o outro nega a licença; um autoriza, o outro 
não. Da indefinição e da insegurança se aproveitam os degradadores do ambiente. 
Surgem, aqui e ali, fissuras no sistema que é nacional (Sisnama) e foi concebido 
para atuar de forma harmônica, coordenada e solidária". 
 
4.2. Competência legislativa 
 
Segundo o artigo 24 da CR/88, compete à União, aos Estados e ao Distrito Federal 
legislar concorrentemente, dentre outras matérias, sobre: 
 
\u201cI \u2013 direito urbanístico 
VI - florestas, caça, pesca, fauna, conservação da natureza, defesa do solo e dos 
recursos naturais, proteção do meio ambiente, controle da poluição; 
VII - proteção ao patrimônio histórico, cultural, artístico, turístico e 
paisagístico; 
VIII - responsabilidade por dano ao meio ambiente, a bens e direitos de valor 
artístico, estético, histórico, turístico e paisagístico.\u201d 
 
Os parágrafos do mencionado artigo esmiúçam a forma da legislação concorrente, 
devendo a União limitar-se ao estabelecimento de normas gerais. 
Por sua vez, o artigo 30 disciplina que compete aos municípios: 
 
\u201cI \u2013 legislar sobre assuntos de interesse local; 
II \u2013 suplementar a legislação federal e a estadual no que couber;\u201d 
Se a redação é clara quanto à competência da União, dos Estados e do ao Distrito 
Federal, o mesmo não se pode afirmar quanto à competência dos municípios para legislar na 
 
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matéria ambiental. Alie-se isso às dificuldades interpretativas decorrentes do subjetivismo do 
que seja "interesse local", conforme anteriormente exposto. 
Segundo Vladimir Passos de Freitas (2001)23 a competência dos municípios para 
legislar em matéria ambiental é, também, fonte de dúvidas. De plano, esclarece que a 
competência comum a que se refere o art. 23 da Carta Magna não é para legislar, mas sim para 
atuar na proteção do meio ambiente. 
A obra mencionada nos traz a posição de vários doutrinadores tanto daqueles que 
entendem que o município não pode legislar sobre meio ambiente, quanto daqueles que 
defendem posição oposta. Além disso, ultrapassa as discussões teóricas acerca do que é 
interesse local para a análise de situações reais, envolvendo casos concretos que envolvem a 
legislação municipal ambiental. 
Ao final, nos brinda o autor (2001)24 com as seguintes conclusões: 
 
\u201ca) o interesse local deve ser apurado em cada caso concreto \u2013 tarefa árdua \u2013 
que se examine caso a caso, pois não pode o interesse local sobrepor-se a tudo; 
b) a legislação municipal que regula o uso do solo urbano deve ater-se às 
prescrições gerais da União na esfera de sua competência. Por exemplo,