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das investigações, como se o escrito anônimo não existisse, tudo se passando como se tivesse 
havido notitita criminis inqualificada”. (Autor citado, Curso de Direito Constitucional, 2ª. 
edição, São Paulo, Saraiva, 2008, p. 430, nº 17.1). 
 
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 Sem dúvida, o Ministro Celso de Mello, no referido voto, tocou no ponto nevrálgico 
da questão. A delação anônima pode constituir uma pista capaz de levar à investigação do 
fato; jamais, porém, poderá servir de instrumento à instauração de inquérito de qualquer 
natureza, ainda que instruída com elementos mínimos de convicção. Ela não pode ser, de 
forma alguma, peça processual. Se a autoridade entender de utilizá-la, fa-lo-á informalmente, 
como se fora mera comunicação suscetível de despertar a busca de determinados elementos 
probatórios. 
 Esse mesmo entendimento, expresso de forma ainda mais incisiva, encontra-se no 
acórdão proferido pelo Supremo Tribunal Federal no HC nº 100042-MC/RO e, igualmente, 
relatado pelo eminente Min. Celso de Mello: 
 
“Peças apócrifas não podem ser formalmente incorporadas a procedimentos 
instaurados pelo Estado, salvo quando forem produzidas pelo acusado ou, ainda, 
quando constituírem, elas próprias, o corpo de delito (como sucede com bilhetes de 
resgate no crime de extorsão mediante seqüestro, ou como ocorre com cartas que 
evidenciem a prática de crimes contra a honra, ou que corporifiquem o delito de 
ameaça ou que materializem o “crimen falsi”, p. ex.). 
 Nada impede, contudo, que o Poder Público, provocado por delação anônima 
(“disque-denúncia”, p. ex.) adote medidas informais destinadas a apurar, 
previamente, em averiguação sumária, “com prudência e discrição”, a possível 
ocorrência de eventual situação de ilicitude penal, desde que o faça com o objetivo de 
conferir a verossimilhança dos fatos nela denunciados, em ordem a promover, então, 
em caso positivo, a formal instauração da “persecutio criminis”, mantendo-se, assim, 
completa desvinculação desse procedimento estatal em relação às peças apócrifas.” 
(Informativo do STF na Internet.) 
 
 Assim decidindo, o Supremo Tribunal Federal manteve-se coerente com a orientação 
assente no MS nº 24.405/DF, relator o eminente Ministro Carlos Velloso, quando “declarou, 
“incidenter tantum”, a inconstitucionalidade da expressão “manter ou não o sigilo quanto ao 
objeto e à autoria da denúncia” constante do § 1º do art. 55 da Lei Orgânica do Tribunal de 
Contas da União (Lei nº 8.443/92) – colhido no Informativo do STF, na Internet. 
 
 Pelas razões expostas, entendo que o malsinado art. 51, § 2º, do projeto em exame 
deve ser rejeitado. 
 
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 Felizmente, no particular, o substitutivo está acorde com este entendimento, 
regulando de outra forma a instauração do inquérito administrativo e prevendo, inclusive, 
recurso do interessado ao Conselho Superior do Ministério Público contra a sua instauração 
(art. 50, § 1º). 
19. Do ponto de vista da técnica legislativa, o projeto parece não haver merecido reparo, 
na Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania da Câmara dos Deputados. 
 Mas, na verdade, o projeto carece de revisão, em alguns pontos. No Capítulo III, 
atinente aos pressupostos processuais e condições da ação coletiva, insere-se a disciplina da 
competência para a ação civil – que, a rigor, nada tem a ver com aqueles requisitos. Até 
mesmo o dispositivo que estende a legitimação ativa à Ordem dos Advogados do Brasil -- 
merecedor, da nossa parte, de todos os encômios – comporta melhor redação, que explicite a 
atuação do Conselho Federal, dos Conselhos Seccionais e das Diretorias das Subseções da 
OAB (v. art. 6º, IV). 
 O substitutivo não corrige essas falhas e chega, até, a incidir em outras. 
Disciplinando, por exemplo, os prazos da Fazenda Pública, o substitutivo preceitua, no art. 14, 
parágrafo único: 
 
À Fazenda Pública aplicam-se os prazos previstos na Lei nº 5.869, de 11 de 
janeiro de 1973 – Código de Processo Civil, sendo de 60 (sessenta) dias o 
prazo para a resposta. 
 
 Ora, se o procedimento é o ordinário e se se aplicam os prazos que o 
Código de Processo Civil estabelece para a Fazenda Pública, no seu art. 188, para que dizer 
que o prazo para a resposta será de 60 (sessenta) dias ? E, omitindo referência à outra hipótese 
de prazo especial ali prevista, pretende-se, porventura, afastar o cômputo em dobro dos prazos 
para recorrer ? 
20. O substitutivo – que, na verdade, não condiz com esse título, uma vez que traz 
apenas umas poucas alterações pontuais – não contém os excessos do projeto. Num ponto, ao 
menos, chega a agravá-las. Veja-se a disposição acrescida, sobre as provas admissíveis na 
ação civil pública, que consta do art. 20, parágrafo único, do citado substitutivo: 
 
Todos os meios lícitos, ainda que não especificados em lei, são hábeis para provar 
a verdade dos fatos em que se funda a ação coletiva e a defesa, inclusive as 
evidências por amostragem, por estatísticas e os diagnósticos sociais. 
 
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 Essa disposição é, antes de tudo, desnecessária, à vista do que preceitua o art. 332 do 
Código de Processo Civil. As novas modalidades de prova de que o substitutivo parece cogitar 
são instrumentos suscetíveis de ser invocados pelo juiz, tanto quanto correspondam a máximas 
da experiência, que ele pode ter em conta, na forma do art. 335 do mesmo Código e consoante 
a boa e prudente orientação jurisprudencial. Erigir tais instrumentos auxiliares do trabalho 
judicial ao nível de espécies probatórias, como faz o substitutivo, não me parece aconselhável. 
21. Ser-nos-ia impossível proceder a exame mais detido do projeto, que o analisasse 
artigo por artigo. Nem isso seria tarefa da alçada deste Conselho Federal. Além do que, no 
estado atual de tramitação do projeto, é recomendável que o nosso parecer se restrinja a 
determinados pontos, em relação aos quais mostra-se cabível, oportuna e necessária nossa 
contribuição. 
 Entendo, por isso, que não nos cumpre manifestar sobre a aprovação ou não do 
projeto, mas, tão só, sugerir-lhe o aperfeiçoamento, com a correção de impropriedades mais 
relevantes. 
 E tal se fará desde que este voto seja acolhido pelo Pleno, com os adminículos que o 
Egrégio Conselho, eventualmente, ache por bem oferecer. 
22. O projeto que se vem de analisar revela, em suas linhas gerais, aspectos 
preocupantes. À medida que se empenha em conferir à ação coletiva disciplina especialíssima, 
quase lhe atribuindo o caráter de direito excepcional, o projeto resvala para um tipo de 
normatização marcadamente autoritário. 
23. Por fim, não pode ficar sem registro uma observação. A oportunidade do envio ao 
Congresso de projeto de lei disciplinando a ação civil pública é um ponto que está a reclamar 
melhor esclarecimento. Isto porque, há algum tempo, vem-se cogitando da adoção de um 
Código Brasileiro de Processo Coletivo, já havendo sido elaborados dois anteprojetos sobre a 
matéria – um dos quais, aliás, referido, acima, neste voto. A própria exposição de motivos do 
Ministro da Justiça alude a esses anteprojetos (v. item “4”). Pretenderia o Governo dar curso à 
idéia de um Código de Processo Coletivo ? Em caso afirmativo, como justificar a precedência 
conferida ao projeto de uma nova lei sobre a ação civil pública ? Estaria a modalidade 
específica recebendo tratamento antes de cuidar-se da disciplina global dos instrumentos de 
tutela coletiva ? Tais são as dúvidas que emergem do assunto. 
 Sobre os anteprojetos de Código Brasileiro de Processos Coletivos, releva notar que 
deles resultou texto