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História da Filosofia Medieval, Santo Agostinho, Platão

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Página 1 de 10 
 
 
 
 
UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO SUL 
DEPARTAMENTO DE FILOSOFIA 
 
 
 
 
 
UMBERTO DE BEM MACIEL (00326075) 
 
 
 
 
 
 
 
História da Filosofia Medieval 
(HUM01065-A) - 2021/1 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Fernando Pio de Almeida Fleck 
Porto Alegre, outubro 2021 
Página 2 de 10 
 
Santo Agostinho 
 
1. Compare a concepção de Santo Agostinho com a de Platão no que concerne às 
ideias, à transmigração das almas, à reminiscência e à iluminação. 
 
2. Explique como Santo Agostinho trata a questão “O que fazia Deus antes de criar 
o mundo?”. 
 
 
Introdução 
 
Aurelius Augustinus, ou Santo Agostinho, nasceu em Tagaste e é conhecido como 
um dos maiores nomes da filosofia medieval. Ele viveu no período de 354-430 d.C., que 
é considerado como idade antiga, essa associação com a filosofia medieval, se deve ao 
fato de que o período compreendido entre meados do século II d.C. e o ano de 529 d.C. 
ser um período em que a filosofia antiga e a filosofia medieval coexistem, sendo incluído 
o período de parte da filosofia greco-romana (II d.C.) tardia até a patrística1 em meados 
do século VIII d.C.2. Alguns autores adotam critérios mais estritos de demarcação e 
afirmam que a filosofia medieval deve ser compreendida apenas aquela elaborada durante 
a idade média, ou seja, quase exclusivamente o período da escolástica, que vai do século 
XI até XIII3. 
Santo Agostinho, como ele mesmo narra no livro “Confissões”, era alguém que 
vivia os prazeres da carne em seu máximo, ele escreve: “Eu me esbanjava e ardia nas 
minhas fornicações.”4 . Ele morava em Tagaste, província romana no norte da África, sua 
mãe, Mônica, era uma cristã devota e seu pai, Patrício, era um pagão que se converteu ao 
cristianismo em seu leito de morte. Aos 16 anos ele chega em Cartago com o objetivo de 
estudar retórica, visando uma carreira administrativa no império romano. Esse estudo será 
de suma importância para a obra de Santo Agostinho, que não teve uma formação 
especificamente filosófica, mas sim em retórica5. Aos 19 anos ele passa a se interessar 
por filosofia, através da leitura de um diálogo de Cícero, chamado “Hortêncio”, que hoje 
 
1 Patrística tem uma origem teológica e não filosófica. Deriva da palavra latina “Pater” e de sua 
correspondente grega “Páter”, que significa pai, ou padre. Mas ela foi utilizada para designar os chamados 
“pais” da igreja, ou Santos Padres, que eram escritores eclesiásticos e que cumpriam quatro condições: A 
Santidade de Vida, A Doutrina Ortodoxa, A Aprovação pela Igreja, Antiguidade. Para os filósofos, não eram 
exigidas as três primeiras condições. (Aula 03, Parte 1). 
2 Aula 03, Parte 1 
3 Aula 01, Parte 2 
4 Confissões, III-3 
5 Aula 06, Parte 1 
Página 3 de 10 
 
só nos chegam fragmentos. Esse despertar, como ele mesmo narra em “Confissões”, se 
dá de modo casual, mas que muda o centro de seu interesse. 
Após esta descoberta filosófica, Santo Agostinho faz sua primeira leitura da bíblia, 
que como narrado em “Confissões”, foi uma leitura decepcionante, saliente a pobreza 
estilística em relação a Cícero, lendo a mesma da perspectiva de um repertório. Não muito 
tempo depois, Santo Agostinho adere ao maniqueísmo, isso se dá através de um mestre 
maniqueu chamado Fausto, tendo este o convencido da veracidade do maniqueísmo. 
Santo Agostinho permanece durante nove anos, até o ano de 3826. Neste ano, Agostinho 
passa por uma crise cética, que apenas é superado no momento de sua conversão ao 
cristianismo. Um pouco antes de sua conversão, em 384, ele obtém um posto oficial de 
professor de retórica em Milão e lá se dará o encontro decisivo com o bispo Ambrósio - 
posteriormente conhecido como Santo Ambrósio –, encontro este motivado pela fama de 
Santo Ambrósio como orador sacro e não pela sua pregação. Santo Ambrósio muda a 
percepção de Santo Agostinho da bíblia, através de sua interpretação alegórica e de fácil 
compreensão. 
Em Milão, Santo Agostinho acaba por manter contato com cristãos mais cultos e 
através deles conhece os “escritos platônicos”. Após um período de estudos cristãos, 
Santo Agostinho é batizado em Milão por Santo Ambrósio e se torna cristão. Em 388 ele 
abandona sua carreira de retórico e retorna para Roma, no meio desta viagem, em Óstia, 
ele tem uma visão mística, que é conhecida como “êxtase de Óstia”. Ele, em um momento 
de questionamento, se pergunta: “Por quanto tempo, por quanto tempo andarei a clamar: 
Amanhã, amanhã? Por que não há de ser agora? Por que o termo das minhas torpezas não 
há de vir já, nesta hora?”7. Então, neste momento, ele ouve uma voz de uma criança, vinda 
de uma casa próxima, que dizia: “Toma e lê; toma e lê”, neste momento ele se lembra que 
Santo Antão havia se convertido com a leitura de um trecho aleatório do Evangelho. 
Assim, Santo Agostinho abre o livro das Epístolas de São Paulo e lê ao acaso o texto: 
“Não caminheis em glutonarias e embriaguez, nem em desonestidades e dissoluções, nem 
em contendas e rixas; mas revesti-vos do Senhor Jesus Cristo e não procureis a satisfação 
da carne com seus apetites.” (Rom. 13, 13). É aí que ele decide viajar com sua mãe, que 
ao perceber sua plena conversão ao cristianismo, dá por concluída sua missão, falecendo 
dias depois aos 56 anos e mais tarde sendo conhecida como Santa Mônica. 
 
 
6 Aula 06, Parte 1 
7 Confissões, VIII-12 
Página 4 de 10 
 
Comparação da concepção de Santo Agostinho com a de Platão no que concerne às 
ideias, à transmigração das almas, à reminiscência e à iluminação. 
 
Santo Agostinho, conforme dito por ele no Livro III, cap. XX, §43, tentava 
encontrar seu propósito, e considerava que com trinta e três anos de vida, ainda tinha um 
longo caminho pela frente. Ele vê que, analisar as obras de diversos filósofos pode ajudar 
a complementar sua obra. Santo Agostinho compreende que não basta apenas crer, é 
necessário entender, e com esse entendimento, fortalecer aquilo a autoridade de Cristo. 
“E, para mim, é certo que não devo me afastar nunca da autoridade de Cristo, pois não 
encontro outra mais firme no que se deve perseguir, com razões muito sutis, pois já estou 
disposto de tal maneira que desejo impacientemente apreender o que é verdadeiro não 
somente crendo, mas entendendo.”8 
Em sua busca nas obras dos filósofos, ele repudia inteiramente o epicurismo, 
certamente porque no epicurismo se prega que, para alcançar um estado de tranquilidade, 
onde o medo, a ausência de sofrimento corporal, a fuga da dor, ataraxia, são atingidos 
através dos prazeres moderados, a indiferença à perturbação, entre outros com foco na 
busca do prazer sensual. Ele também tem uma falta de estima pelo estoicismo, que prega 
uma indiferença face às paixões e a dor, a abdicação de lutar, a autodisciplina, aceitação 
das leis do destino e que considera ser possível encontrar a felicidade vivendo em 
conformidade com as leis do destino que regem o mundo, se mantendo indiferente aos 
males e às paixões, que são perturbações da razão. No que diz respeito ao ceticismo, Santo 
Agostinho se empenhou em refutar tal teoria. Já em Aristóteles, Santo Agostinho o 
entende como “um homem de grande engenho”, conforme referido por ele na obra 
“Cidade de Deus”. Apesar de seu pouco conhecimento da obra de Aristóteles, que se 
resumia a alguns tratados no chamado Órganon: Categorias, Da Interpretação e os 
Tópicos. 
Santo Agostinho encontra em Platão e nos plantonistas, o que ele julga ser o que 
mais vai de encontro a seu pensamento, afirmando no Livro III, cap. XX, §43 que 
“Confio, entretanto, encontrar entre os platônicos a doutrina que não se opõe às nossas 
sagradas escrituras.”. Ele foi influenciado por diversos estratos do platonismo, 
inicialmente pelo diálogo de Fédon, sobre a imortalidade da alma, bem como o diálogo 
de Timeu, sobre a cosmogonia e a cosmologia de Platão e aproveitou tudo que pode, 
 
8 Aula 07, Parte 1 
Página 5 de 10 
 
conforme édito por São Tomás no artigo X, resposta à 8a objeção, “Agostinho seguiu 
Platão o quanto a fé católica o permitia”. 
Santo Agostinho faz uma análise das principais concepções de Platão sobre a 
teoria das ideias, da transmigração das almas, da reminiscência e da iluminação. 
 
Segundo Platão: 
A teoria das ideias (ou formas) foi desenvolvida através de vários diálogos de 
Platão, mas é importante salientar um dos mais marcantes. No livro VII da República de 
Platão (iniciando em 514a), ele da um exemplo sobre a teoria das ideias, utilizando como 
metáfora a Alegoria da Caverna, onde: a caverna caracteriza o mundo em que vivemos e 
as sombras projetadas na parede, representam a falsidade, aquilo que somos induzidos a 
crer; as correntes nos escravos representam aquilo que aprisiona os seres humanos a esta 
ignorância e impedem o conhecimento da verdade. 
Tal teoria das ideias, afirma que a realidade está dividida entre mundo sensível e 
mundo inteligível (mundo das ideias). No mundo inteligível, estão localizadas as ideias 
ou formas, que teriam como característica principal serem perfeitas, eternas e imutáveis. 
Estas ideias não pertencem a ninguém, elas não são ideias de uma pessoa específica, mas 
sim algo comum a todo o mundo inteligível, elas são subsistentes, ou seja, elas são de 
certa forma eternas, ou ao menos de longa duração. Por exemplo, a ideia de cavalo, no 
mundo inteligível ela é tudo que constitui a perfeição de um cavalo, o mesmo ocorre com 
o conceito de homem, ele é perfeito no mundo inteligível. Já o mundo sensível, seria o 
mundo material, ou seja, uma imagem imperfeita do que existe no mundo inteligível. 
Em um diálogo tardio de Platão, o Timeu, é introduzida a ideia de demiurgo (que 
significa “artífice”, do grego), o demiurgo seria a artífice que ordena a matéria caótica e 
assim constitui o cosmos. A figura do demiurgo reflete algo de Deus, tal como o 
concebido pelas religiões monoteístas, mas não sendo a entidade suprema, pois ele é 
inferior as ideias, ele não cria a partir do nada, ele apenas ordena a matéria caótica. Essa 
entidade suprema, em Platão, seria a ideia do bem. O ser humano seria composto de corpo 
e alma, que é o conhecido dualismo platônico. Segundo Platão, a entrada da alma no 
corpo, esta vinda do mundo inteligível, seria descrita como uma queda, algo forçado, 
resultando na frase “o corpo é o cárcere da alma”. A alma por sua vez, tem por objetivo 
libertar-se do corpo e retornar ao mundo inteligível, onde é seu habitat natural. Antes do 
momento da queda, a alma tem conhecimento pleno das ideias, que acabam por serem 
esquecidas quando chegam ao corpo, no mundo sensível. Segundo Platão, esse processo 
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seria cíclico, morrer não significa chegarmos ao fim da vida, tendo em vista que apenas 
a matéria deixa de existir e a alma continua seu caminho, retornando ao mundo inteligível 
e logo após retoma o ciclo, retornando ao mundo sensível e esquecendo tudo que conhece 
do mundo inteligível, caracterizando a transmigração das almas. Platão explica que a 
vida que levamos neste mundo interfere no destino de nossa alma, a chamada 
metempsicose ou transmigração das almas. Essa reencarnação se dará de acordo com a 
vida que levou na encarnação anterior, podendo se reencarnar não somente em um corpo 
humano, mas também em corpos de animais. 
Como dito anteriormente, a reencarnação implica em esquecer tudo do mundo 
inteligível, mas como demonstrado no diálogo Mênon9, é possível recuperar esse 
conhecimento inato através da anamnese ou reminiscência. No diálogo, Sócrates ensina 
ao escravo de Mênon, que é ignorante em matemática, a demonstrar um teorema, que é o 
teorema de Pitágoras. Mas para que fosse possível ao escravo adquirir tal capacidade, 
Sócrates conduz o escravo para que parta da ignorância até o conhecimento e desta forma 
demonstrando à Mênon que o aprendizado é algo possível. 
Sócrates por sua vez, para tentar responder à Mênon, dá a ele o “Argumento da 
Reminiscência”, que afirma que nós não aprendemos, apenas relembramos aquilo que já 
sabemos em um momento anterior a vida atual: 
 
Dizem eles pois que a alma do homem é imortal, e que ora chega ao fim e eis aí 
o que se chama morrer, e ora nasce de novo, mas que ela não é jamais aniquilada. 
É preciso pois, por causa disso, viver da maneira mais pia possível. (Mênon, 81b) 
 
Nesta teoria, as verdades são inatas e estão forjadas desde sempre no espírito 
humano. Por isso as opiniões não podem representar a verdade, precisamos saber 
encontrá-las através da razão e da intuição. Desta forma, Sócrates afirma que devemos 
buscar as verdades em nós mesmos pois elas já estão gravadas em nosso espírito. Essa 
tese é apresentada mais profundamente por Platão em Fédon, onde o argumento da 
reminiscência se junta com o da imortalidade da alma e demonstra que aprender é 
recordar. Segundo Platão, recordaríamos do que está preservado no hiperurânio10, sendo 
 
9 PLATÃO. MÊNON. PUC-Rio, Rio de Janeiro, 2001 
10 Hiperurânio: A região além do céu, na qual, segundo o mito encontrado em Fedro (247 ss), residem as 
substâncias imutáveis que são objeto da ciência. Trata-se de uma região não espacial, pois para os antigos 
o céu encerrava todo o espaço, e além do céu não haveria espaço. Essa expressão, portanto, é puramente 
metafórica; na República, o próprio Platão zomba dos que se iludem achando que, verão os entes 
inteligíveis olhando para cima. Não posso atribuir a outra ciência o poder de fazer a alma olhar para cima, 
senão à ciência que trata do ser e do invisível; mas se alguém procurar aprender alguma coisa sensível 
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este um lugar “mais alto que os deuses, pois a divindade deles dependia do conhecimento 
dos seres hiperuranianos”11. 
Como pode ser observado no texto abaixo, de Firmino, Platão explica em Fédon 
a conexão entre conhecimento, reminiscência e imortalidade da alma: 
 
Em Fédon, o que garante a possibilidade do conhecimento das coisas em si 
mesmas é o fato de a alma ter conhecido a verdade antes de nascer. A imortalidade 
da alma em Fédon é, portanto, uma hipótese necessária para que o conhecimento 
das ‘coisas em si mesmas’ seja readquirido por meio da reminiscência. 
(FIRMINO12, p. 54) 
 
No diálogo, Sócrates nos mostra que um problema da matemática como o descrito 
no diálogo (teorema de Pitágoras), pode sim ser resolvido por um escravo ignorante, tudo 
depende do inquirente saber como trazer tal saber a luz do seu inquirido, provando desta 
forma que as verdades são inatas, presentes na alma de todas as pessoas e só é preciso 
saber como fazer para elas ressurgirem. 
 
Segundo Santo Agostinho: 
Como estudioso do platonismo, Santo Agostinho faz adaptações do mesmo para 
o cristianismo, acolhendo de forma entusiástica a concepção platônica do imaterial. Antes 
do platonismo, Santo Agostinho era maniqueísta, ou seja, uma forma que considerava o 
materialismo e esse pensamento era adotado de forma inquestionável por Santo 
Agostinho, julgando que a única realidade pensável era a realidade material. Isto acaba 
por mudar quando Santo Agostinho encontra a escola filosófica platônica, que admite 
uma realidade imaterial, permitindo que Santo Agostinho adote estas novas perspectivas 
da concepção platônica do imaterial mas não a concepção de ideias subsistentes como o 
platonismo original. Santo Agostinho entende que as ideias em Platão seriam algo divino 
e para Santo Agostinho, Deus toma o lugar do mundo das ideias e elas passam a ser ideias 
divinas. O demiurgo platônico que vimos anteriormente, em Santo Agostinho é feito 
algumas modificações e é atribuído como o próprio Deus, que consulta suas próprias 
 
olhando para cima, com a boca aberta ou fechada, digo que não aprenderá nada porque não há ciência 
das coisas sensíveis, e a sua alma não está olhando para cima, mas para baixo, ainda que ele esteja deitado 
de costas na terra ou no mar. ABBAGNANO, Nicola.Dicionário de Filosofia. WMF. São Paulo, 2020. 
11 Diduch, Paul; Harding, Michael (2018). Socrates in the Cave: On the Philosopher’s Motive in Plato. 
Palgrave Macmillan. New York: P. 82 
12 FIRMINO, Dilza Maria Teixeira. O argumento da reminiscência no Fédon de Platão como fundamento 
do caráter imortal da alma. FUNDAÇÃO OSÓRIO, Revista Científica, EDIÇÃO ESPECIAL DE LANÇAMENTO: 
Vol. 1, No. 1, 2016 
Página 8 de 10 
 
ideias e cria a partir do nada, o caos desordenado que era reorganizado pelo demiurgo, 
agora dá lugar a Deus, que cria do nada e não copia de uma modelo a sua obra. 
No que diz respeito a alma, para Santo Agostinho elas não preexistem e o corpo 
também não é o cárcere da alma. Segundo dito em Orígenes, a admissão da preexistência 
da alma foram uma das teses condenadas, para Santo Agostinho, o corpo é criado por 
Deus e, portanto, é bom. Ele entende que as almas não têm um contato prévio com as 
ideias divinas, ou seja, não haveria ideias inatas, seja por um contexto prévio com a mente 
de Deus, ou pela infusão divina. Não havendo ideias inatas, não há reminiscência, tendo 
em vista que não haveria o que lembrar e não é admitido por Santo Agostinho a 
transmigração das almas, visto que ela é única e criada por Deus especificamente para 
aquele corpo. 
Santo Agostinho demonstra que o homem na verdade tem a doutrina da 
iluminação, essa teoria de Santo Agostinho, permite justificar como nós adquirimos 
conhecimento. Apesar de adotar o platonismo, em Platão, as ideias estão localizadas no 
mundo inteligível e para obtermos elas, era necessário recordar, só que se Santo 
Agostinho admitisse isso, do ponto de vista do cristianismo seria o mesmo que admitir a 
reencarnação, o que não é aceito pelo cristianismo. Santo Agostinho admite que as 
verdades são algo imutável, algo eterno, mas não estariam no mundo inteligível como 
dito por Platão, elas estariam em cada um de nós e a forma de acessar estas ideias não é 
recordando, como afirmado por Platão na reminiscência, mas sim orando a Deus. Desta 
forma, Ele ilumina como o sol, para que o ser humano consiga ver além de Deus o que 
estaria ao redor de Deus, para que outras coisas sejam conhecidas. Para Santo Agostinho, 
cada vez que nós pensamos, nós somos iluminados. Ele faz uso da metáfora do selo, essa 
metáfora diz que a iluminação é vista como uma imagem oriunda da efígie de um anel, 
como se esta efígie fosse impressa na cera. A efígie, essa imagem em relevo no anel seria 
a ideia divina, já a imagem na cera representaria o nosso conhecimento. Desta forma, o 
conhecimento é transmitido de Deus diretamente para nós, não somos nós que buscamos 
o conhecimento em Deus, mas sim ele que “imprime” em nós o conhecimento. 
Desta forma, é possível concluir que Santo Agostinho faz uso da teoria das ideias 
de Platão, mas como um cristão, ele faz as adaptações da teoria de Platão, buscando 
adequar elas aos preceitos da fé cristã. 
 
 
Página 9 de 10 
 
Explique como Santo Agostinho trata a questão “O que fazia Deus antes de criar o 
mundo?” 
 
A resposta à esta pergunta, passa por um tema que vem justamente antes desta 
pergunta, o tempo. Segundo Santo Agostinho, antes de Deus criar o céu e a terra não 
havia nem tempo, nem espaço, o tempo foi criado por Deus no mesmo momento que 
criou as criaturas. Para Santo Agostinho, o que havia antes do tempo era a eternidade, 
sendo este um conceito que não remete a tempo e sim ao eterno. Santo Agostinho diz que 
ouviu uma pessoa, de forma jocosa, dar a seguinte resposta: “Preparava o inferno para os 
que perscrutam coisas tão elevadas. Uma coisa é ver. Outra coisa é rir.”. Mas Santo 
Agostinho discorda desta resposta e a considera inadequada, sendo para ele uma resposta 
evidentemente falsa, uma mera retórica. Essa resposta não tem nenhuma base teológica e 
para Santo Agostinho não deve ser considerada como uma resposta válida. A resposta 
dada a esta afirmação de que Deus preparava o inferno, é que “Não respondo assim. Eu 
responderia ‘não sei aquilo que não sei’, de preferência a algo que ridiculariza quem 
perguntou uma coisa elevada e louva quem responde coisas falsas. 
Como já dito anteriormente, para existir o tempo, e, portanto, a resposta a questão 
“antes de criar o mundo”, onde a palavra “antes” dá justamente o sentido de tempo, é que 
o tempo simplesmente não existia. Portanto, antes de fazer tudo, Deus não fazia nada. 
Sendo o céu e a terra a significação de todas as criaturas, antes de todas as criaturas, Deus 
não fez criatura alguma, nem ao menos o tempo, que também é uma criatura, portanto, é 
correto afirmar que Deus não fazia nada. Conforme o exemplo demonstrado na Aula 09, 
parte 2, é correto afirmar que existem falsas questões, como dito na aula: “[...] alguém 
pergunta para uma pessoa honesta se ela já parou de roubar. Tomada como uma questão 
genuína, as respostas só poderiam ser ‘sim’ ou ‘não’. Mas responder ‘sim’ seria admitir 
que antes esta pessoa roubava e responder ‘não’ seria admitir que a pessoa continua 
roubando.”, desta forma, Santo Agostinho afirma que a pergunta “O que fazia Deus antes 
de criar o céu e a terra?”, na verdade é uma falsa questão, um pseudoproblema. 
Não é possível imaginar Deus ocioso por séculos, esta é uma pergunta falsa, 
conforme afirmado por Santo Agostinho. Esta conclusão se dá, devido ao fato de que não 
é possível imaginar algo que não ocorreu, tendo em vista que o próprio tempo é uma 
criatura e ele foi criado no mesmo momento que todas as outras criaturas, ou seja, para 
que fosse possível considerar verdadeira a questão, seria necessário afirmar que existiu o 
“antes”, e para isso, aceitar que o tempo já existia. Esta é a solução aceita por Santo 
Página 10 de 10 
 
Agostinho, onde ele vincula o tempo à mudança. Se não existem criaturas mutáveis, não 
é possível haver mudança e desta forma não pode haver tempo, que seria necessário para 
medir a mudança das coisas mutáveis. Sendo assim, é possível afirmar que Deus estaria 
fora do conceito de tempo, onde não seria possível considerar passado ou futuro antes de 
Deus criar o tempo, apenas a eternidade. Sendo assim, é possível afirmar que até o tempo 
é finito e quando o tempo acabar restará apenas a eternidade, a que pertence a Deus. 
 
BIBLIOGRAFIA 
FLECK, Fernando; AULAS: 01, 03, 06, 07, 09 
AGOSTINHO, Aurélio (Santo Agostinho); CONFISSÕES 
PLATÃO. MÊNON. PUC-Rio, Rio de Janeiro, 2001 
DIDUCH, Paul; Harding, Michael (2018). Socrates in the Cave: On the Philosopher’s 
Motive in Plato. Palgrave Macmillan. New York: P. 82 
FIRMINO, Dilza Maria Teixeira. O argumento da reminiscência no Fédon de Platão 
como fundamento do caráter imortal da alma. FUNDAÇÃO OSÓRIO, Revista Científica, 
EDIÇÃO ESPECIAL DE LANÇAMENTO: Vol. 1, No. 1, 2016