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humanos. E, entre as diversas formas de violência contra a mulher, a violência sexual é das mais terríveis, e traz 
consequências profundas, tanto físicas quanto psíquicas, porque à medida que fere o corpo, invade a intimidade e destrói 
a autoestima, macula os sonhos e o futuro da pessoa violentada. 
 
Legislação 
 
A Lei nº 12.015, de 7 de agosto de 2009, alterou alguns artigos do Código Penal Brasileiro, especificamente no 
Título VI, que trata dos chamados “crimes contra os costumes”, os quais passaram a se chamar “crimes contra a 
dignidade sexual”, destacando-se o crime de estupro, o qual teve alteração significativa, com o objetivo de tornar as 
sanções mais severas, punindo com maior rigor os crimes sexuais. Essa alteração refletiu a necessidade de adaptação 
das leis antigas à realidade social atual do Brasil. 
Com base nessa Lei, estupro é definido como o ato de “constranger alguém, mediante violência ou grave 
ameaça, a ter conjunção carnal ou a praticar ou permitir que com ele se pratique outro ato libidinoso”, com pena de 
reclusão por 6 a 10 anos. 
 
Estatísticas 
 
Em setembro de 2014, a Organização Mundial da Saúde (OMS) revisou um documento que compilou dados 
mundiais sobre violência sexual contra as mulheres e estimou que aproximadamente 35% das mulheres, em todo o 
mundo, já sofreram algum tipo de violência física ou sexual e que, em torno de 30% dos casos, o agressor é um parceiro 
íntimo dessa mulher. 
De acordo com a nota técnica do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), “Estupro no Brasil: uma 
radiografia segundo os dados da Saúde”, feita a partir de informações coletadas em 2011 pelo Sistema de Informação 
de Agravos de Notificação (Sinan), estima-se que no mínimo 527 mil pessoas são estupradas por ano no Brasil e que, 
desses casos, apenas 10% chegam ao conhecimento da polícia, sendo que 89% das vítimas são do sexo feminino e 70% 
dos estupros são cometidos por parentes, namorados ou conhecidos da vítima. 
 Prevalência da violência sexual no mundo em 2010. AR, países de alta renda; MBR, países de média e baixa renda. 
 
O 9º Anuário Brasileiro de Segurança Pública, de 2015, aponta 47.646 estupros notificados no País em 2014, 
apresentando redução de 6,7% em relação ao ano anterior. Entretanto, o mesmo documento considera que seus dados 
são subestimados, já que, em média, apenas 35% dos crimes sexuais são notificados. Apresenta, ainda, um levantamento 
que mostra que 67,1% da população brasileira residente nas grandes cidades brasileiras têm medo de agressões sexuais, 
sendo que nas mulheres e nos jovens entre 16 e 24 anos esse percentual é maior – 90,2% e 73,7%, respectivamente. No 
-
Rio Grande do Sul, foram registrados 3.147 casos de estupro em 2013 (28,2:100.000 habitantes) e 2.878 em 2014 
(24,3:100.000 habitantes). 
No Brasil, em 2013 e 2014, levantamentos apontam, respectivamente, 189.783 e 162.276 casos de violência 
sexual atendidos e notificados no âmbito da saúde. No Rio Grande do Sul, no ano de 2012, foram notificados 13.947 
atendimentos a mulheres que sofreram algum tipo de violência e, em 2013 e 2014, com dados ainda sujeitos à revisão, 
14.506 e 11.978 atendimentos. 
 
Consequências 
 
A violência contra as mulheres é frequentemente relacionada a repercussões na saúde física e mental. No caso 
da violência sexual, deve-se destacar o risco de contaminação por doenças sexualmente transmissíveis (DSTs) e gravidez 
indesejada. 
Muitas vezes, múltiplos tipos de agressão são encontrados em uma mesma paciente, sendo frequentemente 
relatados, com os casos de violência sexual, outros tipos de agressão, como violência doméstica, física e psicológica. A 
paciente pode vir a sofrer com transtorno de estresse pós-traumático (TEPT), depressão, síndrome do pânico, ansiedade 
e ideação suicida, sendo, por vezes, necessária a internação. 
O impacto que a violência gera sobre o sistema de saúde em termos de recursos econômicos e humanos, em 
custos sociais, como em decorrência de produtividade perdida para a sociedade em geral, é enorme e difícil de ser 
mensurado. Segundo estimativas, o Brasil gasta 11% do Produto Interno Bruto (PIB) com a violência sexual, e o Sistema 
Único de Saúde (SUS) gasta entre 8 e 11% do seu teto bruto com as diversas formas de atenção à violência e aos 
acidentes. 
 
Aspectos Éticos e Legais 
 
No Brasil, os casos de violência contra a mulher são de notificação obrigatória, e, se o envolvido for menor de 
idade, deve-se notificar também o Conselho Tutelar ou a Vara da Infância e da Juventude. 
O Decreto nº 7.958, de 13 de março de 2013, associado à Lei nº 12.845, de 1º de agosto de 2013, assegura que 
durante o atendimento sejam observados os princípios do “respeito à dignidade da pessoa, da não discriminação, do 
sigilo e da privacidade”, trata sobre a existência de serviços de referência para atendimento à violência sexual e dispensa 
a apresentação de boletim de ocorrência policial para o atendimento no âmbito dos serviços de saúde. 
Os locais que oferecem atendimento às pessoas em situação de violência devem providenciar todas as etapas 
necessárias, incluindo medidas de prevenção, atendimento emergencial, coleta de vestígios, seguimento, reabilitação, 
tratamento de lesões físicas, suporte psicológico e psiquiátrico, quando necessário, assistência social, além do 
abortamento legal, se for requerido pela mulher ou adolescente, de acordo com o previsto na legislação. Todo serviço 
de saúde pode e deve prestar esse atendimento, e a sua recusa pode ser caracterizada, ética e legalmente, como omissão. 
Após o atendimento médico, se a mulher tiver condições, poderá ir à delegacia para lavrar o boletim de 
ocorrência policial, prestar depoimento ou submeter-se a exame pelos peritos do Departamento Médico Legal (DML). 
 
Acolhimento 
 
No atendimento às vítimas de violência, o acolhimento é um elemento fundamental para a qualidade e a 
humanização da atenção, garantindo o atendimento a partir das necessidades de cada vítima. 
Deve-se procurar estabelecer relação de respeito e empatia com a vítima, proporcionando atendimento digno e 
respeitoso, reconhecendo e aceitando diferenças e respeitando o direito de decidir das pacientes. 
 
HISTÓRIA 
 
Na história clínica da paciente vítima de violência, deve-se começar a entrevista com perguntas abertas, evitando 
conduzir respostas, e o questionamento direto da vítima deve acontecer somente quando a narrativa livre for esgotada. 
Não se deve fazer nenhum tipo de pré-julgamento ou imposição de valores ao escutar a paciente-vítima; pelo contrário, 
a valorização das queixas e a identificação das necessidades são os pontos fundamentais da escuta qualificada a ser 
empregada nessa fase. 
 
Devem fazer parte da história: 
 
− Circunstâncias da Violência: data, hora, local, uso de armas, identidade ou descrição do(s) agressor(es) e se ele(s) 
estava(m) sob efeito de álcool ou drogas e ocorrência de situações de violência anteriores; 
− Ocorrência de perda de consciência ou de memória; 
− Tipo de Violência: penetração oral, anal ou vaginal, número de agressores, uso de preservativo pelo(s) agressor(es), 
ocorrência ou não de ejaculação, existência de sangramento na vítima ou no agressor; 
-
− História menstrual, uso ou não de anticoncepção, atividade sexual consensual recente; 
− Existência de rede de apoio social e familiar disponível para acolher a paciente. 
 
EXAME FÍSICO, RECONHECIMENTO E TRATAMENTO DAS LESÕES 
 
No caso de a paciente já ter sido submetida a exame de corpo de delito no DML, o exame físico só será 
necessário se existirem queixas, como dores, sangramentos, fluxos, etc. 
Na paciente que ainda não foi avaliada por perito, o exame físico visa ao reconhecimento e ao registro detalhado 
de lesões, além do tratamento das lesões decorrentes da violência contra a mulher. O reconhecimento correto e o registro 
podem servir de base para posterior elaboração de laudo pericial indireto, por
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