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Direito Humano à Alimentação Adequada

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diz respeito à necessidade dos titulares de direi-
tos apoderarem-se das conquistas populares institucionalizadas em tratados internacionais e 
nas constituições nacionais, pois esses tratados e normas, justamente por consagrarem direitos, 
impõem obrigações aos países para a garantia dos direitos neles consagrados. O apoderamento 
das normas, tratados, instrumentos e da linguagem de direitos humanos é fundamental para o 
fortalecimento da luta por direitos e contribui para a criação de atores sociais que podem intervir 
de forma mais veemente na vida política de seu país e que sejam sujeitos de direitos, donos de 
sua própria história. 
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Ponderações sobre a importância do apoderamento e do uso de instru-
mentos de exigibilidade para a realização progressiva do DHAA
Foram apontados, neste documento, alguns instrumentos e instituições que podem ser usados 
para exigir direitos. É importante, porém, refletir sobre a importância do apoderamento e do uso 
desses instrumentos para a realização progressiva dos direitos humanos. 
O apoderamento e a utilização de instrumentos de exigibilidade para cobrar a realização de 
direitos humanos, principalmente dos direitos econômicos, sociais e culturais, é imprescindível 
para garantir que os poderes públicos sejam mais justos e mais eficazes para com a realização 
concreta destes direitos fundamentais. Além disso, o uso de instrumentos de exigibilidade:
• Evidencia ações ou omissões violadoras do Estado, que ficam documentadas através dos instru-
mentos jurídicos.
• Provoca nova interpretação sobre os direitos - um exemplo é a nova leitura sobre o direito à 
propriedade que começa a ser entendido não só como o direito de manter a propriedade, mas, 
antes de tudo, o direito de ter acesso à propriedade, principalmente quando esta é uma condição 
para sobrevivência. Essa interpretação é inspirada em ações de movimentos sociais e começa a 
ser desenvolvida por juristas.(4)
• Evita a criminalização dos movimentos sociais. Sabe-se que desde a luta por direitos tra-
balhistas, iniciada há centenas de anos, há criminalização de movimentos sociais. O uso dos 
instrumentos pelos movimentos sociais significa o oposto: responsabilizar os detentores do 
poder por práticas arbitrárias e contrárias aos direitos humanos por meio dos mecanismos do 
próprio Estado. Ao mesmo tempo, passa-se a reconhecer lideranças de movimentos sociais como 
defensores de direitos humanos, que devem ser protegidos pelo Estado.
É sempre legítimo exigir direitos através da contestação e resistência a ações opressoras 
que violam direitos humanos. A própria Declaração Universal dos Direitos Humanos, de 
1948, dispõe que “É essencial que os direitos humanos sejam protegidos pelo império da 
lei, para que o homem não seja compelido, como último recurso, à rebelião contra a ti-
rania e a opressão”. Assim, movimentos como o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem 
Terra (MST), o Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), o movimento de mulheres, 
o movimento indígena, o movimento negro, os movimentos urbanos, entre outros, não 
devem, jamais, ser criminalizados quando vão às ruas ou usam estratégias com base no 
direito de resistência para exigir o respeito à dignidade humana. Ao fazer isto eles e elas 
estão exercendo o papel de defensores de direitos, e como tal devem ser respeitados e 
protegidos pelo Estado, e não criminalizados. Foram lutas como essas que possibilitaram 
a criação e o fortalecimento de mecanismos do próprio Estado para a garantia e exigibili-
dade de direitos. E são essas lutas a principal garantia de respeito e promoção dos direitos 
humanos no Brasil e no mundo. 
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• É uma forma eficaz para que, progressivamente, sejam excluídas dos organismos públicos, 
práticas contrárias aos direitos humanos (assistencialismo, paternalismo, dentre outras).
 
Nesse contexto, o desafio de garantir que os titulares de direitos se apoderem da abordagem 
de direitos humanos, dos instrumentos de exigibilidade e do uso destes instrumentos para o 
processo de realização de seus direitos, é uma das tarefas mais importantes, pois é o que vai 
garantir a exigibilidade de direitos perante os órgãos públicos. 
É importante ressaltar que, muito mais do que apropriação de conhecimentos técnicos sobre 
direitos, o processo de apoderamento implica em uma apropriação política por parte dos sujeitos 
de direito, ou seja, é fundamental entender o contexto político que gera violações de direitos 
(ausência do Estado, correlação de forças desfavoráveis, posição da sociedade civil, entre outros) 
e buscar caminhos eficazes para superar essa situação (5). 
Apoiando a capacidade de grupos e comunidades se apoderarem dos 
instrumentos de direitos humanos para fortalecer sua luta
Jean Pierre Leroy ressalta que, embora usemos o termo “vítimas”, as coletividades que têm seus 
DHESC violados não podem ser consideradas como “vencidos e impotentes”. Ressalta ainda que 
essas “vítimas” despertam facilmente para seus direitos quando elas têm a possibilidade de ex-
pressar suas necessidades e quando têm possibilidade de se mobilizar (6). 
É importante considerar que, ainda que uma parte dos grupos e populações que têm seus direi-
tos humanos violados esteja mobilizada e tenha algum grau de organização para exigir os seus 
direitos, parte dessas populações enfrenta enormes dificuldades até mesmo para ter condições 
mínimas de sobrevivência, dificultando as possibilidades reais e concretas de envolver-se em um 
processo organizativo, com força suficiente para mudar suas realidades. Certos grupos, princi-
palmente comunidades empobrecidas que não têm acesso a direitos mínimos necessários para 
sobrevivência, como alimento, moradia, saúde, educação, entre outros, nem sempre estão mobi-
lizados e a situação de pobreza em que vivem é “naturalizada” pela sociedade em geral. 
Na prática, o processo de mobilização de comunidades em situação de pobreza para ações de 
apoderamento, informação e exigibilidade não é um processo simples, pois apesar de expres-
sarem o senso de estarem sendo injustiçados, muitos não vêem a situação de miséria como 
um conflito que exige enfrentamento - e que pode ser superado - com a garantia de direitos 
e cumprimento de obrigações por parte das autoridades públicas. Esse sentimento é reforçado 
pelo processo de exclusão a que são submetidas essas populações e, reforçado, muitas vezes, por 
experiências prévias mal-sucedidas dessas populações com o poder público - e com o Judiciário 
em particular -, que em alguns casos chegam até a criminalizar a pobreza. 
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A “naturalização da pobreza” e a tentativa de responsabilizar as comunidades e pessoas em-
pobrecidas pelas violações de direitos a que são submetidas são mecanismos ideológicos de 
manutenção da exclusão e da exploração. Culpar os pobres por sua situação é uma forma de 
“desresponsabilizar” o poder público, as elites sociais e econômicas e o processo histórico que 
gerou essa situação de exclusão. Essa maneira de ver o mundo, portanto, constitui-se em forte 
obstáculo à apropriação dos instrumentos de exigibilidade existentes. De certa forma a desres-
ponsabilização, além de abrir espaço para “justificar” o não cumprimento das obrigações por 
parte do poder público, paralisa essas comunidades, individualiza os problemas e as responsabili-
dades. Isso tudo acaba por limitar sua capacidade de cobrar o comprometimento das autoridades 
responsáveis em cumprir com suas obrigações. Ao mesmo tempo, pode levar a uma redução da 
pressão da sociedade como um todo, que deixa de se sentir responsável pela superação dessa 
situação. 
Muitas vezes, a formação dos titulares de direitos por si só não é suficiente para garantir que 
estes interiorizem sua condição de sujeito de direitos, especialmente se os instrumentos e ins-
tituições de defesa e exigibilidade de direitos humanos (Ministério Público, Defensoria Pública, 
Conselhos, CONSEA, etc.) não estiverem disponíveis e funcionando de forma
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