A maior rede de estudos do Brasil

Grátis
15 pág.
ANÁLISE DOS INCISOS DO ART 5º DA CRFB/88 (PRINCÍPIOS CONSTITUCIONAIS)

Pré-visualização | Página 1 de 7

ANÁLISE DOS INCISOS DO ART. 5º DA CRFB/88 
 
PRINCÍPIO DA IGUALDADE 
 
I – homens e mulheres são iguais em direitos e obrigações, nos 
termos desta Constituição. 
 
O constituinte originário expressou nesse dispositivo as lutas históricas travadas contra a 
discriminação do sexo feminino. Assim, homens e mulheres que se encontrarem em situação 
idêntica não poderão sofrer qualquer cerceamento em suas prerrogativas e nos seus deveres. 
As discriminações são toleradas apenas quando a finalidade pretendida for a diminuição dos 
desníveis entre homem e mulher, ou entre as pessoas em geral, tendo em vista as diferenças 
de idade, sexo, capacidade econômica etc. 
Como as pessoas não são iguais, o respeito à diferença e às necessidades de cada um é um dos 
pilares mais importantes do conceito. Deve haver uma relação direta entre a desigualdade e a 
diferença observada, para que esta relação tenha pertinência. 
A isonomia pode ser formal ou material: 
a) Isonomia formal: fica proibida a discriminação arbitrária; 
b) Isonomia material: do Poder Público é exigido que tome providências concretas que 
diminuam a desigualdade. Chama-se “política de ação afirmativa ou discriminação positiva” a 
providência que leve à diminuição da desigualdade. É atingida quando o Estado edita normas 
que privilegiam os desfavorecidos da sociedade e estas se tornam efetivas. 
Além disso, a Constituição determina de forma expressa a igualdade perante a lei e de forma 
implícita a igualdade na lei. Significam: 
a) Igualdade perante a lei: é um comando que se dirige a todos: legislador, juiz, administrador 
público na aplicação da norma jurídica ao caso concreto, para que esta seja aplicada de modo 
igual àqueles que se encontrem em posições idênticas ou substancialmente semelhantes; 
b) Igualdade na lei: é o comando que se dirige especialmente ao legislador, no sentido de que 
ele tem que cuidar para que não se estabeleça, na lei, comportamentos abusivos, ilícitos, 
arbitrários, contrários à igualdade, diferenciando pessoas que se encontram em situações 
idênticas, salvo motivo razoável. 
Ainda podem ser consideradas as dimensões subjetiva e objetiva dos direitos fundamentais. 
Sob a perspectiva subjetiva, podemos dizer que significam que as pessoas podem exigir de 
outrem (particulares e Estado) uma determinada prestação, que pode ser comissiva ou 
omissiva. Na tutela objetiva é como se todo direito fundamental trouxesse um valor que deverá 
se irradiar pelo ordenamento, é a chamada força irradiante dos direitos fundamentais. 
Em termos históricos, o princípio da igualdade encontra-se celebrado no constitucionalismo 
ocidental, desde as primeiras Declarações de Direitos que surgem, no século XVIII, em especial 
a francesa, que tratou de universalizar os valores da liberdade, da igualdade e da fraternidade. 
Entretanto, a igualdade proclamada pelo constitucionalismo ocidental do século XVIII ainda se 
encontrava vinculada ao liberalismo clássico, dotado, portanto, de um conteúdo meramente 
formal que designava a igualdade perante a lei. 
Essa igualdade puramente formal, não obstante a conquista alcançada de reconhecer a 
igualdade entre homens e mulheres, reduzia-se ao aspecto frio da lei. Sua incapacidade de 
reproduzir na realidade social o que no texto estava previsto refletia a marginalidade e a 
exclusão de inúmeros indivíduos e grupos que, apesar de serem formalmente iguais, contavam 
com a própria sorte para sentir-se como de fato iguais. 
É somente com o advento do Estado Social e com as críticas ao modelo liberal de Estado que 
então vigorava, fruto da ampla contradição entre os princípios formalmente insculpidos nas 
Declarações de Direitos e a realidade vivida pela maioria da população que não tinha acesso aos 
direitos liberais básicos, que o valor da igualdade passa a adquirir novos contornos e um novo 
conteúdo: material, substancial, mais coadunado com a realidade social. 
A igualdade material visa, portanto, à concretização da igualdade formal, aquela enunciada na 
lei. Segundo seu postulado, não basta uma ampla enunciação de direitos ou uma igualdade 
jurídica pautada em critérios estritamente formais sem que exista, em paralelo, uma 
intervenção do Estado no mundo concreto a fim de promover de fato essa igualdade. O 
conteúdo material da igualdade, portanto, corresponde a um Estado atuante, à presença 
efetiva de um Poder Público que implementa políticas públicas capazes de assegurar a plena 
realização deste princípio. Um exemplo de manifestação do princípio da igualdade na sua 
acepção material, substancial, em nosso ordenamento jurídico, são as políticas de ações 
afirmativas. 
As ações afirmativas – ou affirmative actions – são medidas de cunho político implementadas 
pelo Estado ou pela iniciativa privada com o intuito de tornar efetivos os direitos de grupos 
tradicionalmente marginalizados ou excluídos. São exemplos de medidas de cunho afirmativo 
as cotas para negros, pardos e indígenas visando ao ingresso no ensino superior; as cotas para 
mulheres nas candidaturas partidárias; as cotas para portadores de deficiência física no serviço 
público e no setor privado; o sistema de pontuação; a reformulação de políticas de contratação 
e promoção de empregados, entre outros. 
É de se notar que as políticas de ações afirmativas são o mais claro exemplo da concretização 
do princípio da igualdade material eis que visam transcender a mera igualdade formal, que reza 
que são todos iguais perante a lei, para atuar, mediante uma intervenção direta do Estado na 
realidade social, reduzindo as desigualdades sociais. 
Nesse contexto, podemos falar do conteúdo democrático e dinâmico do princípio da igualdade 
no constitucionalismo contemporâneo, pois, com políticas públicas que buscam dar a 
efetividade necessária aos direitos constitucionalmente garantidos, promove-se a cidadania de 
minorias e grupos sociais marginalizados. Nesse sentido, a inércia inerente ao princípio da 
igualdade formal, que não mais responde às necessidades específicas de grupos sociais 
distintos, vai paulatinamente cedendo lugar ao dinamismo da igualdade material. 
A igualdade, neste sentido, assume contornos de transformação, de mudança, mudança esta 
capaz de transformar a própria realidade social, econômica e política. 
 Apesar do advento de um novo conteúdo do princípio da igualdade que corresponde ao 
constitucionalismo contemporâneo, controvérsias ainda surgem acerca de qual seria a melhor 
interpretação a ser dada ao referido princípio: meramente formal, de todos perante a lei, ou 
material? Tal controvérsia tem sido rotineiramente evocada com o debate acerca da 
implementação de políticas públicas de ações afirmativas. 
Aqueles que se colocam contrários às ações de cunho afirmativo são enfáticos ao afirmar o 
conteúdo nitidamente formal do princípio da igualdade. Se somos todos iguais perante a lei, e 
se a Constituição Federal veda qualquer ato discriminatório que viole essa igualdade formal, 
qualquer tentativa de implementação de políticas públicas voltadas para determinados 
segmentos da sociedade é considerados privilégios discriminatórios. 
Por outro lado, quem se coloca favoravelmente às medidas afirmativas enfatiza o c onteúdo 
material do princípio da igualdade, afirmando que é justamente essa intervenção estatal 
beneficiadora de determinados segmentos marginalizados que promove a igualdade em 
Estados democráticos de direito. Tal intervenção em prol de indivíduos e grupos socialmente 
excluídos não constituiria, portanto, um privilégio que discrimina, pelo contrário, uma 
necessidade real e concreta sem a qual a discriminação e a desigualdade é o único caminho que 
lhes resta. 
De toda sorte, é imperioso que se observe que em Estados democráticos de direito, em que se 
pode considerar que os cidadãos são não apenas destinatários de suas leis, mas também os seus 
próprios autores, o princípio da igualdade

Crie agora seu perfil grátis para visualizar sem restrições.