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ARTIGO CIENTÍFICO - O IMPACTO DOS DISCURSOS DE ÓDIO NAS REDES SOCIAIS E A JUSTIÇA COM AS PRÓPRIAS MÃOS ANÁLISE CRÍTICA E COMPARATIVA À LUZ DO EPISÓDIO 'HATED IN THE NATION' DA SÉRIE BLACK MIRROR

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com o episódio “Hated in the nation” da série ‘Black Mirror’, que os discursos de ódio nas redes sociais de perseguição a supostos criminosos defronte a ideia de combater violência com mais violência, influenciam na produção de atos violentos com as próprias mãos.
	Como hipótese a problemática supracitada, verifica-se que por um lado os discursos como 'bandido bom é bandido morto', 'direitos humanos para humanos direitos' estimulam sim a prática de atos violentos de justiça com as próprias mãos, tendo em vista as redes sociais atingem globalmente a opinião pública e legitimam muitas vezes a violência contra pessoas rotuladas pela prática de crimes, encorajando e inflamando o ódio e a sede por vingança. Vez que do outro lado da moeda tem-se um Estado, que não exerce de forma satisfatória as demandas punitivas, punindo muitas vezes inocentes e sendo omissos quanto aos seus reais deveres de proteção da sociedade. 
	Todavia, a objeção acima suscitada poderá ser confirmada, negada ou redimensionada, a partir da pesquisa que se desenvolverá.
1 O GARANTISMO PENAL E A DIGNIDADE DA PESSOA HUMANA
	O garantismo encontra-se relacionado ao conjunto de teorias penais e processuais penais estabelecidas pelo jusfilósofo italiano Luigi Ferrajoli. O termo reflete a proteção daquilo que se encontra positivado no ordenamento jurídico, sejam direitos, privilégios ou isenções que a Constituição confere aos cidadãos.
	Porém o garantismo não é apenas legalismo, seu pilar de sustentação não está fundado apenas na lei, mas também em um Estado Democrático de Direito, constituindo a chamada teoria geral do garantismo a partir da separação entre direito e moral; entre validade e vigência; entre ponto de vista externo (ou ético-político) e o ponto de vista interno (ou jurídico) e a correspondente divergência entre justiça e validade. 
	Para seu precursor Ferrajoli (2002, p. 684) a teoria do garantismo designa um modelo normativo de direito, caracterizado como um sistema cognitivo ou de poder mínimo, sob o plano político se caracteriza como uma técnica de tutela idônea a minimizar a violência e a maximizar a liberdade e, sob o plano jurídico, como um sistema de vínculos impostos à função punitiva do Estado em garantia dos direitos dos cidadãos. 	
	A “teoria geral do garantismo” visa uma interpretação e aplicação das normas conforme a Constituição; Em nível epistemológico, é uma teoria embasada na centralidade da pessoa, em nome de quem o poder deve constituir-se e a quem deve o mesmo servir. 
	Neste contexto, para Giuseppe Bettiol (apud, PRADO, 2009, p. 9) a pessoa humana é o protagonista da política e da história, e consequentemente, do direito. Por isso numa sociedade democrática a pessoa surge em primeiro plano por força de uma regra ético-jurídica que a eleva acima de qualquer outra realidade ou exigência, pelo que a torna o valor absoluto e determinante de toda decisão, de modo que a autonomia própria não pode ser degradada a um mero meio para realizar um fim.
	De fato, a dignidade da pessoa humana e seus direitos fundamentais apresentam-se na base do ideal garantista, a CRFB/88 faz referência a dignidade humana logo em seu art. 1.º, III, englobando direitos fundamentais de fundo econômico e social. 
	Embora sejam inúmeras as definições para conceituar o princípio da dignidade da pessoa humana, entende-se que de modo geral visa a preservação do ser humano, desde o nascimento até a morte, conferindo-lhe autoestima e garantindo-lhe o mínimo existencial, sendo um princípio de valor pré-constituinte e de hierarquia supraconstitucional.
	A dignidade da pessoa humana possui dois aspectos importantes, objetivo e subjetivo, que segundo Nucci (2017, p. 127) objetivamente envolve a garantia de um mínimo existencial à pessoa, suas necessidades vitais básicas, reconhecidas pelo art. 7.º, IV, da CRFB/88, ao cuidar do salário mínimo, moradia, alimentação, educação, saúde, lazer, vestuário, higiene, transporte, previdência social, de modo que inexiste dignidade se a pessoa humana não dispuser do mínimo. Enquanto que subjetivamente, cuida-se do sentimento de respeitabilidade e autoestima, inerentes ao ser humano, desde o nascimento, quando passa a desenvolver sua personalidade, entrelaçando-se em comunidade e merecendo consideração, mormente do Estado.
	Neste viés para que o ser humano tenha a sua dignidade, devem restar preservados os direitos e as garantias individuais. Por isso este princípio é a base e a meta do Estado Democrático de Direito, não podendo ser ferido ou contrariado, principalmente, no contexto penal e processual penal.
	Sobre o modelo garantista Ferrajoli (2014, p. 74-75) cita como principais axiomas, os seguintes prismas: a) não há pena sem crime (nulla poena sine crimine); b) não há crime sem lei (nullum crimen sine lege); c) não há lei penal sem necessidade (nulla lex poenalis sine necessitate); d) não há necessidade de lei penal sem lesão (nulla necessitas sine injuria); e) não há lesão sem conduta (nulla injuria sine actione); f) não há conduta sem dolo e sem culpa (nulla actio sine culpa); g) não há culpa sem o devido processo legal (nulla culpa sine judicio); h) não há processo sem acusação (nullum judicium sine accusatione); i) não há acusação sem prova que a fundamente (nulla accusatio sine probatione); j) não há prova sem ampla defesa (nulla probatio sine defensione).
	Para Bobbio, na obra Direito e Razão (2014, p. 7) tem-se a idéia de que o sistema geral do garantismo jurídico se confunde com a construção das colunas mestras do Estado de direito, que tem por fundamento e fim a tutela das liberdades do indivíduo frente às variadas formas de exercício arbitrário de poder, particularmente odioso no direito penal. Ou seja, se trata de um modelo vinculado à tradição iluminista, que prega a necessidade de limitação dos poderes em face das liberdades individuais, como um verdadeiro sistema de freios às violências e aos abusos.
	
2 ANÁLISE DOS DISCURSOS DE ÓDIO A PARTIR DA CRIMINOLOGIA CULTURAL[footnoteRef:1] [1: A presente seção traz em seu escopo literatura estrangeira para melhor explanar sobre os temas de discurso de ódio e criminologia cultural, que ainda possuem pouca conceituação no Brasil. Para tal serão citados os autores: Michel Pêcheux, Winfried Brugger, Francis Galton, Herbet Spencer, Lola Aniyar de Castro, Jeff Ferrell, Albert K. Cohen e Alessandro Baratta.] 
	Popularmente o termo “discurso” é utilizado como uma oratória de dizeres rebuscados linguísticamente, se tratando de um pronunciamento marcado por eloquência e primorosa retórica, normalmente apresentado no meio político e em contextos sociais formais.
	Todavia, discurso, como objeto da Análise do Discurso, não é só a língua, o texto e a fala, mas o que os transpassam, os aspectos sociais e ideológicos impregnados nas palavras quando elas são pronunciadas, que segundo Marco Aurélio Moura dos Santos (2016 p. 22) se dá através de uma análise interna (o que diz e como diz?) e externa (porque diz isso?) de modo que a análise geral depende do contexto histórico, social e político. 
	Acerca do discurso observado como ação social, Eni Orlandi (apud FERNANDES, 2005, p. 13) argumenta que a palavra discurso, etimologicamente, tem em si a ideia de curso, de percurso, de correr por, de movimento. O discurso é assim palavra em movimento, prática de linguagem, com o estudo do discurso observa-se o homem falando. Sendo assim a interpretação do que o sujeito fala diante de seu contexto, que materializado pela linguagem pode se dar em forma de texto, imagem, gírias e diversas expressões.
	Eis que, nas diferenças sociais surgem conflitos, e, consequentemente conflito linguístico. Destaca Fernandes (2005, p. 16) que o que marca as diferentes posições dos sujeitos e grupos sociais que ocupam territórios antagônicos é a ideologia, a inscrição dos sujeitos em cena. Portanto, ideologia, classe social, o meio que o sujeito vive e sua cultura é a essência do discurso.
	Para Michel Pecheux [footnoteRef:2](apud SIQUEIRA, 2017, In. Colunas Tortas on-line) as formações discursivas

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