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ARTIGO CIENTÍFICO - O IMPACTO DOS DISCURSOS DE ÓDIO NAS REDES SOCIAIS E A JUSTIÇA COM AS PRÓPRIAS MÃOS ANÁLISE CRÍTICA E COMPARATIVA À LUZ DO EPISÓDIO 'HATED IN THE NATION' DA SÉRIE BLACK MIRROR

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são elementos relacionados diretamente com as formações ideológicas. Vez que as práticas sociais vigentes através dos aparelhos estatais são a forma concreta que essas relações de classe se expressam. Tais relações dão espaço a posições de classe específicas, que não constituem indivíduos, mas configuram formações que mantêm, entre si, relações de antagonismo, aliança ou dominação, fruto de uma segregação muitas vezes até inconsciente. [2: Pêcheux, Michel: Foi um filósofo francês, expoente maior do círculo de intelectuais que fundou a linha conhecida como Análise de Discurso.] 
	É indiscutível que o discurso é algo inerente ao ser humano e indispensável ao exercício da evolução social, o que em uma sociedade democrática de direito, torna-se um dos elementos fundamentais ao exercício da liberdade de expressão, proporcionando a livre manifestação de pensamento. 
	Por outro lado, temos os discursos de ódio, ultrapassando os limites do bom senso, tendo em vista que tem como finalidade promover a violência, a discriminação ou o preconceito em detrimento de um grupo ou classe de pessoas em razão das características inerentes do ser humano. Neste sentido:
De acordo com a maioria das definições, o discurso do ódio refere-se a palavras que tendem a insultar, intimidar ou assediar pessoas em virtude de sua raça, cor, etnicidade, nacionalidade, sexo ou religião, ou que têm a capacidade de instigar violência, ódio ou discriminação contra tais pessoas. (BRUGGER[footnoteRef:3], 2007, p. 118). [3: BRUGGER, Winfried: Foi professor de Direito Público, Filosofia do Direito e Teoria do Estado na Universidade de Heidelberg.] 
O discurso de ódio, tradução do termo “hate speach”, na análise do discurso tem origem na intolerância advinda da segregação social, desrespeitando as diferenças e diversidades, o que no entendimento de Ricoeur (2000, p. 20) é impelir suas próprias ideologias e convicções, sob os alicerces do poder de impor e da crença na legitimidade desse poder, ou seja, a imposição daquilo que já está na cultura dominante contra as minorias. Na mesma esteira, conceitua a intolerância o filósofo Sérgio Paulo Rouanet: 
Muito sumariamente, a intolerância pode ser definida como uma atitude de ódio sistemático e de agressividade irracional com relação a indivíduos e grupos específicos, à sua maneira de ser, a seu estilo de vida e às suas crenças e convicções. Essa atitude genérica se atualiza em manifestações múltiplas, de caráter religioso, nacional, racial, étnico e outros. (ROUANET, 2003, on-line).
 Insta ressaltar que apesar de não ter lei específica sobre discurso de ódio no Brasil, sua prática constitucionalmente fere a dignidade da pessoa humana (art. 1, III da CRFB/88) e direitos fundamentais dispostos no art. 3 da CRFB/88[footnoteRef:4], enquanto que infraconstitucionalmente se insere no crime de injúria racial (art. 140, § 3º do CP) que consiste em ofender a honra ou decoro de alguém contra elementos referentes a raça, cor, etnia, religião, origem ou a condição de pessoa idosa ou portadora de deficiência e no art. 20 da Lei 7.716/89 que prevê no seu § 2º aumento de pena se a conduta discriminatória é cometida por meio digitais: [4: art 3º CRFB: Constituem objetivos fundamentais da República Federativa do Brasil:
I - construir uma sociedade livre, justa e solidária;
II - garantir o desenvolvimento nacional;
III - erradicar a pobreza e a marginalização e reduzir as desigualdades sociais e regionais;
IV - promover o bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação.] 
Art. 20. Praticar, induzir ou incitar a discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional. (Redação dada pela Lei nº 9.459, de 15/05/97)
Pena: reclusão de um a três anos e multa.(Redação dada pela Lei nº 9.459, de 15/05/97)
§ 1º Fabricar, comercializar, distribuir ou veicular símbolos, emblemas, ornamentos, distintivos ou propaganda que utilizem a cruz suástica ou gamada, para fins de divulgação do nazismo. (Redação dada pela Lei nº 9.459, de 15/05/97)
Pena: reclusão de dois a cinco anos e multa.(Incluído pela Lei nº 9.459, de 15/05/97)
§ 2º Se qualquer dos crimes previstos no caput é cometido por intermédio dos meios de comunicação social ou publicação de qualquer natureza: (Redação dada pela Lei nº 9.459, de 15/05/97)
Pena: reclusão de dois a cinco anos e multa
	O conceito de Darwinismo social, criado no século XIX por Francis Galton[footnoteRef:5] e amplamente disseminado por Herbet Spencer[footnoteRef:6], alavancou a ideia de superioridade de uma raça sobre as demais. Tal ideia gerou uma série de intolerâncias entre classes e raças, e, ainda atualmente os discursos de ódio se debruçam neste viés, através de opiniões preconceituosas, discriminatórias e intolerantes, geralmente voltados às minorias sociais. [5: GALTON, Francis: Foi antropólogo, meteorologista, matemático e estatístico inglês.] [6: SPENCER, Herbet: foi um filósofo, biólogo, antropólogo inglês, representante do liberalismo clássico.] 
	A criminologia cultural é uma criminologia pós-crítica, ou seja, advém da criminologia crítica que mudou o paradigma criminológico positivista, que nas palavras de Lola Aniyar de Castro[footnoteRef:7] em seu livro Criminologia da reação social (apud LAVOR, 2017, In. Canal Ciências Criminais, on-line) visava somente mudar o delinquente e não a lei penal enquanto que a criminologia crítica vê a criminalidade como criminalização, por processos seletivos de construção social do comportamento criminoso e de sujeitos criminalizados, tendo como ideal a supressão da desigualdade social, defendendo a tese de que a solução para a problemática do crime depende da abolição da exploração econômica e da arbitrariedade política sobre as classes dominadas. [7: CASTRO, Lola Aniyar de: Foi política, advogada penalista e criminologista venezuelana.] 
	A Criminologia cultural ainda que heterogênea e contenciosa é um campo em ascensão que tem como principais estudiosos no mundo Jeff Ferrell; Mike Presdee; Keith Hayward e Jock Young; e no Brasil Salo De Carvalho, Álvaro Da Rocha; Moysés Pinto, Marcelo Mayora e José Linck. Surgiu ao final da década de 90, nos Estados Unidos, com Ferrell, e foi desenvolvida pelo Departamento de Criminologia da Universidade de Kent, na Inglaterra:
É uma matéria interdisciplinar, que não se utiliza apenas das ferramentas da Criminologia, do Direito Penal e da Sociologia, mas também de aspectos relativos a estudos culturais, midiáticos, urbanos, filosóficos, de movimentos sociais, da teoria crítica pós-moderna, da geografia e da antropologia humana, além de abordagens de pesquisa ativa (ROCHA, 2012, In. Revista dos Tribunais, on-line).
	
	Além da amplitude de áreas de pesquisas supracitadas que envolvem a nova criminologia e da teoria crítica, outra teoria indispensável ao estudo das subculturas que é o foco da criminologia cultural, é o ‘labelling approach’ que para Hassemer[footnoteRef:8] (2005, p.101-102), significa enfoque do etiquetamento, que tem como tese central a ideia de que a criminalidade é resultado de um processo de imputação, “a criminalidade é uma etiqueta, a qual é aplicada pela polícia, pelo ministério público e pelo tribunal penal, pelas instâncias formais de controle social”. [8: HASSEMER, Winfried: Catedrático de Direito Penal da Universidade de Frankfurt, foi juiz e vice-presidente do Tribunal Federal Constitucional da Alemanha.] 
	Sob esta ótica, a abordagem cultural tem um engajamento com a análise do discurso, focando nas identidades e seus significados, seus símbolos, a raiz do crime e o fator desviante, com o intuito de encontrar uma solução coletiva; uma abrangência de conscientização de maiores valores sociais, trazendo consigo as tensões de fracasso e sucesso, das políticas de inclusão e exclusão.
	Há casos em que a subcultura emerge de uma situação coletiva de frustração ou conflito no interior de uma dada cultura e com padrões normativos opostos aos da cultura dominante, surgindo como forma de resistência,

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