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ARTIGO CIENTÍFICO - O IMPACTO DOS DISCURSOS DE ÓDIO NAS REDES SOCIAIS E A JUSTIÇA COM AS PRÓPRIAS MÃOS ANÁLISE CRÍTICA E COMPARATIVA À LUZ DO EPISÓDIO 'HATED IN THE NATION' DA SÉRIE BLACK MIRROR

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opondo-se à cultura geral ou transgredindo-a como meio de fuga. 
	Ao referenciar Sutherland e Cressey, Jeff Ferrell[footnoteRef:9] (apud FURQUIM, 2014, p. 40) afirma que as inúmeras subculturas criminais incorporam muito mais do que uma simples proximidade de associação pessoal, mas sim tratam de uniformizar valores sociais internos distintos do senso comum, criando alternativas à cultura geral configurada pela linguagem, aparência, forma de falar e andar, bem como pelos seus discursos. 	 [9: FERRELL, Jeff: professor visitante de criminologia na University of Kent, Reino Unido, e professor de sociologia na Texas Christian University, EUA.] 
Em uma modernidade tardia, as placas tectônicas da desigualdade e da estigmatização social constantemente estão a se chocar abaixo da superfície social, culminando em crime e desordem, consequentemente, a resultar drasticamente em tumultos e vandalismos, associado com a guerra contemporânea. Neste mundo de instabilidade e insegurança vertiginosa, os processos de exclusão continuam a acelerar, empurrado por uma representação midiática com fluidez global. Todavia, uma subcultura de resistência reage desesperadamente, lembrando-nos de que algo ainda continua errado, pois, o mundo atual só cresce mais instável e fissíparo. Aqui, crime e desvio espelham a desordem de todos os dias (FERRELL; HAYWARD; YOUNG apud FURQUIM, 2014, p. 40). 
	Segundo as teorias subculturais de Albert K. Cohen[footnoteRef:10] (apud FURQUIM, 2014, p.40) as ações e identidades rotuladas como sendo criminosas normalmente são geradas dentro dos limites das subculturas como por exemplo, as gangues de grafiteiros, os membros de moto clubes e os punks que muitas vezes são classificados pelas autoridades jurídicas e políticas como criminosos. [10: COHEN, Alber K.: Criminologista americano mais conhecido por sua teoria subcultural de gangues e delinquentes, foi professor de sociologia em Indiana University e na University of Connecticut.] 
	Um dos aspectos significativos trazidos pela teoria do ‘Labelling Approach’ que está totalmente atrelada ao discurso de ódio, trata-se da delinquência secundária, ou seja, aquela delinquência que vem da estigmatização do indivíduo, como por exemplo jovens das comunidades que por usarem roupas de time de futebol e cabelos descoloridos já são rotulados como “bandidos”, “pivetes” e “traficantes” pela sociedade e pela polícia, ou quando as manchetes já noticiam um delito “sentenciando” o suposto autor do fato sem nem ter ocorrido ainda o devido processo legal.
	Na obra de Baratta[footnoteRef:11] sobre a criminologia crítica (apud FURQUIM, 2014, p. 72) a teoria do ‘Labelling’ demonstra como a reação social ou a punição de um primeiro comportamento desviante tem um papel para o comprometimento com o desvio, vez que ocorre uma mudança de identidade social do agente. Sendo inclusive a maior herança do Labelling na questão criminológica cultural o processo sequencial da reação social, onde as condutas desviantes advindas desta criminalização tomam forma na delinquência primária através de uma resposta ritualizada, da estigmatização, gerando distância social e redução de oportunidades, o que suscita uma subcultura delinquente com reflexo na autoimagem e o estigma decorrente da institucionalização e daí tem-se a delinquência secundária. [11: BARATTA, Alessandro: Foi um filósofo, sociólogo e jurista italiano, contribuiu principalmente com críticas ao sistema penal e à criminologia,é considerado um dos precursores da criminologia crítica, além de ter impulsionado o garantismo penal e o direito penal mínimo.] 
	Diante da análise do discurso contra minorias e os estigmas sociais, observa-se, em diversos casos o princípio da profecia auto realizadora (self-fulfillingprophecy), que nas palavras de Baratta (apud FURQUIM, 2014, p. 71-72) “é a expectativa do ambiente circunstante que determina, em grande medida, o comportamento do indivíduo, a vítima do estigma passa a se comportar de modo como os outros esperam que ela se comporte”. Se tornam o subproduto do que pregam as autoridades, setores dominantes da sociedade e a mídia através de discursos de ódio e termos pejorativos ligados às culturas periféricas.
	Destarte, um discurso de ódio popular no Brasil reproduzido inclusive por políticos famosos é o de que bandido bom é bandido morto; Discurso que segundo pesquisa feita pelo datafolha (2020, on-line) e encomendada pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, é a opinião de 57% dos brasileiros, sendo que este número aumenta para 72% nos grupos com renda acima de 10 salários mínimos. Insta ressaltar que estes dados além de enfatizarem risco para as culturas marginalizadas, refletem uma postura contra a Constituiçao da República Federativa do Brasil que veda a pena de morte em seu art. 5º, XLVII, 'a', e afasta ainda mais o ideal da pena como instrumento de ressocialização. 
		
3 O IMPACTO DOS DISCURSOS DE ÓDIO NAS REDES SOCIAIS E A JUSTIÇA COM AS PRÓPRIAS MÃOS: ANÁLISE CRÍTICA E COMPARATIVA À LUZ DO EPISÓDIO 'HATED IN THE NATION' DA SÉRIE BLACK MIRROR
	A presente sessão explana sobre a liberdade de expressão dos usuários nas redes sociais, sobre a legislação brasileira no que concerne a esta e seus limites legais, bem como em contrapartida o mau uso desta liberdade através de discursos de ódio na internet, apresentando índices de denúncias de ofensas contra minorias e seu impacto na realidade, fazendo um paralelo entre o caso de Fabiane de Jesus e o episódio ‘Hated In the nation’ (odiados pela nação) da série ‘Black Mirror’ (espelho negro). 
3.1 O MARCO CIVIL DA INTERNET 
	A Lei 12.965/2014 (“Marco Civil”) foi apresentada na Conferência Multissetorial Global sobre o Futuro da Governança da Internet (NET Mundial).
	No que pese o marco supracitado ter sido essencialmente criado para pacificar conflitos que decorrem do uso da internet no Brasil, influenciando de uma forma ampla a área do Direito Digital. Na prática é paradoxal, vez que uma das importantes características deste marco, foi o fato de que ele não é voltado para o Código Penal, criminalizando determinadas condutas, mas sim que seu desígnio está para a proteção dos usuários no uso da liberdade de expressão e entre outros direitos. Possuindo a finalidade de acabar com a censura e a remoção de textos desde que não viole o direito de outrem.
	Abordando a ideia de que a internet não pertence somente a um determinado país, mas que se trata de um ambiente com usuários do mundo todo, sendo uma ferramenta utilizada vastamente na atualidade, em âmbito econômico, político, social e cultural, para diversas atividades, lícitas ou ilícitas. Exercendo uma finalidade social, transformando a coletividade e expondo opiniões, se faz razoável que deva haver o respeito aos direitos humanos.
	No mais o Marco Civil da Internet foi deveras benéfico, oferecendo uma segurança legal para usuários, se adequando ao contexto global e estimulando a liberdade de expressão, porém na esfera criminal ainda se observam dificuldades para analisar e investigar a ocorrência de ofensas a direitos.
	A liberdade e a dignidade da pessoa humana estão inter-relacionadas com a comunicação, sendo indispensáveis para que a interação ocorra no âmbito social, deste modo o Marco Civil brasileiro reafirma a liberdade de expressão, gerando mais comunicação e possibilidades, e impõe limites às relações desenvolvidas no ambiente da Internet, determinando ainda em seu artigo 4º, que o uso da internet deve promover o direito ao acesso à internet a todos, o acesso à informação, ao conhecimento, e a participação na vida cultural e na condução dos assuntos públicos.
	O artigo 2º do 12.965/2014 aduz que o uso da internet no Brasil tem como fundamento o respeito à liberdade de expressão, bem como o reconhecimento da escala mundial da rede, os direitos humanos, o desenvolvimento da personalidade, o exercício da cidadania em meios digitais, a pluralidade e diversidade, a abertura e a colaboração.
	O artigo 3º do Marco Civil disciplina os princípios para o uso da internet,

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