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ARTIGO CIENTÍFICO - O IMPACTO DOS DISCURSOS DE ÓDIO NAS REDES SOCIAIS E A JUSTIÇA COM AS PRÓPRIAS MÃOS ANÁLISE CRÍTICA E COMPARATIVA À LUZ DO EPISÓDIO 'HATED IN THE NATION' DA SÉRIE BLACK MIRROR

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sendo eles a garantia da liberdade de expressão; a comunicação e a manifestação de pensamento, de acordo com a constituição; a proteção da privacidade, dos dados, na forma da lei; a preservação e garantia da neutralidade; preservação da estabilidade, segurança e funcionalidade da rede, por meio de medidas técnicas compatíveis com os padrões internacionais e pelo estímulo ao uso de boas práticas; responsabilização dos agentes de acordo com suas atividades, nos termos da lei; preservação da natureza participativa da rede; a liberdade dos modelos de negócios promovidos na internet, desde que não afrontem os demais princípios da lei.
	Segundo Maria Celeste Santos e Marilene Araujo (2017, p. 173) o Marco Civil pretende ser uma carta de direitos, uma constituição para a Internet. Assim, os direitos declarados na Constituição brasileira garantidores da dignidade humana são reafirmados, como a liberdade de expressão, a personalidade e por consequência a proteção à intimidade e privacidade, a livre iniciativa, a defesa do consumidor, o exercício da cidadania e a orientação na finalidade social do objeto regulamentado.
	Os artigos 7º e 8º do marco civil dispõem sobre os direitos e garantias dos usuários respectivamente, zelando pela inviolabilidade da intimidade e da vida privada e a indenização material e moral no caso de violação, inviolabilidade e sigilo das comunicações pela internet, bem como no armazenamento destas, salvo por ordem judicial. Os dispositivos protegem direitos da personalidade, visando o equilíbrio, garantindo a liberdade no âmbito comunicacional sem ferir a dignidade da pessoa humana.
	Mas neste ponto o usuário se depara com uma relação de dependência das prestadoras de serviço e do Estado para resguardar os seus referidos direitos. O usuário, consente ou não consente com o uso de seus dados e a invasão de sua privacidade, por meio de uma simples adesão, muitas vezes não tendo a mínima chance de controlar seus dados e as barreiras para guardar seus segredos, sem acesso a uma real política de transparência, sem saber quais dados são coletados.
	Lawrence Lessig[footnoteRef:12] (apud SANTOS; ARAUJO, 2017, p. 22-23) propõe a proteção dos dados e informações por meio do direito de propriedade. Tal solução, segundo o autor, propiciaria maior condição de controle destes dados, fornecendo ou não os seus segredos, mediante consentimento. As mesmas ferramentas utilizadas para a proteção da propriedade seriam utilizadas para a proteção de dados, onde cada usuário definiria o nível de exposição de sua privacidade e intimidade. [12: LESSIG, Lawrence: É um escritor norte-americano e professor na faculdade de direito de Harvard e um dos fundadores do Creative Commons é um dos maiores defensores da Internet livre.] 
	O artigo 220 da Constituição Federal do Brasil determina a livre manifestação de pensamento, criação, expressão, informação, vedando embaraço à plena liberdade de informação jornalística em qualquer veículo de comunicação social, e qualquer censura de natureza política, ideológica e artística na forma da lei, vez que em seu parágrafo segundo e o inciso IX do artigo 5º da CRFB/88 impedem qualquer censura prévia, seja ela de particular, da administração e do próprio Poder Judiciário.
	Todavia, o Poder Judiciário pode, nos termos postos na Constituição, conceder o direito de resposta e fixar indenizações proporcionais ao agravo, sem prejuízo das responsabilidades na esfera penal.
	A Constituição brasileira segue o modelo da posterior responsabilização frente à liberdade, de modo em que se garante primeiro a liberdade de comunicação e depois a responsabilidade pelos excessos. O mesmo entendimento incorporado no artigo 13, 2 do Pacto de San Jose da Costa Rica:
Artigo 13 - Liberdade de pensamento e de expressão
2. O exercício do direito previsto no inciso precedente não pode estar sujeito à censura prévia, mas a responsabilidades ulteriores, que devem ser expressamente previstas em lei e que se façam necessárias para assegurar: a) o respeito dos direitos e da reputação das demais pessoas; b) a proteção da segurança nacional, da ordem pública, ou da saúde ou da moral públicas. (CONVENÇÃO AMERICANA DE DIREITOS HUMANOS, 1969).
	A inovação do marco se dá em relação à responsabilidade por conteúdos gerados por terceiros, estabelecendo em seu artigo 18 que os provedores não serão responsabilizados civilmente por conteúdos gerados por terceiros, somente respondendo por danos nos termos do seu artigo 19 se, após ordem judicial específica, nos casos em que não tome as providências no âmbito e nos limites técnicos do seu serviço e dentro do prazo assinalado, ou não torne indisponível o conteúdo apontado como infringente, ressalvadas as disposições legais em contrário.
	Acaba que o que a lei cria é uma censura estatal, em que este determinará a retirada do conteúdo considerado inadequado, trazendo novamente à tona a censura do Poder Judiciário, uma vez que permite ao juiz determinar a retirada do conteúdo, podendo tal censura ocorrer também de forma liminar, desde que observadas provas inequívocas do fato e que haja o interesse da coletividade, constando também os requisitos processuais para à antecipação de tutela.
3.2 RESUMO DO EPISÓDIO
	No episódio ‘Hated in the nation’ (odiados pela noção) da série ‘Black Mirror’ o episódio começa com a detetive Karin Parke sendo convocada para uma audiência para discutir seu envolvimento em um caso de segurança nacional britânica.
	O episódio retorna ao ano anterior, mostrando a história de uma jornalista (Jo Powers - interpretada por Elizabeth Berrington) que estava sendo um alvo recente de ameaças de morte online após ter criticado um suicídio publicamente.
	As investigações começam quando Jo Powers é encontrada morta em casa com a garganta cortada, a princípio se tratando de um aparente suicídio. Porém, ante a crítica pública da jornalista, a detetive Parke cogita a hipótese de que Powers tivesse sido assassinada pelo seu marido.
	No dia seguinte, um rapper chamado Tusk (Charles Badalona), que também se tornou um alvo de ódio na Internet por seu tratamento cruel, ao desmotivar um jovem fã, acaba tendo uma convulsão e é hospitalizado e sedado. Uma máquina de ressonância, usada para determinar a causa da convulsão, magneticamente puxa um objeto de metal do cérebro de Tusk.
	É revelado que ambas as mortes estavam ligadas a hashtag ‘Death to’ (morte a) nas redes sociais onde quem ficava no topo da lista, sendo o mais mencionado na hashtag pelos usuários e logo o mais odiado, acabava morto até o final do dia e o objeto utilizado para o assassinato eram as ADIs (Insetos Drone Autônomos ou ‘Autonomous Drone Insects’) desenvolvida pela Empresa fictícia Granular para neutralizar o colapso das colônias de abelhas.
	A detetive Parke e sua parceira Blue (Faye Marsay) encontram a próxima vítima, uma jovem (Holli Dempsey) que tirou uma foto simulando urinar em um monumento de guerra militar, atraindo assim indignação pública e ocupando o primeiro lugar na hashtag. Na tentativa de protegê-la, a equipe a conduz até uma casa segura, mas um enxame enorme de ADIs explode através das janelas e de dutos de ar. A jovem morre nos braços de Parke e Blue quando uma das abelhas robóticas sobe pelo seu nariz e entra em seu cérebro. Curiosamente, as ADIs ignoraram todos os outros presentes na instalação.
	Após o ocorrido, Parke entrevista uma ex-funcionária da Granular que tentou se suicidar após receber diversas mensagens de ódio online, esta contou que foi salva pelo colega de apartamento, Garrett Scholes (Duncan Pow), também um ex- funcionário da Granular.
	A detetive Parke fica imediatamente desconfiada de Scholes, frente a forte conexão dele com experiências de discursos de ódio na Internet; Simultaneamente Blue descobre que a ADI no cérebro de Jo Powers contém um manifesto digital escrito por Scholes, afirmando seu desejo de que as pessoas enfrentem as consequências do ódio que disseminam todos os dias sem se esconder atrás do anonimato online.
	No manifesto

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