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ARTIGO CIENTÍFICO - O IMPACTO DOS DISCURSOS DE ÓDIO NAS REDES SOCIAIS E A JUSTIÇA COM AS PRÓPRIAS MÃOS ANÁLISE CRÍTICA E COMPARATIVA À LUZ DO EPISÓDIO 'HATED IN THE NATION' DA SÉRIE BLACK MIRROR

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incluía uma foto de Scholes tirada pelo seu telefone, permitindo que Blue rastreasse o local em que a foto havia sido tirada. Uma invasão neste antigo esconderijo começa, e Blue desenterra uma unidade de disco, que contém um sistema para controlar as ADIs, bem como uma função de "desativar".
	Todavia, quando conectado ao sistema ADI, a unidade baixa uma lista de todos que já usaram a hashtag ‘Death to’. A lista contém os nomes, rostos, identidades e telefones de todas os usuários que usaram a hashtag, sendo estes usuários os novos alvos, os reais alvos desde o princípio, Scholes tinha usado apenas as figuras publicamente odiadas como isca, seu plano final era usar as ADIs para matar as centenas de milhares de pessoas que participam do "jogo", como punição pelo seu próprio ódio.
	O desfecho se torna impactante pela crueldade ante o fato de que o plano de Scholes sempre foi uma lição de moral severa para aqueles que popularizaram as hashtags, jorrando ódio sem pudor. Onde aqueles que instigavam o ódio e desejavam a morte de terceiros, acabaram mortos por consequência dos seus discursos de ódio publicados, que acreditavam que por serem praticados através das redes sociais não tinham relevância ou teriam sequer alguma punição, como ocorre diariamente na realidade fática.
	‘Black Mirror’ tem uma opinião bastante crua sobre o assunto, em que a liberdade é superestimada, no que pese os usuários do Twitter através da hashtag ‘Death to’ no uso da própria liberdade esmagarem a liberdade das celebridades, e que no combate de liberdade contra liberdade, no fim do dia, não foi o governo espionando os seus cidadãos que levou à morte de 387 mil pessoas. Por mais que a tecnologia que possibilitou esse genocídio estivesse lá para ser manipulada pelas agências de inteligência, quem trouxe o horror à realidade foram os espionados e não os espiões.
3.3 POPULISMO PENAL MIDIÁTICO E A JUSTIÇA COM AS PRÓPRIAS MÃOS
	Nas palavras de Luiz Flávio Gomes (2012, In. JusBrasil, on-line) “o populismo penal tem origem no clamor público, gerando novas leis penais ou novas medidas penais, que inicialmente chegam a acalmar a ira da população, mas depois se mostram ineficientes” porque não resolvem a lide. Nesta esteira, aduz: 
Os atores políticos (governantes e legisladores) prometem o fim da impunidade generalizada e para isso aprovam aumento de penas, endurecimento da execução penal, acenam com a diminuição da idade da imputabilidade penal, criam regimes prisionais duríssimos etc. Todas essas medidas, no final, resultam pouco operantes para reduzir a criminalidade. Com o passar do tempo surgem novas demandas e outras leis são aprovadas, formando-se um círculo vicioso (GOMES, 2012, In. JusBrasil, on-line).
	Sob o ponto de vista conceitual Luiz Flávio Gomes (2013, p. 24) afirma que o populismo penal é um fenômeno político-criminal polivalente que, para além de ser expressão de uma ideologia punitiva “hiper punitivista”, pode ainda ser representado como traço característico das sociedades contemporâneas, onde vicejam discursos punitivos “irracionais, emotivos, desproporcionais e repressivo”.
	Além do populismo penal, no âmbito das estratégias político-criminais, nasce o populismo penal midiático que é a idéia de punição influenciada e inflamada pela mídia, que para Luiz Flávio Gomes (2013, p. 33) tem seu lugar quando presentes três condições específicas: (i) transubstanciação do modelo democrático representativo numa democracia de opinião; ; (ii) constituição de uma legitimidade popular “desde baixo” em prol do sistema de justiça criminal; (iii) instrumentalização eleitoreira do direito penal. Neste sentido escreve:
Por meio de eficientes técnicas de manipulação (é nisso que consiste o populismo penal), cria-se ou amplia-se a sensação de insegurança, o sentimento de medo (em síntese, a realidade), explora se a reação emotiva ao delito, para se alcançar consenso ou apoio popular para a expansão do poder punitivo (mais presídios, mais policiais, mais vigilância de toda população, mais poder à polícia, mais controle etc (GOMES, 2013, p.33)
	O Direito Penal já viveu uma fase em que a vingança privada e a violência eram resposta aos delitos, retribuindo o mal causado ao ofendido. Hoje, apesar de o ordenamento jurídico brasileiro tender ao Garantismo Penal, é comum notar na sociedade, principalmente dentre os grupos fortemente influenciados pela mídia, a opinião de que deve haver o endurecimento da repressão penal como forma de prevenir e diminuir os índices de criminalidade. 
	No entanto, na prática, estes ideais ferem princípios constitucionais e penais que tutelam a dignidade humana dos agentes em conflito com a lei. O poder desse populismo midiático está associado tanto a mídia brasileira tendenciosa, como também a sua forma de controle, oriunda de um Estado, que estimula direta ou indiretamente o populismo penal e a seletividade dos cidadãos que irão compor a massa carcerária.
	Um grande exemplo dessa influência negativa da mídia no campo penal são os jornalismos com tendências à espetacularização, com uma exagerada dramatização na própria oratória e até nos aspectos dos crimes, onde a notícia é transformada em um “produto”, para que possa ser vendido e apreciado pelos seus clientes, inculcando, consequentemente, a ideia da necessidade de uma forte e urgente repressão. Nesta esteira exemplifica Flávio Gomes:
Há muitos anos estamos assistindo no Brasil ao paroxismo (extrema intensidade) do extravagante e bárbaro espetáculo midiático promovido pelo populismo penal, que constitui o eixo da chamada “Criminologia midiática”, que explora à exaustão o “catastrófico”, o “ridículo”, o “aberrante”, o “sanguinário”, havendo amplo apoio popular a essa absurda hiperdimensão dos fatos, com a edição de chocantes imagens, que incrementam a cultura do medo e da violência (OMES 2012, In. JusBrasil, on-line)). 
	De fato, é nítida a influência da mídia no cotidiano da sociedade moderna, onde quase tudo se consome, se compra e é divulgado pela internet. Preocupante é a ligação entre esta influência com o populismo penal no que tange a vingança popular tida como guia de política criminal.
	Percebe-se, que o populismo penal vai de encontro às medidas garantistas que visam proteger direitos e garantias fundamentais, marca do nosso atual Estado Democrático de Direito. Preocupante, pois, a intensidade e proporção que este movimento está tomando através dos meios de comunicação, uma vez que propagam ideias contrárias à lei, apelando para discursos que defendem a violação de princípios constitucionais. Com grande maestria, profere Luiz Flávio Gomes:
O populismo midiático se equivoca redondamente quando, para reivindicar mais eficiência da persecução penal, sugere o corte dos direitos constitucionais. Não se pode cobrir um corpo descobrindo outro, quando há cobertor para os dois. A proteção do Estado (punindo os criminosos) é fundamental, tanto quanto a proteção contra o Estado. O populismo penal midiático comete o mesmo erro dos nazistas assim como de alguns criminólogos críticos que ignoraram a função protetiva (e civilizatória) dos direitos e das garantias. O populismo penal midiático deve resolver, de uma vez por todas, seu dilema entre a barbárie e a civilização (GOMES, 2012, on-line). 
	Frisa-se, que não é incomum pessoas e noticiários reproduzirem discursos afirmando que sujeitos que praticam delitos merecem ser espancados e torturados, incentivando a vingança privada, ocorre que existem casos que transpassam a esfera do discurso, e, seus ideais contrários à lei se dão de forma ativa nos termos do art. 345 do Código Penal[footnoteRef:13], cometendo o agente crime de Exercício Arbitrário das Próprias Razões, que nada mais é do que fazer justiça com as próprias mãos, trazendo para si a tutela que é do Estado e punindo segundo suas próprias convicções, ocorre que, tal exercício arbitrário em casos como o que será abordado posteriormente, extrapolam o dispositivo supracitado, culminando em crimes

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