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ARTIGO CIENTÍFICO - O IMPACTO DOS DISCURSOS DE ÓDIO NAS REDES SOCIAIS E A JUSTIÇA COM AS PRÓPRIAS MÃOS ANÁLISE CRÍTICA E COMPARATIVA À LUZ DO EPISÓDIO 'HATED IN THE NATION' DA SÉRIE BLACK MIRROR

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de lesão corporal (art. 129 do CP) e até homicídio (art. 121 do CP). [13: Art. 345 - Fazer justiça pelas próprias mãos, para satisfazer pretensão, embora legítima, salvo quando a lei o permite: Pena - detenção, de quinze dias a um mês, ou multa, além da pena correspondente à violência. Parágrafo único - Se não há emprego de violência, somente se procede mediante queixa.
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	Se faz preocupante essa influência da mídia na opinião das massas ao reproduzirem ideais punitivos e vingativos de justiça, que não contribui para o combate à criminalidade, mas ao contrário, incentiva cada vez mais a autotutela, e sem se importar com as consequências da influência midiática buscam aumentar a audiência e satisfazer o entretenimento de seus usuários, acima de qualquer limite moral.
	Tal ideal distorcido de justiça com o incentivo do poder midiático leva a população a ignorar princípios e garantias fundamentais, expressas em nossa Constituição Federal, propagando inconstitucionalidades em prol da justiça repressiva. Como por exemplo, garantias concernentes à proteção da integridade física e moral do ser humano, ferindo os princípios da intervenção mínima, da dignidade da pessoa humana, da proporcionalidade, da presunção de inocência e do devido processo legal.
	Pelos motivos expressos até então, entende-se que o populismo penal atua de forma violenta contra os agentes criminosos e, às vezes, também com aqueles que são ainda apenas suspeitos de terem cometido alguma infração penal. Porém essa violência não é somente fruto do clamor social e da manipulação midiática, ela também é fruto das estruturas preconceituosas do próprio Estado.
	Desta forma, o incentivo à prática do populismo penal midiático, é um retrocesso penal e social, voltando a máxima do Código de Hamurabi “olho por olho e dente por dente”, em proporções estrondosas e sem qualquer limite, em um "tribunal da Internet", onde não existe direito ao contraditório e com princípios baseados na vingança, no preconceito e na intolerância.
3.4 ANÁLISE COMPARATIVA ENTRE O EPISÓDIO E O CASO FABIANE DE JESUS COMO EVIDÊNCIA DA REPERCUSSÃO DOS DISCURSOS DE ÓDIO NA SOCIEDADE TECNOLÓGICA
	O caso eixo, ocorreu no dia 06/05/2014 em Guarujá (São Paulo), em que Fabiane de Jesus foi espancada até a morte por um grande grupo de pessoas da comunidade em que residia, em razão de uma notícia compartilhada na internet, ao ser confundida com uma suposta sequestradora de crianças que praticava magia negra.
	Segundo reportagem do G1, dezenas de usuários da rede social criticaram duramente o administrador da página e um deles chegou a dizer que a página seria tão culpada quanto os agressores, vez que o administrador da página do Facebook foi responsável por postar o retrato falado (RIBEIRO, 2014, on-line). 
	O crime perpetrado contra Fabiane foi um um homicídio (art. 121 do CP), que em razão de ter sido cometido por um grupo grande de pessoas, se tratou de um verdadeiro um linchamento, que tem como finalidade punir exemplarmente, ou seja, a busca da consumação da justiça com as próprias mãos, Ana Freitas salienta:
Um linchamento é um assassinato (ou uma tentativa) cometido por um grupo grande de pessoas, cujas motivações conjugam a ideia de execução sumária, justiça social e vingança. Os contextos podem variar, mas o caráter coletivo da ação, a ideia de justiça com as próprias mãos e os preconceitos que geralmente orientam esse tipo de comportamento são elementos comuns na maioria dos episódios (FREITAS, 2016, on-line).
	
	Insta ressaltar o linchamente não tem previsão no Código Penal e dificilmente são punidas, segundo a pesquisadora Ariadne Natal (apud PUFF, 2017, p,1) em 589 ocorrências de linchamento em 30 anos apenas um suspeito chegou a ir a julgamento, segundo ela, quem lincha sabe que tem respaldo social para isso pois sabe que não haverá depoimentos de testemunhas nem maiores investigações ou punições.
	Embora na ficção tenha um desfecho proporcionalmente maior do que no caso concreto analisado por se tratar em cenário futurista, nota-se que tanto no episódio quanto no caso de Fabiane o exposto na internet teve consequências em que o ódio contra pessoas rotuladas terminaram em morte.
	Enquanto no episódio da série a morte dos personagens odiados se dá pelas abelhas drone que hackeadas por Scholes fazem a vontade popular por meio de votos na hashtag “#MorteA” para que o mais odiado do dia morra, no caso real, Fabiane de Jesus foi espancada até a morte por um grupo de pessoas ao ser confundida com um retrato falado de uma sequestradora de crianças compartilhado pelo facebook. 
	Em ambos os casos ocorreram a influência midiática ensejando maior repercussão e o populismo penal por meio desta, motivando e aumentando o desejo de vingança e punição, fazendo com que a população passasse por cima do poder do Estado.
	Em suma, ainda que o episódio supracitado se distancie no viés tecnológico do caso concreto ora exposto, há de se ter a consciência de que a repercussão dos discursos de ódio disseminadas no campo virtual se dão em uma realidade fática, que inflamados por um influência midiática acaba sendo por diversas vezes trágicas, como ocorreu no caso concreto ora exposto, em que a população fez ‘justiça’ com as próprias mãos, ignorando a presunção de inocência e deixando de oferecer a pessoa do “acusado” um processo penal justo se fosse nec
	Observa-se que os discurso de ódio disseminados no campo virtual se originam, se fortalecem e se perpetuam, a partir de um constante populismo penal midiático, que através da espetacularização da violência, aponta como alternativa saídas cada vez mais punitivas, e supressoras de garantias e direitos fundamentais, que incitam no imaginário popular no sentido de desumanizar pessoas que cometem ilícitos penais, ou que se “encaixam” no estereótipo de criminoso construído pelas estatísticas criminais. A partir dessa desumanização, surge a falsa legitimidade de fazer justiça com as próprias mãos. 
	Desta forma, tanto no episódio “Hated in the nation” quanto no caso Fabiane de Jesus, os internautas foram os acusadores e julgadores, indo contra o sistema jurídico conforme ocorre na teoria do populismo penal, tendo assim um sistema inquisitório virtual que atravessa as telas e se concretiza no âmbito social.
	Segundo a SaferLab (2006, on-line), um projeto que visa apoiar jovens que sofrem discriminações, criado pela SaferNet Brasil com o apoio da UNICEF, os discursos de ódio costumam ser definidos como manifestações que atacam e incitam ódio contra determinados grupos sociais, normalmente baseados em raça, etnia, gênero, orientação sexual, religiosa ou origem nacional. Só a SaferNet, idealizadora do SaferLab, já recebeu mais de 2 milhões e meio de denúncias de conteúdos de ódio desde 2006.
	Os conflitos sociais sempre existiram e estes que hoje são disseminados na internet se tratam de ideologias originárias do mundo físico, que apenas havia menor proporção por estar restrito a grupos sociais de convivência. Juntamente com a evolução tecnológica e digital, estes ideais distorcidos acabaram sendo cada vez mais difundidos na internet, dando a ilusão aos seus usuários de que seria um espaço intocável aos ditames do direito.
 	Ao momento em que por meio das redes sociais, seus usuários cada vez ostentam maior liberdade em expressar tudo que se pensa, as redes se tornaram um espaço de se noticiar. Neste sentido, constata-se que o direito à liberdade de expressão, está sendo exercido de forma abusiva, ao momento em que lesiona a dignidade da pessoa humana, sendo este, princípio fundamental dos direitos humanos.
	Entretanto, os direitos fundamentais não são absolutos e, por isso, ao momento em que outros direitos garantidos são ameaçados ou violados, vê-se a necessidade de se estabelecer uma determinada limitação ao uso da livre manifestação de pensamento. Já alegava a teoria filosófica de Michel Foucault de que a livre manifestação de pensamento deveria ser ponderada diante da sociedade. Nesse sentido, assevera:
Em uma sociedade como a nossa, conhecemos,

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