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ARTIGO CIENTÍFICO - O IMPACTO DOS DISCURSOS DE ÓDIO NAS REDES SOCIAIS E A JUSTIÇA COM AS PRÓPRIAS MÃOS ANÁLISE CRÍTICA E COMPARATIVA À LUZ DO EPISÓDIO 'HATED IN THE NATION' DA SÉRIE BLACK MIRROR

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é certo, procedimentos de exclusão. O mais evidente, o mais familiar também, é a interdição. Sabe-se bem que não se tem o direito de dizer tudo, que não se pode falar de tudo em qualquer circunstância, que qualquer um, enfim, não pode falar de qualquer coisa (FOUCAULT apud ZAGO; SILVA; CARDOSO, 2019, on-line).
	O abuso de direito, possui previsão legal no artigo 187 do Código Civil, assim, destaca-se que “Também comete ato ilícito o titular de um direito que, ao exercê-lo, excede manifestamente os limites impostos pelo seu fim econômico ou social, pela boa-fé ou pelos bons costumes”. Assim, importa dizer que, sua ocorrência se dá mediante um ato abusivo de direito que foi assegurado a um indivíduo, o que neste sentido, trata-se de um direito lícito sendo exercido ilicitamente. 
	Sobre as redes socias aduz Bob Vieira da Costa (apud ZAGO; SILVA; CARDOSO, 2019, 
) que “As redes sociais fazem nada mais faz que amplificar esse ódio, reafirmar os preconceitos que as pessoas já têm”. Nesta vereda, fora apresentado, um relevante levantamento sobre o cenário em que as redes sociais se encontravam há três anos atrás, mas com os mesmos problemas que encontramos nos dias de hoje. Assim, destaca-se:
Cabelo ruim, gordo, vagabundo, retardado mental, boiola, malcomida, golpista, velho, nega. Expressões como essas predominam nas nuvens de palavras encontradas em posts que revelam todo tipo de intransigência ao outro, em vários aspectos: aparência, classe social, deficiência, homofobia, misoginia, política, idade, raça, religião e xenofobia [...] (apud ZAGO; SILVA; CARDOSO, 2019, on-line).
 	Portanto, podemos observar que, as redes sociais, se tornaram ambientes precedidos pela ignorância e propício ao discurso de ódio, além disto, nada inclusivo para as minorias sociais, sendo assim, um verdadeiro caos contemporâneo.
 4 CONSIDERAÇÕES FINAIS
	Esta pesquisa se debruça sob as bases do garantismo penal e da dignidade da pessoa humana ao analisar a partir da criminologia cultural e do populismo penal midiático os discursos de ódio e seu impacto nas redes sociais levando em alguns casos a condutas de justiça com as próprias mãos, fazendo um paralelo entre o episódio ‘Hated in the nation’ da série ‘Black Mirror’ e o caso real de Fabiane de Jesus que aconteceu em 2014 no Guarujá/SP. 
	O termo garantismo provém da palavra garantia, que segundo o dicionário ‘Oxford language and google’ (on-line) é o ato ou palavra com que se assegura o cumprimento de obrigação, compromisso. Dito isto, o garantismo penal visa cumprir essencialmente a lei positivada no ordenamento jurídico e ao mesmo tempo no seio social, alcançando os fins corretos para esta se fazer válida e eficaz, em caráter legal e moral, de modo que sua aplicação observe as garantias relativas à pena, ao delito e ao processo, zelando pelos direitos fundamentais e pelo princípio norteador do estado democrático de direito, a dignidade da pessoa humana.
	Neste sentido, a dignidade da pessoa humana apresenta-se como uma limitação ao estado e a concepção puramente normativa, onde a pessoa deve ser o centro de todo o direito, vez que nas palavras Luis Regis Prado (2009, p. 9) “a dignidade é intrínseca ao homem, como um verdadeiro atributo ontológico, isto é, integrante da própria espécie, e, portanto, válida em si mesma”.
	O discurso de ódio fere a dignidade da pessoa humana e direitos fundamentais, extrapolando os valores e limites morais e legais da liberdade de expressão, se tratando de um abuso ao direito, que se pronuncia de forma violenta através de insultos, que na maioria das vezes ofende características físicas, raciais, opção sexual e aspectos ideológicos e culturais de alguém, podendo ser inserido como crime de injúria racial, e com aumento de pena se disseminado por meios digitais.
	A intolerância presente na essência do discurso de ódio é fruto de uma segregação baseada na desigualdade social, onde existe uma cultura dominante majoritariamente branca e com maiores recursos financeiros, contra uma subcultura de maioria negra e com baixo poder aquisitivo, que é alvo de discriminação e nasce justamente de uma frustração coletiva como forma de resistência, o que como revolta motiva a transgressão das leis e normas criadas com uma aplicação prática pró cultura dominante.
	A criminologia cultural com sua raiz crítica analisa a construção social do comportamento criminoso e dos sujeitos criminalizados nestas subculturas, bem como símbolos, vestes, expressões linguísticas e corporais que incorporam as culturas das minorias como forma de inclusão dos excluídos, que acabam sendo ainda mais rotulados e classificados pelas autoridades jurídicas e políticas como criminosos, simplesmente por suas características culturais marginalizadas. 
	Com a sociedade moderna toda realidade do mundo fático reflete nos meios digitais, da mesma forma usuários reproduzem seus preconceitos, condutas odiosas, discriminatórias e vexatórias por meio principalmente de perfis em redes sociais. Tanto a Constituição brasileira quanto o Marco Civil da internet seguem o modelo da posterior responsabilização frente à liberdade, de modo em que garantem primeiro a liberdade de comunicação e depois a responsabilidade pelo abuso do direito.
	Outro fenômeno ligado ao mau uso da internet é o populismo penal midiático, que consiste num hiper punitivismo com espetacularização, ou seja, idéia de punição mais dura e cruel para agentes criminosos, influenciada e inflamada pela mídia acompanhada de um clamor social principalmente da cultura dominante e das estruturas preconceituosas do estado. Uma espécie de show de horrores da atualidade, ferindo princípios que tutelam a dignidade humana dos agentes em conflito com a lei.
	Ocorre que com a mídia incentivando em prol da justiça repressiva condutas contra à integridade física e moral do ser humano, contra à intervenção mínima, a presunção de inocência e o devido processo legal, em não raros casos instigam que esses ideais se tornam prática, chegando a acontecer tragédias, onde agentes cegos por essa retribuição irracional, fazem “justiça” com as próprias mãos trazendo para si a tutela de punir do Estado e cometendo crimes de lesão corporal e até homicídio.
	O episódio ‘Hated in the nation’ (odiados pela nação) da série ‘Black Mirror’ é uma crítica a estes tribunais da internet em que os usuários condenam os outros; No episódio essa conduta se dá através da hashtag ‘#DeathTo’ (#MorteA) em que usuários do twitter criam um ranking dos mais odiados na internet, pelo simples hábito de participar da exposição popular do ódio que é a febre do momento, a princípio sem saber que até o final do dia o mais odiado realmente morreria.
	Todavia no episódio supramencionado, o ódio se volta contra os odiadores, pois a hashtag foi criada por Scholes como uma lição onde aqueles que instigaram o ódio e desejaram a morte de terceiros, acabaram mortos por consequência dos seus discursos de ódio publicados.
	No caso eixo apresentado a vítima Fabiane de Jesus foi espancada até a morte por um grupo de pessoas no bairro do Guarujá/SP em virtude de uma notícia compartilhada na internet sob supostas acusações de praticar magia negra e sequestrar crianças. Tal notícia vinha acompanhada de uma foto de uma mulher parecida com Fabiane, que foi confundida com a suposta criminosa e não teve sequer a possibilidade de se defender.
	Tanto no episódio da série como no caso concreto de Fabiane a repercussão dos discursos de ódio disseminadas no campo virtual tiveram consequências no mundo físico, que tomaram grande proporção por um influência midiática, onde direitos como a presunção de inocência, o contraditório e o devido processo legal foram ignorados. 	
	Segundo índices e fatos apresentados ao longo desta pesquisa, resta evidente o caos contemporâneo do excesso de liberdade, instaurado pela influência da mídia apoiada pela cultura dominante, com tendências cada vez mais voltadas ao ódio e ao hiper punitivismo, elevando o medo e a violência e alastrando ainda mais a exclusão das minorias e o vão

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