FACÓ, Rui. Cangaceiros e Fanaticos
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FACÓ, Rui. Cangaceiros e Fanaticos


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Cangaceiros e Fanáticos
R u i F a c ó 
 
 
C a n g a c e i r o s 
 
e 
 
F a n á t i c o s 
 
gênese e lutas 
 
 
 
Sumário 
 
 
Prólogo 9
 
 
I PARTE 
 
O DESPERTAR DOS POBRES DO CAMPO 
 
1 \u2014 Males do monopólio da terra 15 
2 \u2014 A emigração em massa 29 
3 \u2014 Os cangaceiros 38 
4 \u2014 Os "fanáticos" 47 
5 \u2014 O "fanatismo", elemento de luta 54 
6 \u2014 Distinção necessária 60 
 
 
II PARTE 
 
CANUDOS E O CONSELHEIRO 
 
1 \u2014 Brasil, fim do século XIX 79 
2 \u2014 A República e os impostos 86 
3 \u2014 Ebulição no campo 93 
 
 
III PARTE 
 
JUAZEIRO E O PADRE CÍCERO 
 
Antecedentes 
O Padre Cícero e seus "milagres" 
Sementeiras de capangas 
4 \u2014 Floro Bartolomeu e sua influência 153 
5 \u2014 O Padre na penumbra 163 
6 \u2014 Apogeu do cangaceiro e do jagunço 172 
7 \u2014 Modifica-se o Cariri 180 
8 \u2014 última fase da guerra civil nordestina 188 
9 \u2014 1930, o mais forte golpe no poder dos coronéis 198 
10 \u2014 Um saldo positivo: Caldeirão 204 
11 \u2014 Um quarto de século depois 215 
6 
 
 
 
Prólogo 
 
 
 
 
 
 
 
 
1. Devo algumas explicações ao leitor. Primeiro, quanto 
ao título deste livro. Se o termo cangaceiro é usado comumen-
te nos sertões para designar os participantes dos bandos de 
insubmissos que pegam em armas para viver de assaltos, e os 
próprios componentes desses bandos se identificam como 
cangaceiros, o mesmo já não ocorre com o termo fanático. Es-
te veio de fora, dos meios cultos para o sertão, designando os 
pobres insubmissos que acompanhavam os conselheiros, mon-
ges ou beatos surgidos no interior, como imitações dos sacer-
dotes católicos ou missionários do passado. É um termo im-
próprio, inadequado, sobre ser pejorativo. 
Tem-se exagerado indevidamente \u2014 e esta é uma das te-
ses deste livro \u2014 o fundo místico dos movimentos das massas 
sertanejas como foram Canudos, Juazeiro, o Contestado e um 
sem-número de episódios semelhantes, mais restritos, que 
eclodiram em diferentes pontos do Brasil. Não negamos a 
existência do fenômeno, uma espécie de misticismo, de mes-
sianismo não-cristão, embora formalmente influenciado pelo 
cristianismo. O que discutimos é a sua essência, a eclosão e e 
motivação das lutas no falso pressuposto de que elas têm no 
misticismo ou messianismo sua origem e seu fim. Acreditamos, 
ao contrário, que os fenômenos de misticismo ou messianismo, 
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que se convencionou chamar de fanatismo, disseminados pe-
los sertões em nosso passado ainda recente, têm um fundo 
perfeitamente material e servem apenas de cobertura a esse 
fundo. É a sua exteriorização. Em populações submetidas à 
mais ignominiosa exploração e mergulhadas no mais com-
pleto atraso, sob todos os aspectos, a razão estava obscureci-
da e transbordavam os sentimentos em estado de superexcita-
ção. A própria Natureza inclemente, e contra a qual não ti-
nham meios para lutar, favorecia essa exacerbação de senti-
mentos. E, como dizia Feuerback, o sentimento é o órgão es-
sencial da religião. Ao elaborarem variantes do cristianismo, 
as populações oprimidas do sertão separavam-se ideologica-
mente das classes e grupos que as dominavam, procurando 
suas próprias vias de libertação. As classes dominantes, por 
sua vez, tentando justificar o seu esmagamento pelas armas \u2014 
e o fizeram sempre \u2014 apresentavam-nos como fanáticos, isto 
é, insubmissos religiosos extremados e agressivos. 
Ao visitarmos Canudos, em 1939, quando ainda encon-
tramos ali um sobrevivente famoso dos conselheiristas, Manuel 
Ciríaco, não lhe ouvimos uma vez sequer alusão a fanáticos pa-
ra designar os habitantes de Belo Monte do Conselheiro. Ao vi-
sitarmos Juazeiro, em 1960, ali tampouco chamam de fanáticos 
os "afilhados" do Padre Cícero ou os seguidores do Beato Lou-
renço. Mas o termo tem sido amplamente adotado para desig-
nar os participantes daqueles núcleos de insubmissos do cam-
po, generalizando-se nacionalmente. É com estas restrições que 
o empregamos aqui. 
2. A segunda parte deste livro, dedicada a Canudos, ini-
cialmente elaborada em 1950, foi publicada pela primeira vez 
em dois números sucessivos da Revista Brasiliense, São Paulo, 
n.°20 e 21, correspondentes a dezembro de 1958 e janeiro de 
1959 e na revista soviética Nóvaia i Novêichaia História, Mos-
cou, n.° 1, 1959. Sofre agora este trabalho algumas mo-
dificações e acréscimos. 
Da terceira parte, referente a Juazeiro, foram publicados 
trechos na Revista Brasiliense, São Paulo, n.° 38. Alguns desses 
trechos são modificados ou aproveitados em outros capítulos 
do mesmo estudo, na medida em que o trabalho, então em fase 
de elaboração, foi sendo ampliado na base de novas pesquisas. 
8 
3. A publicação deste livro coincide com o aparecimento 
de uma série de obras em que tanto o cangaceirismo como o 
fanatismo sertanejo são ainda objeto de atenção em relatos 
que vêm enriquecer a bibliografia já existente com novos de-
poimentos e documentação. São temas apaixonantes, no pas-
sado como hoje, que explicam as edições sucessivas de Os 
Sertões de Euclides da Cunha, e que estão chegando ao do-
mínio da arte, servindo de motivo a filmes e peças de teatro. É 
como que uma tomada de consciência em relação ao passado, 
um passado clamoroso, do qual ainda existe grande cópia de 
remanescentes em nosso presente, e um desejo que se torna 
generalizado de por fim para sempre a esses vergonhosos re-
manescentes. É também o reconhecimento de que aqueles ho-
mens que empunhavam armas e se tornavam cangaceiros, ou 
que se reuniam em torno de um monge ou conselheiro e eram 
chamados de fanáticos, não passavam na realidade de vítimas 
de uma monstruosa organização social que se está modifican-
do hoje ao sopro das vertiginosas transformações por que 
passa o mundo contemporâneo e que nos envolvem, sacudindo 
a letargia em que vivia o nosso interior. Mais do que isso, fo-
ram aqueles miseráveis sertanejos os precursores do surgi-
mento de um espírito inconformado que haveria de criar mais 
tarde uma situação revolucionária para a destruição completa 
daquele estado de coisas anti-humano. 
Empreendemos aqui uma tentativa de compreensão da-
queles fenômenos. Relatos existem, numerosos. Interpretação, 
nenhuma. Quando muito, este ou aquele autor se anima a emi-
tir uma consideração a vôo de pássaro sobre as origens do 
cangaceiro ou do fanático. A própria aceitação da ordem de 
coisas vigente e a crença na sua imutabilidade determinavam 
os preconceitos e os erros para compreender os fenômenos 
patológicos resultantes. 
Foi nosso empenho dar resposta principalmente a estas 
indagações: Por que surgiu o cangaceiro? Por que surgiu o 
fanático? Que gerou o capanga? Que os faz desaparecer? Es-
te livro é uma busca a respostas às inquietantes perguntas, 
que se impuseram certamente ao autor como parte do pro-
cesso mesmo de tomada de consciência nacional que alcança-
mos cada vez mais plenamente na medida em que crescemos 
9 
no domínio econômico, modifica-se toda a nossa sociedade e 
nos integramos no conjunto universal dos povos com a nossa 
própria voz, as nossas características, e afirmamos a nossa 
individualidade. 
 
 
 
I PARTE 
 
 
 
 
O Despertar dos Pobres do Campo 
 
 
 
O heroísmo tem nos sertões, para todo 
sempre perdidas, tragédias espantosas. 
EUCLIDES DA CUNHA 
 
12 
1 
 
 
 
 
Males do 
Monopólio da Terra 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
UMA SÉRIE DE CRISES \u2014 DE ORDEM 
econômica, ideológica, de autoridade \u2014 expressas em rebe-
liões espalhadas em vastas áreas do interior do Brasil, abran-
gendo muitos milhares de habitantes do campo, é a caracte-
rística principal do período de transição que compreende o 
último quartel do século XIX e o primeiro deste século em 
nosso País. 
Que foram