FACÓ, Rui. Cangaceiros e Fanaticos
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FACÓ, Rui. Cangaceiros e Fanaticos


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São ainda o elemento unificador por excelência de uma região
\u2014 mais do que o Nordeste, todo um imenso território interio-
rano \u2014 que se desagregava dentro de si mesma, em feudos
quase fechados e paralisados.

O cangaceiro e o fanático eram os pobres do campo que
saíam de uma apatia generalizada para as lutas que começa-
vam a adquirir caráter social, lutas, portanto, que deveriam de-
cidir, mais cedo ou mais tarde, de seu próprio destino. Não era
ainda uma luta diretamente pela terra, mas era uma luta em
função da terra \u2014 uma luta contra o domínio do latifúndio
semifeudal.

Naquele atraso medieval, a reação da classe potencial-
mente revolucionária \u2014 os semi-servos da gleba \u2014 é de nível

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 Azevedo Marques, Estado da Bahia, Salvador, 23/11/1938.

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correspondente ao desenvolvimento das forças produtivas:
uma reação primária em que o inimigo de classe não é per-
cebido claramente, em que as desgraças parecem cair do céu,
como castigos, e é necessário implorar as bênçãos do céu, em
que o individualismo campesino prevalece e a solidariedade
grupai é bem limitada. Os bandos cangaceiros que saem dentre
aqueles semi-servos vivem dispersos, lutam por objetivos iso-
lados e, não raro, enfrentam-se uns aos outros, destroem-se
mutuamente. Tornam-se presas de seus próprios inimigos de
classe, os grandes proprietários rurais, donos de fazendas de
gado ou de lavras de minério.

O surgimento e o incremento do cangaço é a primeira ré-
plica à ruína e à decadência do latifúndio semifeudal, de que
também é resultante.

Naquela sociedade primitiva, com aspectos quase medie-
vais, semibárbaros, em que o poder do grande proprietário era
incontrastável, até mesmo uma forma de rebelião primária,
como era o cangaceirismo, representava um passo à frente pa-
ra a emancipação dos pobres do campo. Constituía um exem-
plo de insubmissão. Era um estímulo às lutas. O cangaço pre-
cede os grandes ajuntamentos de "fanáticos" que tiveram seus
pontos culminantes em Canudos e no Contestado

15
.

15

 Neste trabalho focalizamos apenas as duas grandes concentrações de po-
bres do campo do Nordeste: Canudos (Bahia) e Juazeiro (Ceará). No que se

refere ao Contestado (fronteira Paraná-Santa Catarina) (1912/16), onde o

governo federal teve que empenhar importantes contingentes do Exército

para enfrentar os "jagunços" durante três anos e, finalmente, dizimá-los, re-

metemos o leitor às mais importantes das obras não puramente descritivas,

mas também interpretativas, de Maria Isaura Pereira de Queirós \u2014 La
"Guerre Sainte" au Brésil: le Mouvement Messianique du "Contestado".

São Paulo, 1957; e Osvaldo R. Cabral, João Maria, Interpretação da Cam-

panha do Contestado, São Paulo, 1960. Conhecemos parcialmente, ainda

não concluído, um valioso trabalho de pesquisa local e interpretação de

Maurício Vinhas de Queirós, que irá contribuir certamente para esclarecer

importantes aspectos da luta camponesa do Contestado, aquela onde a terra

foi objeto consciente do conflito armado.

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4

Os Cangaceiros

ENTRE MEADOS DO SÉCULO XIX E
começos do século XX, sucedem-se em cadeia movimentos de
rebelião de pobres do campo, de norte a sul do País. Assumem
as mais diversas características. Seus pontos culminantes são
Canudos (1896-1897), Contestado (1912-1916) e o Caldeirão
(1936-1938). Apesar da especificidade de cada um, liga-os um
traço comum sobressalente: o choque aberto entre a religiosi-
dade popular e a religião oficial da Igreja dominante.

No nível cultural de desenvolvimento em que se encon-
travam as populações rurais, mergulhadas no quase completo
analfabetismo e no obscurantismo, a sua ideologia só podia ter
um cunho religioso, místico, que se convencionou chamar de
fanatismo. Sob esta denominação têm-se englobado os com-
batentes de Canudos ou do Contestado, do Padre Cícero ou do
Beato Lourenço: fanáticos. Quer dizer, adeptos de uma seita,
ou misto de seitas, que não a religião dominante. Só que a sei-

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ta por eles abraçada, fortemente influenciada pela religião ca-
tólica, que lhe dá o substrato, era a sua ideologia. Como toda
ideologia, um conjunto de conceitos morais, religiosos, artísti-
cos, etc, que traduziam suas condições materiais de vida, seus
interesses, seus anseios de libertação e seus próprios métodos
de luta. Justificavam-nos também.

Semelhante fenômeno deve ter-se acentuado com a eclo-
são da crise religiosa da década de 70 e cujos reflexos foram
profundos e amplos em todo o País: a chamada Questão Re-
ligiosa em que foram partes principais o Governo e a cúpula
da Igreja Católica.

Pode-se imaginar a queda do conceito, para as massas ru-
rais, de bispos que eram presos, submetidos a julgamento pú-
blico, com grande alarde nacional, no Parlamento e na im-
prensa, até mesmo nas praças públicas, e esses bispos serem
condenados ao cárcere e a trabalhos. Junte-se a isto a tradi-
cional desmoralização do clero, o fato de a Igreja Católica ter
estado comprometida com a escravidão, havia pouco extinta,
e, mais, haver sido a Igreja separada do Estado com a Procla-
mação da República \u2014 e concluiremos que o desprestígio da
religião dominante só podia ser enorme entre as massas popu-
lares.

É conhecido o episódio do assalto a igrejas no Recife e
da quebra de objetos do culto pela multidão. Nos municípios
de Acarape e Quixeramobim, no Ceará, registra-se também,
nos anos de 1874-1875, a invasão de templos católicos, e aí
são rasgados livros de atas e quebrados móveis

1
. Igrejas de

Minas Gerais foram objeto de atentados logo depois da Pro-
clamação da República, a tal ponto que os clérigos mandavam
recobrir o ouro de numerosas imagens que despertavam a co-
biça dos iconoclastas.

Ademais, a igreja não era um lugar tão sagrado assim.
Dentro dela realizavam-se "eleições" para cargos da adminis-
tração ou representativos, e nessas "eleições" muitas vezes en-
trava um elemento normal na vida dos sertões, no século pas-
sado: o bacamarte ou o cacete. Brígido faz referência aos fa-

1
 Eusébio de Sousa, História militar do Ceará, Fortaleza, 1950,

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mosos "cerca-igrejas" que infestavam o Cariri nos começos do
século XIX. "Esses homens ferozes e embrutecidos tremiam
de cólera à notícia de qualquer solenidade, e armados invadi-
am a matriz do Crato, aos gritos de \u2014 Viva Nossa Senhora da
Penha! Era de mister muita humilhação e prudência, para se
escapar ao furor deles, e era tal o medo aos chamados cerca-
igrejas, tão freqüentes e inopinadas as suas aparições, que as
famílias já receavam concorrer aos atos religiosos"

2
.

Não advirão daí as maciças demonstrações de fanatismo
não-católico, que se propaga pelo interior, entre fins do século
passado e começos do atual?

A propagação dessa onda de fanatismo, de norte a sul do
País, revela uma drástica separação entre a ideologia das clas-
ses dominantes e camadas médias urbanas e a ideologia dos
setores empobrecidos da população rural.

Seus interesses materiais eram, em grande medida, con-
trários e mesmo antagônicos. Assim se é passível de discussão
que os rebeldes de Canudos lutavam pela posse da terra, o
problema da terra no Contestado aparece nitidamente. Um ofi-
cial do Exército, que mais tarde morreria na guerra insana mo-
vida contra os habitantes do Contestado, capitão Matos Costa,
perceberia com grande lucidez a essência da luta que aí se tra-
vava, afirmando com todas as letras: "A revolta do Contestado
é apenas uma insurreição de camponeses espoliados nas suas
terras, nos seus direitos e na sua segurança"