FACÓ, Rui. Cangaceiros e Fanaticos
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FACÓ, Rui. Cangaceiros e Fanaticos


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exército... "

3
. Mais tarde, contratado pelo Governo para com-

bater a Coluna Prestes, o coronel Franklin "num abrir e fechar
de olhos mobiliza oitocentos homens"

4
.

Num conflito político irrompido no interior da Bahia, na
segunda década do século atual, entre os coronéis Militão
(Rodrigues Coelho) e Horácio de Matos, estes e seus respec-
tivos aliados (inclusive Franklin e Douca Medrado) enfren-

1
 Oliveira Viana, Instituições políticas brasileiras, Rio, 1949, pág. 223.

2
 Wilson Lins, O médio São Francisco, Salvador, 1952, pág. 90.

3
 Idem, pág. 83.

4
 Idem, pág. 96.

60

tam-se durante cinco meses com "mais de 600 homens"
5
. É

uma luta que abrange vários municípios, cidades e vilas, desde
Pilão Arcado e Barra do Mendes até Lagoa, Morro do Chapéu,
Sanharó, São Tomé e Catuaba.

Outras vezes, os coronéis ferrenhos antagonistas de on-
tem, se aliavam numa mesma frente de batalha, como quando
se tratou de combater a Coluna Prestes ou enfrentar o movi-
mento revolucionário de 30. Aí, os interesses de classe preva-
lecem sobre as rixas locais.

Nessa "briga de brancos" o Governo não se metia. Os as-
suntos se decidiam entre eles mesmos, pelo seus métodos cos-
tumeiros, eliminando-se mutuamente os adversários. Quando,
alguma vez, a autoridade estadual intervém, é para obter um
arranjo político, respeitando-lhes em absoluto o poderio ar-
mado. Assim, por exemplo, numa disputa havida nas Lavras
Diamantinas, em 1919/1920, o coronel Horácio de Matos, do-
no de vastos garimpos, mobiliza uns mil homens, ocupando a
cidade de Lençóis. A polícia não se intromete. A autoridade
suprema é Horácio de Matos.

Na mesma época, outros coronéis, entre eles Anfilófio
(Castelo Branco), "chefe" de Remanso, ameaçam ocupar a ci-
dade de Juazeiro (Bahia) com mais de 1 000 homens. Marcio-
nílio (Sousa) movimenta-se em direção à cidade de Nazaré
com mais de 500 capangas seus, enquanto Franklin Albuquer-
que não teria menos forças à sua disposição. O Governo do
Estado intervém, mas para apaziguar os ânimos e alcançar um
modus vivendi entre os potentados locais. Faz-se o acordo,
mas os chefetes não são desarmados nem seus contingentes de
"cabras" desmobilizados. Mantêm intatos seus arsenais, mes-
mo depois de ter sido decretada a intervenção federal na Ba-
hia. Ao emissário do Governo federal, Horácio de Matos im-
põe condições para a "pacificação" na zona. Entre outras (tex-
tual): "O coronel Horácio de Matos não entregará as armas
nem as munições..." E ainda se atribui um prêmio político:
"Serão reservadas duas vagas de deputado estadual e uma de

5
 Américo Chagas, O chefe Horácio de Matos. São Paulo, 1961, pág.

64.

61

deputado federal para o coronel Horácio de Matos eleger
(sic!) seus candidatos"

6
.

O escândalo não terminaria aí. Em março de 1920, Ho-
rácio de Matos é nomeado pelo Governo do Estado para o car-
go de delegado regional de polícia na zona da Bahia que cons-
titui seu tradicional feudo, compreendendo nada menos de 12
municípios! Desde Lavras Diamantinas até o São Francisco é
ele senhor absoluto.

Outro famanado coronel do Nordeste, José Pereira, con-
siderado antes de 30 o maior chefe de jagunços de todo o ser-
tão, chega a concentrar em suas fazendas uma força de milha-
res de homens. Princesa, seu reduto político, transformara-se
numa fortaleza inexpugnável às forças comuns de polícia. E
diante de seus muros defensivos vacilavam as próprias tropas
regulares.

Aí está o capanga e sua sede \u2014 a grande propriedade ter-
ritorial; o seu comando: o chefete local, o coronel fazendeiro
ou o dono de garimpos.

Esses exércitos mobilizados a serviço dos coronéis do in-
terior não são de cangaceiros, são de capangas ou cabras. Ho-
mens a soldo, pistoleiros, matadores profissionais. Não im-
porta que no intervalo entre um assalto à propriedade do vi-
zinho e a execução de um crime de morte de algum desafeto
do coronel, o capanga esteja vaquejando o gado ou plantando
um roçado. Fazia-o comumente. Sua dependência econômica e
social em relação ao grande proprietário, o avassalamento da
economia seminatural, a falta de terras para a pequena propri-
edade, tornavam-no um semi-servo que deveria obedecer, sem
discutir, as ordens do patrão, cumprir todas as suas vontades,
executar os crimes mais hediondos por ele ordenados.

Esse assalariado do crime podia tornar-se amanhã um
cangaceiro, ingressar num bando para praticar assaltos a fa-
zendas, pilhagem de armazéns de víveres, aprisionar ricos pro-
prietários e exigir-lhes resgates. Mas esse bando é composto
de homens que conquistaram autonomia, ainda que relativa,
em face do latifúndio. O cangaceiro não é um assalariado

6
 Idem, pág. 104.

62

para a prática de crimes. Pratica-os por sua conta e risco. Mas
o que o distingue sobretudo é ser um rebelde contra a ordem
dominante que esmaga os pobres do campo. Ele não se subme-
te aos trabalhos forçados da fazenda ou do engenho.

Quanto à origem social, o capanga e o cangaceiro não se
distinguem. São homens de ascendência humilde, em geral
trabalhadores rurais oprimidos, direta ou indiretamente, pelo
latifúndio semifeudal, sofrendo-lhe o peso das injustiças so-
ciais. Facilmente pode transformar-se um no outro. É maior
o número de capangas que se tornam cangaceiros, do que
cangaceiros que se tornam capangas. Mas tanto um como o
outro pertencem às camadas mais pobres da população e não
existe uma barreira infranqueável entre eles. A transição é
fácil.

O exemplar mais famoso entre os cangaceiros é Virguli-
no Ferreira da Silva, Lampião, descendente de uma morigera-
da família de pequenos criadores e cultivadores do município
de Serra Talhada, Estado de Pernambuco. A exemplo do que
aconteceu com o Conselheiro, com Antônio Silvino e tantos
outros, famílias poderosas locais, os Nogueiras e Saturninos,
perseguem a sua família. Um dia, matam-lhe uma cabra. Os
irmãos Ferreira vingam-se, assassinando um desafeto. Para es-
capar às malhas de uma justiça que será contra eles, fogem pa-
ra o Estado vizinho de Alagoas. Aí mesmo, em 1918 ou 1919
o velho Ferreira é assassinado a mando das mesmas famílias
que já o haviam perseguido em Pernambuco. Os filhos, Virgu-
lino, Antônio, Ezequiel e Livino, \u2014 que morreriam todos em
combate com a polícia \u2014 ingressaram no cangaço, juntando-
se Virgulino ao bando de Sebastião Pereira, Sinhô, então, dos
cangaceiros mais famosos do Nordeste. Seu objetivo confesso
é vingar a morte do pai. Este motivo aparente, no entanto, tem
a função de gota de água que faz transbordar o copo.

Aí começa a peregrinação de vinte anos daquele que seria
depois conhecido como o Rei do Cangaço e Governador do
Sertão. Vinte anos de assassínios, de assaltos a propriedades
de grandes fazendeiros, de ataques a povoados, vilas e até ci-
dades, inclusive a audaciosa e malograda tentativa de dominar
a segunda cidade do Rio Grande do Norte, Moçoró, bem pró-
xima ao literal e junto à via férrea, no ano de 1927, e a tomada

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das cidades de Sousa, na Paraíba, e Limoeiro, no Ceará.
Que espécie de homens compunham o bando? São todos,

invariavelmente, gente da mais pobre do interior do Brasil,
homens do campo que não têm terra, não podem ter gado, não
têm sequer trabalho garantido, Xavier de Oliveira diz que fa-
ziam parte do grupo de Lampião "antigos trabalhadores de
obras federais que haviam sido suspensas"

7
. Quer dizer, havi-

am-se engajado nas chamadas obras contra as secas durante
uma das calamidades periódicas. Chegadas as chuvas, no ano
seguinte, em geral as obras não prosseguiam, pois tinham mais
por finalidade