FACÓ, Rui. Cangaceiros e Fanaticos
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FACÓ, Rui. Cangaceiros e Fanaticos


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da Cunha, estudioso honesto da realidade

brasileira, mas com profundos preconceitos e falsas concep-
ções estreitamente antropológicas e geográficas, não perce-
beu a essência da luta dos habitantes de Canudos, vendo uni-
camente seu fundo religioso, de fanatismo, não se justifica que
este ponto de vista errôneo prevaleça na historiografia do
Brasil.

Assim é, no entanto.
Escrevendo em começos da década de 30, Pandiá Caló-

geras repetia que Canudos fora um simples "reduto de fanáti-
cos". "Fanatismo sertanejo" é como se intitula um dos capí-
tulos de sua obra Formação Histórica do Brasil.

E a lenda continua repetida para as novas gerações pe-
los historiadores dos nossos dias. O Sr. Pedro Calmon, num
insulto aos bravos sertanejos, escreve que em Canudos "esta-
va concentrada a ralé celerada dos sertões"

1
. Em sua História

da Civilização Brasileira insiste em que a campanha de Canu-
dos foi apenas "um conflito de fundo religioso, produzido pela
barbárie sertaneja"

2
.

E é isto, nem mais nem menos, o que ainda hoje encon-
tramos nos compêndios destinados à juventude das escolas. É a
explicação mais cômoda. Recusam-se os nossos historiadores a
ver na resistência maravilhosa de Canudos uma expressão da
rebeldia sertaneja à prepotência dos latifundiários, reflexo de
uma luta de classes em sua fase superior \u2014 a luta armada.

1
 História social do Brasil, t. 3, 2.ª ed., s/d., pág. 68.

2
 4.ª ed., 1940, pág. 345.

76

1

Brasil,

Fim do Século XIX
A GRANDE CONCENTRAÇÃO DE POBRES

do campo que de novembro de 1896 a outubro de 1897 susten-
tou nos sertões da Bahia a grande luta armada conhecida sob a
denominação de Guerra de Canudos, começou a formar-se na-
quele aldeamento em 1893. Constituiu-se sobre os escombros
de uma velha fazenda em ruínas, como deveriam ser à época
muitas outras pelo vasto interior do Brasil, particularmente no
Nordeste.

Havia cinco anos fora abolida a escravatura negra e qua-
tro de proclamada a República quando chegou a Canudos a
gente do Conselheiro. Mas aquelas mudanças na fisionomia
política do País, impostas embora por certas modificações na
estrutura econômica, em nada melhoraram a sorte dos traba-
lhadores e muito menos da grande massa do campo submetida
pelos senhores latifundiários.

Mantinha-se intata a grande propriedade territorial semi-
feudal. Tanto o escravo de ontem como os agregados, os mo-

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radores, os foreiros, os chamados trabalhadores livres, não
passavam de semi-servos do latifundiário.

Com a derrubada da Monarquia, em 1889, na República
partilhavam do poder do Estado os latifundiários e a burgue-
sia, ambos se temendo mutuamente. Os primeiros, depois de
perderem a escravaria, receavam perder os feudos; os segun-
dos, sonhando com empreendimentos industriais, ferroviários,
modernização da agricultura, necessitavam de braços livres,
mas temiam liquidar o regime latifundiário.

A especulação bolsista em larga escala \u2014 o "encilha-
mento" \u2014 foi o pacto que os uniu, o seu modus vivendi tem-
porário. Sociedades comerciais, bancárias, industriais, ferro-
viárias multiplicaram-se da noite para o dia. O governo repu-
blicano provisório emitia vagas sobre vagas de papel-moeda
na maior inflação monetária de toda a história do País até en-
tão. O volume do papel-moeda em circulação duplicou em
menos de um ano do novo regime. E surgiram projetos fabu-
losos para a época. Propunham construir 20 mil quilômetros
de estradas de ferro apenas com as concessões outorgadas em
1890, triplicando assim a rede ferroviária nacional. O governo
assegurava juros elevados aos construtores. Somente no ano
seguinte à Proclamação da República, fundaram-se no Rio de
Janeiro 33 bancos e 241 empresas com finalidades diversas.

Acumularam-se fortunas fáceis da noite para o dia.
A queda do marechal Deodoro e a subida ao poder do

marechal Floriano Peixoto coincidiu com um chamado à rea-
lidade: a débâcle vertiginosa dos negócios privados e o agra-
vamento da situação econômica e financeira do País. A que-
bra da Bolsa foi fragorosa. Ações cotadas num dia a 800 mil-
réis eram vendidas no dia seguinte a 160. Títulos de muitos
bancos nem sequer encontravam compradores. Sociedades
comerciais, agrícolas, industriais desfaziam-se como bolhas
de sabão.

Além disso, a guerra civil que lavrou em vários Estados
de 1893 a 1895 agravou ainda mais a situação. Exigiu novas
emissões de papel-moeda. E o peso das dificuldades crescen-
tes vinha recair sobre os ombros do povo, rebaixando ainda
mais o já ínfimo nível de vida das massas trabalhadoras. Se de
1888 a 1890 os preços dos gêneros alimentícios haviam subido

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vertiginosamente em 62%, de 1891 a 1894 se elevaram em
118%. E continuaram em ascensão durante a guerra civil.

Encontrava pela frente a barreira do latifúndio a nova
tentativa da burguesia brasileira (a segunda, pela sua impor-
tância, depois de Mauá) de tomar impulso e lançar-se a em-
preendimentos tipicamente burgueses, resumidos no "encilha-
mento", geralmente encarado, de maneira errônea, como sim-
ples especulação.

Ocorria precisamente que a débil e retardatária burguesia
brasileira, premida de um lado pelos empréstimos da Ingla-
terra e, de outro, pelo latifúndio semifeudal que não se atre-
vera a derrocar, via-se condenada à impotência. Mais uma vez
predominava, vitorioso, o latifúndio, esmagando toda velei-
dade de radicalismo burguês.

Que restaria, senão a "renúncia" aos ideais "republicanos
históricos", e como resultado inevitável o compromisso aberto
com os restos feudais? "O País varrera de si os dogmas france-
ses... Submerge a República teórica, que não fora exeqüível, e
se impõe a República que podemos ter" \u2014 reconhece um his-
toriador objetivo, sem dar, no entanto, o nome aos bois

1
. De-

ve-se acrescentar que essa "República que podemos ter" era a
do compromisso feudal-burguês, com evidente predominância
dos latifundiários, depois de Floriano Peixoto \u2014 a última ten-
tativa séria e malograda para levar avante as mais radicais as-
pirações burguesas.

Este fracasso custaria caro ao povo. Sobre as massas
camponesas iria recair o peso principal dás dificuldades. Eram
aquelas massas a grande força produtora. E uma vez que até
bem pouco a produção agropecuária em algumas regiões (na-
quelas onde predominava antes o trabalho escravo) estava
completamente desorganizada, muitas fazendas em ruínas, cul-
turas abandonadas, carregavam os camponeses pobres o fardo
mais pesado da atração dos negócios para as grandes cidades e
a subseqüente débâcle, resultante da fraqueza da burguesia
brasileira.

As fazendas do Nordeste se despovoavam. Escasseavam
os cereais, em que os Estados nordestinos tinham baseada sua

1
 P. Calmon, História social do Brasil, t. 3, 2." ed., pág. 88.

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frágil economia, além do açúcar. A importação de milho do
estrangeiro passou de 60 mil a quase 1 milhão de sacos entre
1891 e 1895. O preço desse produto subia de 5 para 17 mil-
réis. A importação do arroz atingia 1 milhão de sacos no mes-
mo período e aumentavam em igual medida as compras de fei-
jão no exterior. Enquanto isso, reduzia-se drasticamente a ex-
portação do açúcar na década de 1890, caindo de 30% com-
parativamente à década anterior.

Em conseqüência da emigração de camponeses pobres do
Nordeste para o Sul e para a Amazônia, onde avultava a cul-
tura da borracha, estados como o Ceará, que sempre havia
produzido cereais para a sua subsistência, atravessavam gran-
de escassez. Basta dizer-se que do meio para o fim do século a
contribuição dos Estados nordestinos na exportação nacional
cai de 31,87%