FACÓ, Rui. Cangaceiros e Fanaticos
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FACÓ, Rui. Cangaceiros e Fanaticos


DisciplinaHistória e Historiografia551 materiais4.430 seguidores
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da Cunha, estudioso honesto da realidade 
brasileira, mas com profundos preconceitos e falsas concep-
ções estreitamente antropológicas e geográficas, não perce-
beu a essência da luta dos habitantes de Canudos, vendo uni-
camente seu fundo religioso, de fanatismo, não se justifica que 
este ponto de vista errôneo prevaleça na historiografia do 
Brasil. 
Assim é, no entanto. 
Escrevendo em começos da década de 30, Pandiá Caló-
geras repetia que Canudos fora um simples "reduto de fanáti-
cos". "Fanatismo sertanejo" é como se intitula um dos capí-
tulos de sua obra Formação Histórica do Brasil. 
E a lenda continua repetida para as novas gerações pe-
los historiadores dos nossos dias. O Sr. Pedro Calmon, num 
insulto aos bravos sertanejos, escreve que em Canudos "esta-
va concentrada a ralé celerada dos sertões"
1
. Em sua História 
da Civilização Brasileira insiste em que a campanha de Canu-
dos foi apenas "um conflito de fundo religioso, produzido pela 
barbárie sertaneja"
2
. 
E é isto, nem mais nem menos, o que ainda hoje encon-
tramos nos compêndios destinados à juventude das escolas. É a 
explicação mais cômoda. Recusam-se os nossos historiadores a 
ver na resistência maravilhosa de Canudos uma expressão da 
rebeldia sertaneja à prepotência dos latifundiários, reflexo de 
uma luta de classes em sua fase superior \u2014 a luta armada.
 
1
 História social do Brasil, t. 3, 2.ª ed., s/d., pág. 68. 
2
 4.ª ed., 1940, pág. 345. 
 
76 
 
 
1 
 
 
 
 
Brasil, 
Fim do Século XIX 
 
 
 
 
 
 
 
 
A GRANDE CONCENTRAÇÃO DE POBRES 
do campo que de novembro de 1896 a outubro de 1897 susten-
tou nos sertões da Bahia a grande luta armada conhecida sob a 
denominação de Guerra de Canudos, começou a formar-se na-
quele aldeamento em 1893. Constituiu-se sobre os escombros 
de uma velha fazenda em ruínas, como deveriam ser à época 
muitas outras pelo vasto interior do Brasil, particularmente no 
Nordeste. 
Havia cinco anos fora abolida a escravatura negra e qua-
tro de proclamada a República quando chegou a Canudos a 
gente do Conselheiro. Mas aquelas mudanças na fisionomia 
política do País, impostas embora por certas modificações na 
estrutura econômica, em nada melhoraram a sorte dos traba-
lhadores e muito menos da grande massa do campo submetida 
pelos senhores latifundiários. 
Mantinha-se intata a grande propriedade territorial semi-
feudal. Tanto o escravo de ontem como os agregados, os mo-
77 
radores, os foreiros, os chamados trabalhadores livres, não 
passavam de semi-servos do latifundiário. 
Com a derrubada da Monarquia, em 1889, na República 
partilhavam do poder do Estado os latifundiários e a burgue-
sia, ambos se temendo mutuamente. Os primeiros, depois de 
perderem a escravaria, receavam perder os feudos; os segun-
dos, sonhando com empreendimentos industriais, ferroviários, 
modernização da agricultura, necessitavam de braços livres, 
mas temiam liquidar o regime latifundiário. 
A especulação bolsista em larga escala \u2014 o "encilha-
mento" \u2014 foi o pacto que os uniu, o seu modus vivendi tem-
porário. Sociedades comerciais, bancárias, industriais, ferro-
viárias multiplicaram-se da noite para o dia. O governo repu-
blicano provisório emitia vagas sobre vagas de papel-moeda 
na maior inflação monetária de toda a história do País até en-
tão. O volume do papel-moeda em circulação duplicou em 
menos de um ano do novo regime. E surgiram projetos fabu-
losos para a época. Propunham construir 20 mil quilômetros 
de estradas de ferro apenas com as concessões outorgadas em 
1890, triplicando assim a rede ferroviária nacional. O governo 
assegurava juros elevados aos construtores. Somente no ano 
seguinte à Proclamação da República, fundaram-se no Rio de 
Janeiro 33 bancos e 241 empresas com finalidades diversas. 
Acumularam-se fortunas fáceis da noite para o dia. 
A queda do marechal Deodoro e a subida ao poder do 
marechal Floriano Peixoto coincidiu com um chamado à rea-
lidade: a débâcle vertiginosa dos negócios privados e o agra-
vamento da situação econômica e financeira do País. A que-
bra da Bolsa foi fragorosa. Ações cotadas num dia a 800 mil-
réis eram vendidas no dia seguinte a 160. Títulos de muitos 
bancos nem sequer encontravam compradores. Sociedades 
comerciais, agrícolas, industriais desfaziam-se como bolhas 
de sabão. 
Além disso, a guerra civil que lavrou em vários Estados 
de 1893 a 1895 agravou ainda mais a situação. Exigiu novas 
emissões de papel-moeda. E o peso das dificuldades crescen-
tes vinha recair sobre os ombros do povo, rebaixando ainda 
mais o já ínfimo nível de vida das massas trabalhadoras. Se de 
1888 a 1890 os preços dos gêneros alimentícios haviam subido 
78 
vertiginosamente em 62%, de 1891 a 1894 se elevaram em 
118%. E continuaram em ascensão durante a guerra civil. 
Encontrava pela frente a barreira do latifúndio a nova 
tentativa da burguesia brasileira (a segunda, pela sua impor-
tância, depois de Mauá) de tomar impulso e lançar-se a em-
preendimentos tipicamente burgueses, resumidos no "encilha-
mento", geralmente encarado, de maneira errônea, como sim-
ples especulação. 
Ocorria precisamente que a débil e retardatária burguesia 
brasileira, premida de um lado pelos empréstimos da Ingla-
terra e, de outro, pelo latifúndio semifeudal que não se atre-
vera a derrocar, via-se condenada à impotência. Mais uma vez 
predominava, vitorioso, o latifúndio, esmagando toda velei-
dade de radicalismo burguês. 
Que restaria, senão a "renúncia" aos ideais "republicanos 
históricos", e como resultado inevitável o compromisso aberto 
com os restos feudais? "O País varrera de si os dogmas france-
ses... Submerge a República teórica, que não fora exeqüível, e 
se impõe a República que podemos ter" \u2014 reconhece um his-
toriador objetivo, sem dar, no entanto, o nome aos bois
1
. De-
ve-se acrescentar que essa "República que podemos ter" era a 
do compromisso feudal-burguês, com evidente predominância 
dos latifundiários, depois de Floriano Peixoto \u2014 a última ten-
tativa séria e malograda para levar avante as mais radicais as-
pirações burguesas. 
Este fracasso custaria caro ao povo. Sobre as massas 
camponesas iria recair o peso principal dás dificuldades. Eram 
aquelas massas a grande força produtora. E uma vez que até 
bem pouco a produção agropecuária em algumas regiões (na-
quelas onde predominava antes o trabalho escravo) estava 
completamente desorganizada, muitas fazendas em ruínas, cul-
turas abandonadas, carregavam os camponeses pobres o fardo 
mais pesado da atração dos negócios para as grandes cidades e 
a subseqüente débâcle, resultante da fraqueza da burguesia 
brasileira. 
As fazendas do Nordeste se despovoavam. Escasseavam 
os cereais, em que os Estados nordestinos tinham baseada sua 
 
1
 P. Calmon, História social do Brasil, t. 3, 2." ed., pág. 88. 
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frágil economia, além do açúcar. A importação de milho do 
estrangeiro passou de 60 mil a quase 1 milhão de sacos entre 
1891 e 1895. O preço desse produto subia de 5 para 17 mil-
réis. A importação do arroz atingia 1 milhão de sacos no mes-
mo período e aumentavam em igual medida as compras de fei-
jão no exterior. Enquanto isso, reduzia-se drasticamente a ex-
portação do açúcar na década de 1890, caindo de 30% com-
parativamente à década anterior. 
Em conseqüência da emigração de camponeses pobres do 
Nordeste para o Sul e para a Amazônia, onde avultava a cul-
tura da borracha, estados como o Ceará, que sempre havia 
produzido cereais para a sua subsistência, atravessavam gran-
de escassez. Basta dizer-se que do meio para o fim do século a 
contribuição dos Estados nordestinos na exportação nacional 
cai de 31,87%