FACÓ, Rui. Cangaceiros e Fanaticos
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FACÓ, Rui. Cangaceiros e Fanaticos


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para pouco mais de 13%. Em particular a cota 
de exportação que cabe ao Estado da Bahia \u2014 onde teria lugar 
a conflagração dos semi-servos \u2014 desde de 14,3% em 1857 
para 5,06% em 1897
2
. 
Em 1896, o principal produto da exportação do Brasil, o 
café, base de toda a vida econômica nacional, entra pela pri-
meira vez em crise de superprodução. Os preços caem vio-
lentamente, acumulam-se os estoques invendáveis. 
Abala-se toda economia nacional, essa mísera economia 
colonial e semifeudal. A crise do café cortava de chofre a cor-
rente migratória do Nordeste para o Sul, já sensivelmente pre-
judicada pela crescente entrada de trabalhadores livres pro-
cedentes da Europa. O afluxo de imigrantes estrangeiros, qua-
se nulo na década de 70 do século XIX (menos de 50 mil imi-
grantes numa década inteira), elevava-se a mais de 260 mil no 
decênio seguinte e atinge 650 mil na década de 90. Constitui, 
por si só, um peso considerável na vida econômica do País cu-
ja população não passava então de 15 milhões de habitantes. 
Este notável reforço de braços livres refletia-se profun-
damente na economia nacional, como já influíra na própria 
Abolição da Escravatura em 1888. Vinha ameaçar agora a cor-
 
2
 Boletim comemorativo da exposição nacional de 1908, Rio, 1908, pág. 
109. 
80 
rente migratória do Nordeste para o Sul. No último decênio do 
século XIX, quando ocorre a crise do café, os trabalhadores 
que abandonavam as fazendas arruinadas do Nordeste já não 
podiam mais tão livremente demandar os cafezais de São Pau-
lo e Estado do Rio. 
E em 1896, ano em que se inicia a luta. armada nos ser-
tões da Bahia, o Jornal do Comércio do Rio traduzia a incer-
teza das classes dominantes diante do futu
r
o e em face da pró-
pria realidade presente. Falava em "calamidade pública", não 
podendo ocultar que a situação se agravava constantemente. 
Escrevia: "E este País sem produção suficiente de gêneros de 
primeira necessidade para a alimentação pública, precisando 
importá-los do estrangeiro, com direitos quase proibitivos, é o 
mesmo que dizer fome! fome! E quando a fome for tocando a 
todos, tarde serão os clamores \u2014 teremos o horror e as tragé-
dias de todas as espécies". Concluía patético: "É preciso que o 
governo se lembre de que a fome é cega e suas terríveis con-
seqüências poderão ir até o desconhecido". 
Situação particularmente grave, atingindo o setor mais 
numeroso da população, as massas campesinas pobres eram 
ignoradas e silenciadas. O trabalhador do campo no Brasil fora 
sempre considerado pelos grandes fazendeiros e seus porta-
vozes como simples escravo ou servo, geralmente equiparado 
aos animais de carga, como o fazia ainda em 1887 um agrô-
nomo baiano defendendo tese em Salvador. Opinava ele que 
"a moléstia dos operários [trabalhadores rurais] e dos animais, 
etc, são obstáculo de pouca importância para uma propriedade 
bem dirigida"
3
. 
E não só as moléstias, também a fome e a penúria de tudo 
na vida do trabalhador do campo eram em geral consideradas 
coisa normal, tanto pelos grandes fazendeiros como por seus 
representantes no Governo, no Parlamento, na imprensa, nas 
escolas. Discutia-se tudo a respeito da terra: questões ligadas 
aos métodos de cultivo, se os melhores animais de tração eram 
os bois ou os cavalos, a conveniência da pequena ou da grande 
propriedade territorial, adubos. Só não se via a mola mestra de 
 
3
 Cristóvão Campos, Capital rodante da propriedade agrícola, tese à 
Imperial Escola de Agronomia da Bahia, 1887. 
81 
toda a vida econômica do País então: o trabalhador rural, o 
camponês sem terra. Era como se se tratasse de um elemento 
tão "natural" como a própria terra, fazendo parte dela como o 
humo. 
O que interessava era manter o latifúndio, os privilégios 
odiosos do latifundiário. 
Já em 1861, no Congresso, José Bonifácio condenava 
acerbamente a pequena propriedade territorial e não ocultava 
os verdadeiros motivos por que o fazia. "A agricultura em nos-
so País \u2014 dizia \u2014 tem direito à sua atenção: não é com pe-
quenos proprietários que Sua Excelência [o ministro da Agri-
cultura] há de dar trabalhadores aos fazendeiros do Brasil. E 
uma das grandes garantias da ordem nesta terra é a proprieda-
de territorial"
4
. 
A "agricultura", portanto, era o latifúndio, a exploração 
semifeudal, a opressão sem limites da massa campesina des-
possuída. "Propriedade territorial" era a grande propriedade, 
e esta só seria garantia da ordem enquanto significasse o mo-
nopólio da terra por uma minoria. A "ordem" era o predomí-
nio absoluto dos latifundiários, cuja sobrevivência como 
classe estava condicionada à existência da grande massa dos 
sem-terra. 
Causava horror às classes dominantes qualquer tentativa 
de quebrar o sagrado monopólio da terra. E mais ainda, é cla-
ro, qualquer movimento armado no campo, espinha dorsal da 
vida econômica do País. Admitir que se batiam os pobres do 
campo contra a opressão feudal, era admitir que tinham o di-
reito de fazê-lo. Precisavam ocultar as verdadeiras causas das 
lutas que surgiam no campo, esconder seus reais objetivos. 
Procuraram sempre, através de toda a história do Brasil, des-
virtuar essas lutas no nascedouro, apresentando-as como sim-
ples atos de banditismo. Esmagavam-nas de um golpe ou tra-
tavam de desalojar os combatentes, dispersá-los, para defor-
mar o sentido inicial da luta e o motivo determinante, e trans-
formar os insurgentes em reles bandoleiros, condenando-os ao 
papel de salteadores, sem apoio firme entre as populações ru-
 
4
 Discursos parlamentares. Rio, 1880, pág. 99. 
82 
rais às quais estavam ligados mais diretamente e onde cons-
tituíam uma ameaça à grande propriedade territorial. 
Mas, enfrentar um baluarte fixo em pleno sertão, cercado 
pela simpatia e o apoio ativo das populações rurais como foi 
Canudos, era uma situação nova para as classes dominantes. 
Por isso, quando rebentou a luta armada dos habitantes de 
Canudos, fazendeiros, Governo, toda a imprensa das classes 
dominantes, republicana ou restauradora, mostraram-se mais 
que surpresos \u2014 alarmados. 
Para tirar-lhe a importância social, caracterizaram-na 
desde logo como um surto de banditismo ou fanatismo reli-
gioso, e nada mais. 
Para melhor combatê-la e obter neste combate o apoio do 
povo, faziam crer também que era um movimento anti-re-
publicano pela restauração da monarquia. Porque monarquia 
significava escravidão, atraso, obscurecimento, o que devia ser 
degradamento para o povo, contra aspirações populares de li-
berdade e progresso. 
Ante o fenômeno Canudos, os senhores das classes domi-
nantes e seus porta-vozes recusavam-se a acreditar na reali-
dade: milhares de párias do campo armados em defesa da pró-
pria sobrevivência, em luta, ainda que espontânea, não consci-
ente, contra a monstruosa e secular opressão latifundiária e 
semifeudal, violando abertamente o mais sagrado da todos os 
privilégios secularmente estabelecidos desde os começos da 
colonização européia no Brasil \u2014 o monopólio da terra nas 
mãos de uma minoria a explorar a imensa maioria. Era este o 
mais nefando dos crimes contra a ordem dominante... 
 
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2 
 
 
 
 
A República 
e os Impostos 
 
 
 
 
 
 
DURANTE OS VINTE ANOS EM QUE 
o Conselheiro perambulou pelos sertões do Nordeste, tor-
nando-se famoso em publicações fora da área nordestina, na 
própria capital da República, enquanto um historiador da lite-
ratura brasileira, já em 1888, reproduzia trovas do cancio-
neiro popular de Sergipe dedicadas a Antônio Conselheiro
1 
nunca se cogitou de sua filiação política. Só