FACÓ, Rui. Cangaceiros e Fanaticos
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FACÓ, Rui. Cangaceiros e Fanaticos


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com velhas localidades vizinhas, como Jeremoabo e Monte
Santo.

A luta dos habitantes de Canudos, como todas as lutas
populares, forjava seus chefes. Nos primeiros encontros com
as forças governistas destacaram-se, desde cedo, os mais va-
lentes e empreendedores, os mais audazes e imaginosos chefes
de guerrilha \u2014 os comandantes.

Exercia cada um atribuições que se foram definindo no
decorrer da própria campanha. Havia chefes de operações mi-
litares, os encarregados de recrutar e preparar novos com-
batentes, os responsáveis pela vigilância em torno de Canudos,
os incumbidos da administração e do policiamento interno.

Todos os acessos a Canudos estavam fortemente guarda-
dos por grupos de guerrilheiros com seu respectivo chefe. As
estradas de Cocorobó e Uauá, confiadas a piquetes vigilantes.

100

As vertentes de Canabrava entregues à guarda de um dos mais
afamados adeptos de Conselheiro, Pedrão. Outro combatente
de fibra, Estêvão, era o guarda da serra do Cambaio, em cujas
gargantas seria destroçada e posta em fuga a 2.

a
 expedição de

tropas governistas, comandada pelo major Febrônio de Brito,
em janeiro de 1897. No Angico, por onde passava outra via de
comunicação, encontrava-se um grupo de guerrilheiros chefia-
dos por Joaquim Tranca-Pés.

Além destes chefes de grupos, eram conhecidos por to-
dos, em Canudos como nas redondezas, os mais afamados ad-
juntos do Conselheiro. Havia um aliciador de combatentes \u2014
Antônio Fogueteiro. De vital importância para a defesa de Ca-
nudos era saber o que ocorria em suas vizinhanças, de forma
que os sertanejos jamais fossem surpreendidos. Uma coluna
volante de exploradores batia constantemente os arredores de
Canudos. Seu organizador era Chico Ema. O policiamento
interno da cidade, cada vez mais rigoroso, ficava a cargo de
outro homem de imediata confiança de Conselheiro: Antônio
Beato, uma espécie de chefe de polícia que tudo investigava,
"observando, insinuando-se jeitosamente pelas casas, es-
quadrinhando todos os recantos do arraial"

17
. Euclides da Cu-

nha atribui a Manuel Quadrado
18

 as funções de curandeiro dos
habitantes de Canudos, que certamente possuíam não apenas
um, mas vários curandeiros, sabendo-se do estado sanitário ra-
zoável que sempre existiu em Canudos mesmo sob o cerco
completo do inimigo e canhoneios diários.

Diante de tão minuciosa distribuição de responsabilidade,
é evidente que devia existir um comando militar centralizado.
Do contrário, não seria possível uma tão perfeita coordenação
e disposição de forças nos pontos decisivos e nos momentos
decisivos da luta.

A quem estaria confiado esse comando-em-chefe das
operações?

Em Canudos, os recém-chegados eram recebidos por Jo-
ão Abade, conhecido pela denominação de "comandante de
rua". João Abade exercia "absoluto domínio, que estendia pela

17

 Os Sertões, pág. 202
18

 Idem, pág. 310.

101

redondeza, num raio de cinco léguas em volta, percorrida con-
tinuamente pelas rondas velozes dos piquetes. Obedeciam-no
incondicionalmente"

18
. Ninguém entrava em Canudos sem co-

nhecimento de Abade, mesmo nos períodos de calma que me-
deavam entre uma e outra expedição governista. O tenente
Macedo Soares confirma Euclides da Cunha quando escreve
que João Abade era "o general das coortes fanáticas"

19
.

Mas a chefia das operações militares em campo, tudo in-
dica, estava a cargo durante o período decisivo da luta, desse
belo tipo de guerrilheiro que é Pajeú.

A figura de Pajeú se destaca desde os primeiros choques
armados. É ele o homem que empreende a perseguição auda-
ciosa à derrotada 2.

a
 expedição do major Febrônio de Brito.

Batida às portas de Canudos, junto à serra do Cambaio mas
sem conseguir atingir a cidadela sertaneja, a tropa de Febrô-
nio, num total de 550 homens bem armados e municionados,
se vê flanqueada pelos guerrilheiros de Pajeú. Investem contra
ela não só com o objetivo de eliminar soldados, mas também
arrebatar-lhe armas e munições, como de fato aconteceu. Em
Bendengó de Baixo, seis léguas de Canudos, Pajeú ordena a
investida final \u2014 é contra os canhões. O derrotado major seria
obrigado mais tarde a dar seu testemunho de bravura e cora-
gem desses homens, dizendo: "Nunca vimos, eu e meus cama-
radas, tanta ferocidade! Vinham morrer como panteras, dilace-
rando entranhas, agarrados às bocas das peças... Todos eles
traziam armas de fogo, bons e afiados facões, cacetes penden-
tes dos pulsos"

20
.

Quando mais tarde as tropas governistas da poderosa 3.
a

expedição marchavam sobre Canudos, conta-se que Pajeú se
comprometeu junto a seus companheiros a eliminar o tão afa-
mado general-comandante Moreira César. Conta-se também
que foi ele quem feriu de morte o chefe expedicionário.

Ao se aproximarem de Canudos as tropas da 4.
a
 expedi-

ção, em junho de 1897, mais uma vez Pajeú aparece em po-
sição que confirma sua qualidade de comandante-de-campo.

19

 Macedo Soares, ob. cit., pág. 38.
20

 O país, Rio, 1-1-1897.

102

Euclides da Cunha focaliza-o na fazenda Rosário, ao sul de
Canudos, chefiando um grupo de guerrilheiros que têm como
objetivo claro atrair a força governista para um local onde a
luta seria mais favorável aos camponeses. E assim descreve o
ardil do valente guerrilheiro:

"O inimigo [os conselheiristas] aparece outra vez. Mas
célere, fugitivo. Algum piquete que bombeava a tropa. Diri-
gia-o Pajeú. O guerrilheiro famoso visava, à primeira vista,
um reconhecimento. Mas, de fato, como o denunciaram su-
cessos, trazia objetivo mais inteligente: renovam o delírio das
descargas e um marche-marche doudo, que tanto haviam pre-
judicado a expedição anterior. Aferrou a tropa num tiroteio rá-
pido, de flanco, fugitivo, acompanhando-a velozmente por
dentro das caatingas. Desapareceu. Surgiu logo depois, adi-
ante. Caiu num arremesso vivo e fugaz sobre a vanguarda, fei-
ta nesse dia pelo 9.° de infantaria. Passou, num relance, acom-
panhado de poucos atiradores, por diante, na estrada. Não foi
possível distingui-los bem. Trocadas algumas balas, desapare-
ceram".

Novo assalto ainda comandado por Pajeú ocorreu antes
de Canudos. O autor de Os Sertões assim o descreve:

"Pajeú congregava os piquetes, que se sucediam daquele
ponto até Canudos, e viera de soslaio sobre a força. Esta, sobre
uma rampa escarpada, ficou em alvo ante os tiros por elevação
dos sertanejos, imperfeitamente distinguidos na orla do matagal,
embaixo... Duas horas depois, ao transpor o general o teso de
uma colina, o ataque recrudesceu de súbito ... O tiroteio frouxo
que até então acompanhara os expedicionários, progredira num
crescendo contínuo, à medida que se realizava a ascensão,
transmudando-se, ao cabo, no alto, numa fuzilaria furiosa.

"E desencadeou-se uma refrega desigual e cruenta.
"Não se via o inimigo, encafuado em todos os socavos,

metido dentro das trincheiras-abrigos, que minavam as encos-
tas laterais, e encoberto nas primeiras sombras da noite que
descia.

"A situação era desesperadora" [para as tropas gover-
nistas] .

Euclides da Cunha assim arremata a descrição desse feito
dos bravos de Pajeú:

103

"Triunfara-lhes o ardil. Os expedicionários, sob o estí-
mulo da ânsia perseguidora contra o antagonista disperso na
frente, em fuga, haviam imprudentemente enveredado, sem
uma exploração preparatória, pela paragem desconhecida,
acompanhando, sem o saberem, um guia ardiloso e terrível,
com que não contavam \u2014 Pajeú.

"E todos tombaram nas tocaias com aquele aprumo de
triunfadores. Mas, a breve trecho o perderam, num tumultuar
de fileiras retorcidas, quando, em réplica ao bombardeio que
tempesteava