FACÓ, Rui. Cangaceiros e Fanaticos
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FACÓ, Rui. Cangaceiros e Fanaticos


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a um lado, correu vertiginoso, de extremo e de al-
to a baixo, nas encostas, incendiando-as, um relampaguear de 
descargas terríveis e fulminantes, rompendo de centenares de 
trincheiras, explodindo debaixo do chão, como fogaça... Era 
um fuzilamento em massa"
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. 
Pajeú era o homem das grandes façanhas. Quando já se 
encontravam diante de Canudos, cercando-o totalmente, seis 
mil soldados que lutavam com uma vintena de canhões, ótimas 
metralhadoras, fuzis dos mais modernos, aos quais não escas-
seava munição, quando, enfim, já nada faltava às tropas go-
vernistas para empreender o esmagamento completo do reduto 
camponês, Pajeú realizou mais uma de suas audaciosas mano-
bras. Antes, era ele o homem que chefiava guerrilheiros em di-
fíceis posições nos arredores de Canudos, emboscando com 
sucesso as tropas e comboios inimigos que demandavam a ci-
dadela sertaneja. Agora, Canudos sob cerco, ali se travava a 
ação decisiva, estava em jogo a sorte da luta. Era aquele o seu 
lugar. 
Depois do fracasso da mais poderosa investida do adver-
sário, em 18 de junho de 97, Pajeú percebeu num relance que 
era impossível cruzar os braços e esperar a iniciativa dos siti-
antes, sobretudo quando estes não haviam conseguido o obje-
tivo que se propunham: arrebatar a vitória final num assalto 
fulminante. Aguardar as ações do inimigo não era do feitio do 
bravo guerrilheiro. Em 24 de julho Pajeú empreende um assal-
to audaciosamente arquitetado contra o ponto mais frágil da 
linha adversária que se fechava sotre Canudos e ameaçava es-
trangular num círculo de fogo a resistência camponesa. Depois 
 
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 Os sertões, págs. 396-397. 
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de um cerrado canhoneio da artilharia governista, iniciava-se 
outra ação militar, mas esta de iniciativa dos camponeses. A 
linha das tropas expedicionárias era atacada de surpresa por 
numeroso contingente de combatentes de Canudos, ao mesmo 
tempo pelo flanco e pela retaguarda. O objetivo era colocar a 
tropa entre dois fogos. No flanco direito foram assaltados mais 
uma vez os canhões, contra os quais os habitantes de Canudos 
votavam ódio de morte. 
O golpe dirigido por Pajeú era de tal magnitude que os 
três generais mandaram formar toda a tropa e se empenharam 
a fundo na defesa de suas posições. A situação, em de-
terminado momento, tornou-se realmente perigosa para a 4.ª 
expedição, que só a custo conseguiu conter a investida fulmi-
nante do adversário. 
Este ato de audácia de fins de julho custaria a vida do 
grande chefe camponês. 
É diante da figura de Pajeú na luta ativa que se reduz às 
suas verdadeiras proporções aquele que fora inicialmente o 
chefe supremo dos insurretos \u2014 Antônio Conselheiro. Perce-
be-se que ele realmente congregou os camponeses pobres, em 
certo momento deu expressão ao seu descontentamento e à sua 
revolta. Mas, durante a luta armada foi completamente suplan-
tado pelos verdadeiros líderes da sublevação de pobres do 
campo: aqueles homens rudes que não se contentavam com 
promessas de salvação e felicidade do reino dos céus, e com-
batiam de armas nas mãos, com o máximo de firmeza e heroi-
cidade, contra seus piores inimigos, os defensores dos grandes 
fazendeiros, os soldados do Governo e do latifúndio. 
A segunda expedição regular contra Canudos foi enviada 
não já pelo Governo do Estado da Bahia, mas pelo Governo 
federal, um mês depois de derrotada a primeira, em dezembro 
de 1896. Compunha-se de 557 soldados e oficiais, dispondo de 
metralhadoras Nordenfeld e dois canhões Krupp. Comandava-
o o major Febrônio de Brito. Sua sorte foi decidida rapidamen-
te. Apenas conseguiu atravessar a serra do Cambaio, em cujas 
encostas os guerrilheiros sertanejos lhe infligiram sérias bai-
xas. Logo adiante, no Tabuleirinho, seis quilômetros antes de 
Canudos, a expedição foi parcialmente envolvida e só com 
grande dificuldade conseguiu retroceder, assim mesmo em de-
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sordem, abandonando armas e munições em poder dos campo-
neses, que a perseguiam nos calcanhares. 
Mas a grande e espetacular vitória dos combatentes de 
Canudos foi o desbaratamento da 3.ª expedição, comandada 
pelo coronel Moreira César. Constituiu-se de 1.300 homens, 
uma bateria de artilharia e um esquadrão de cavalaria. A tropa 
estava fartamente municionada com 16 milhões de tiros. Dis-
punha de fuzis Mannlicher e Comblain. 
Nessa época, a tentativa de esmagar Canudos ainda era 
classificada de "ação de polícia". Mas a verdade é que os pro-
fundos sertões do Brasil jamais tinham visto semelhante apa-
rato militar para uma simples "ação de polícia". 
O homem escolhido para comandar a 3.
a
 expedição car-
regava fama de herói de várias lutas armadas, inclusive contra 
os "federalistas" do Rio Grande do Sul, por ele implacavel-
mente esmagados. A imprensa das classes dominantes criara 
em torno de seus feitos militares verdadeira legenda. 
Tudo isto se esboroou da noite para o dia. O coronel Mo-
reira César embarcou no Rio em 3 de fevereiro de 1897, rumo 
à Cidade do Salvador, e seguiu imediatamente para Canudos. 
Precisamente um mês depois, em 3 de março, tombava morto 
pelos guerrilheiros junto à cidadela sertaneja. Seu substituto 
imediato no comando da tropa, o coronel Tamarindo, teve a 
mesma sorte algumas horas mais tarde, bem como o coman-
dante da artilharia, capitão Salomão da Rocha, cujos canhões 
foram arrebatados pelos camponeses e ele próprio retalhado a 
golpes de foice. 
A 3.
a
 expedição contra Canudos seguia assim o destino 
das duas anteriores e da força de polícia que as precedera. Os 
soldados do coronel Moreira César recuavam espavoridos de-
pois da morte de seus principais comandantes. E os cam-
poneses ainda os perseguiam, tomando-lhes armas e munições, 
recolhendo os abundantes despojos abandonados na fuga pelos 
áridos caminhos do sertão. 
E se vingaram terrivelmente dos assaltantes. Decapitaram 
oficiais e soldados mortos, queimaram-lhes os corpos, alinha-
ram em seguida, à margem da estrada, as cabeças sangrentas. 
Era a resposta às atrocidades inomináveis contra 
eles praticadas. 
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Era um aviso ao adversário para que não voltasse. 
Era a convicção de que defendiam o que lhes pertencia, e 
que deviam fazê-lo a todo custo. 
O aniquilamento completo de força militar tão numerosa 
para a época e para as circunstâncias, a perda de todas as ar-
mas e munições, agora em poder dos sublevados, criou uma si-
tuação de pânico entre as classes dominantes do Brasil inteiro. 
O ministro da Guerra comunicava solene à Nação: 
"As nossas armas estão cobertas de crepe". 
E O País, o principal órgão de imprensa do Rio de então, 
passava a noticiar diariamente os acontecimentos sangrentos 
dos sertões da Bahia sob um título geral bastante expressivo 
\u2014 "A Catástrofe". 
O heroísmo individual de um Pajeú era a expressão do he-
roísmo coletivo dos combatentes de Canudos. Heroísmo que os 
levava a enfrentar impávidas forças muitos superiores, magnifi-
camente armadas, e inclusive duas dezenas de canhões, que ja-
mais tinham sido vistos em tão profundos sertões do Brasil. 
Os generais do governo estavam certos, ao iniciar-se a lu-
ta, de que o simples ribombar da artilharia determinaria a fuga 
em massa dos insurgentes. Deu-se justamente o contrário. Di-
ante da impossibilidade de enfrentar com vantagem os ca-
nhões, como podiam enfrentar a infantaria, arrebatando armas 
aos soldados, os canudenses, desde o início da luta, insistiram 
em destruir as peças. Não podendo fazê-lo com armas, procu-
ravam consegui-lo em choques corpo-a-corpo. 
A segunda expedição contra Canudos já levava dois ca-
nhões alemães \u2014 Krupp 7,5. Na travessia da serra do Cam-
baio, os guerrilheiros fizeram a primeira tentativa de acome-
tida contra a artilharia. Seus atacantes foram fulminados. Ou-
tro arremesso ocorreu