FACÓ, Rui. Cangaceiros e Fanaticos
228 pág.

FACÓ, Rui. Cangaceiros e Fanaticos


DisciplinaHistória e Historiografia551 materiais4.430 seguidores
Pré-visualização50 páginas
quando a tropa do governo se apro-
ximava da cidadela sertaneja. Utilizamos mais uma vez a viva 
descrição de Euclides da Cunha. 
"Tomara-lhe a frente um mameluco possante \u2014 rosto de 
bronze afeado pela patina das sardas \u2014 de envergadura de 
gladiador sobressaindo no tumulto. Este campeador terrível fi-
cou desconhecido à história. Perdeu-se-lhe o nome. Mas não a 
imprecação altiva que arrojou sobre a vozeria e sobre os es-
tampidos, ao saltar sobre o canhão da direita, que abarcou nos 
107 
braços musculosos, como se estrangulasse um monstro: 'Viram 
canalhas, o que é ter coragem?!' 
"A guarnição da peça recuara espavorida, enquanto ela 
rodava, arrastada a braço, presada"
22
. 
Quando finalmente os assaltantes empreenderam a fuga, 
sem ter conseguido penetrar em Canudos, tentaram mais uma 
vez os guerrilheiros, então sob o comando de Pajeú, arrebatar 
as peças ao adversário desmoralizado. 
Episódios semelhantes se reeditariam durante toda a cam-
panha. Mas, o mais impressionante ocorre quando a numerosa 
e destroçada expedição do coronel Moreira César, a 3.
a
 ex-
pedição regular, inicia a retirada. Os soldados, em completa 
desordem, praticamente sem comando, abandonam armas e 
munições pelo caminho. Somente a artilharia, 4 canhões 
Krupp e sua guarnição \u2014 mantém um simulacro de formatura 
naquela debandada geral. Os guerrilheiros aglomeram-se em 
torno da bateria e sobre ela concentram o fogo. Contidos a 
princípio pela guarda dos canhões, investem uma e outra vez. 
Conseguem finalmente imobilizá-la numa curva do caminho 
estreito. Matam os animais de tração. O comandante da arti-
lharia e seus acompanhantes são cercados e abatidos a foice. 
Os canhões, capturados e levados para Canudos. Sem meios 
de utilizá-los como armas de resistência, os camponeses dão-
lhe uma serventia razoável \u2014 transformam-no em bigornas de 
suas oficinas de fabricação e conserto de armas. 
De parte a parte, a luta era de extermínio. Desde o início 
da ofensiva contra Canudos, cada um dos contendores estava 
certo de que a vitória só seria conseguida com a destruição do 
adversário. O objetivo principal dos combatentes sertanejos 
era matar os soldados que iam atacá-los. Para isso, aguarda-
vam as expedições e seus reforços a dezenas de quilômetros de 
Canudos e perseguiam o inimigo em fuga numa distância de 
até sete léguas da cidadela camponesa. Assim aconteceu com a 
expedição Moreira César, encalçada pelos camponeses, na sua 
fuga desabalada, até a localidade de Rosário. 
"Atiradores exímios, os fanáticos [os sertanejos] só alve-
javam com a certeza de ferir; sem abusar da munição, tiroteando 
 
22
 Os sertões, pág. 276. 
108 
com método e regularidade, pouco se lhes dava a chuva de balas 
que os soldados, sem disciplina de fogo, lhes enviava" \u2014 teste-
munha um tenente da artilharia da 4.ª e última expedição
23
. 
Antes de entrar em Canudos a força expedicionária co-
mandada pelo general Savaget (a 2.ª coluna da 4." expedição 
governista) sofreu baixas pavorosas. Somente entre a serra de 
Cocorobó e Canudos, numa distância de aproximadamente du-
as léguas, suas perdas subiram a 330 homens, num total de 
2.350 soldados e oficiais. A oficialidade pagou nessa travessia 
um pesado tributo, com sete mortos e oito feridos. 
Ao mesmo tempo, a coluna do general Silva Barbosa, que 
fazia trajeto diferente, era enfrentada com igual resolução pe-
los grupos de guerrilheiros. Estes, ocultos nas matas, deram-
lhe combate desde o Angico, a duas léguas de Canudos. Ao 
chegar ao Alto da Favela, à vista de Canudos, a situação geral 
da tropa do general Artur Oscar era extremamente grave. 
Além de tudo, estava praticamente cercada, comunicações cor-
tadas, e só a inferioridade numérica e em armas dos campone-
ses pouparam-na de completo aniquilamento. 
Para ter-se uma idéia de como os sertanejos haviam ar-
remetido sobre a tropa com a finalidade de eliminar o maior nú-
mero possível de combatentes, basta dizer que, ao chegar à Fave-
la, a 4.
a
 expedição tinha sido obrigada a empenhar-se em sete 
combates, sofrendo 1 200 baixas num total de 4 300 homens!. 
Perdas igualmente alarmantes verificar-se-iam no assalto 
de 18 de julho, que o comando da 4.
a
 expedição considerava 
decisivo para esmagar de vez o reduto rebelde. Mas o feitiço 
voltou-se contra o feiticeiro. O choque dramático desse dia, 
considerado, depois em ordem do dia, como uma vitória do 
governo, fora pelo menos "uma vitória desastrosa", como a 
qualificou Euclides da Cunha. Dos 3 500 soldados e oficiais 
lançados ao ataque, mais de mil foram postos fora de combate. 
O número de oficiais mortos e feridos deixava muitas unida-
des praticamente sem comando. 
Os defensores de Canudos provariam nesse dia, se ainda 
pudesse haver alguma dúvida, que eram tão bons combatentes 
na guerra de trincheiras como nas ações de guerrilhas dentro 
 
23
 Macedo Soares, ob. cit., pág. 101. 
109 
da mataria. Enfrentaram os assaltantes com uma fuzilaria cer-
rada, "disparando tiros aproveitados numa verdadeira caçada 
de homens, na qual mostravam-se insignes"
24
. 
O resultado foi que batalhões de mais de 400 soldados c 
oficiais ficaram nesse dia reduzidos a 300, 250 e até à metade. 
Só um dos batalhões teve seis oficiais mortos e quatro feridos. 
A ala da cavalaria foi dizimada. Nesse dia, ficaram fora de 
combate ao todo 67 oficiais, sendo 27 mortos. 
Se assim acontecia em choque em que se empenhava o 
grosso da tropa, não era diversa a situação nas escaramuças e 
emboscadas armadas pelos guerrilheiros, nas quais eram estes 
que escolhiam as melhores posições, cabendo-lhes a iniciativa 
e, portanto, levando a melhor. 
Vale destacar que os sublevados jamais fizeram prisio-
neiros. Era um luxo que lhes poderia custar muito caro. Não 
tinham possibilidades de mantê-los, nem mesmo de encarcerá-
los com segurança em suas toscas choupanas de palha e barro. 
E, além disso, enfrentavam um inimigo que lhes cultivava 
ódio de morte, que arrasava suas casas, matava seu gado, rou-
bava suas plantações, assassinava friamente suas mulheres e 
filhos. 
Não era de estranhar que, em tais circunstâncias, todas as 
pessoas válidas dentro de Canudos, sobretudo na fase final da 
luta, fossem combatentes ativos, pegassem em armas ou auxi-
liassem diretamente os que o faziam. Era natural também que 
os combatentes tivessem primazia na distribuição da ração 
alimentar e da água escassa, como aconteceu nos últimos dias 
da resistência final. 
As mulheres de Canudos, principalmente, deixaram 
exemplos notáveis de bravura e firmeza inabalável diante do 
inimigo. A maior parte preferiu morrer a deixar-se aprisionar. 
E, mesmo quando prisioneiras, na miséria mais extrema, de-
monstravam tanta resolução e bravura, tanta confiança em 
seus companheiros que, em geral, eram degoladas pelos assal-
tantes de Canudos. 
O exemplo dos maiores proliferava entre adolescentes. 
Foi um jovem de 19 anos o autor de um assalto à "matadei-
 
24
 Macedo Soares, ob. cit., pág. 201. 112 
110 
ra", o canhão Withworth-32, que terríveis estragos fazia nos 
casebres de Canudos. 
Outro jovem, acompanhante das emboscadas de Pajeú, 
aprisionado depois de ferido, quando a 4.
a
 expedição marchava 
sobre o arraial sertanejo, quando, portanto, todas as informa-
ções seriam da maior importância para o comando da tropa 
governista, nada revelou num cerrado interrogatório a que o 
submeteram. 
Havia entre os insurgentes a resolução inabalável de re-
sistirem até o último homem. "E todos entre eles que podiam 
empunhar uma arma combatiam. Até os meninos auxiliavam-
nos ... "
25
. "Também mulheres