FACÓ, Rui. Cangaceiros e Fanaticos
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FACÓ, Rui. Cangaceiros e Fanaticos


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e meninos, vendo seus compa-
nheiros ou pais caindo, tomavam das armas e cegamente in-
vestiam sobre os pelotões. As mulheres uivavam de cólera, 
animando os maridos e irmãos, limpando as armas e preparan-
do-lhes a parca refeição"
26
. 
A vida dura de antes e as barbaridades contra eles per-
petradas, agora tinham forjado, em homens, mulheres e crian-
ças, uma têmpera de aço. 
Entre a derrota da 3.
a
 e a chegada da 4.
a
 expedição a 
Canudos decorreram quase quatro meses. Esse espaço de 
tempo não foi perdido pelos sublevados. Foram meses de in-
tensos preparativos para a resistência à nova investida das 
tropas do governo, sobre a qual não alimentavam nenhuma 
dúvida. 
Dotados de novas e ótimas armas arrebatadas à 3.
a
 expe-
dição, fartamente municionados, os sertanejos se aprestavam 
para enfrentar o que previam deveria ser um assalto ainda 
mais furioso a seu reduto. Era de esperar que assim aconte-
cesse. Primeiro, haviam derrotado uma força policial de 30 
homens. Em seguida, sucessivamente, forças regulares de 
uma centena, 550, 1 500 homens. Depois de simples carabi-
nas, haviam conhecido o fogo de fuzis modernos, metralha-
doras, canhões. Tinham destroçados tropas comandadas a 
princípio por um tenente, depois por um major, a seguir por 
um coronel afamado. 
 
25
 Macedo Soares, ob. cit., pág. 353. 
26
 Idem, ibidem. 
111 
Era de esperar que tivessem de enfrentar agora generais. 
Realizavam, por isso, exercícios diários de tiro, a fim de 
que todos os homens válidos pudessem manejar com perícia as 
novas armas: as Mannlicher e as Comblain, arrebatadas ao ad-
versário. 
Essa preparação intensa se justificava também por indí-
cios cada vez mais evidentes de que uma nova fase da luta se 
aproximava. Depois da fuga da 3.
8
 expedição destroçada, ex-
ploradores argutos dos sertanejos tinham sido enviados a todos 
os pontos da periferia de Canudos onde pudessem obter infor-
mações sobre o movimento das tropas inimigas. 
Pajeú foi destacado para Monte Santo, embora já não de-
vesse permanecer por ser muito conhecido. Em Monte Santo 
deixou ele um homem de sua confiança, Tiago, que se trans-
formaria em vendedor ambulante e, como tal, conseguiria in-
troduzir-se no acampamento das tropas expedicionárias, e en-
viar a Canudos informações preciosas sobre seus efetivos, ar-
mamentos, movimentação. Macambira seguiu para Jeremoabo. 
Nicolau Mangaba, para a serra do Cambaio. André Jibóia para 
Patumaté. 
Estavam, assim, vigiados por guerrilheiros experimen-
tados todos os acessos de Canudos. 
De Monte Santo, Pajeú regressava com a notícia de que o 
governo organizava uma nova e mais numerosa força ex-
pedicionária, comandada por um general que diziam temível. 
Estava realmente sendo mobilizada em todo o País a 4.
a 
expe-
dição contra Canudos. À Bahia chegavam tropas de 
quase todos os Estados do Brasil, de um extremo a outro, tanto 
unidades do Exército como da polícia, infantaria, cavalaria, ar-
tilharia. Navios de guerra fundearam em Salvador. 
Era o País em armas! 
As primeiras unidades que formaram a 4.
a
 expedição tota-
lizaram mais de 4 mil homens, divididos em duas colunas que 
seguiram por caminhos diferentes. Uma sob o comando do ge-
neral Carlos do Amaral Savaget e a outra do general João da 
Silva Barbosa. Era comandante-geral da expedição o general 
Artur Oscar. 
No decorrer da luta demandariam o interior da Bahia re-
forços superiores a mais de 4 mil homens. 
112 
O próprio ministro da Guerra, marechal Carlos Machado 
Bittencourt, seguiria para os sertões baianos, considerando en-
tretanto mais prudente ficar na base de operações, Monte San-
to, a 15 léguas do teatro da luta. 
O País inteiro vivia em função dos acontecimentos de 
Canudos. 
Surpreender o inimigo, não se deixar surpreender \u2014 era a 
base de toda a tática dos combatentes de Canudos. Preci-
samente nisso estava a grande vantagem dos camponeses em 
revolta ante a superioridade do adversário em homens e ma-
terial . 
A surpresa nas emboscadas, a surpresa na utilização per-
feita do armamento arrebatado às forças atacantes, a surpresa 
na resistência que só cessaria com a morte do último comba-
tente de Canudos \u2014 tudo isso deprimia o moral das tropas go-
vernistas, esgotava-as dia a dia, deixava os próprios generais 
sem perspectivas, ainda quando as forças atacantes superavam 
de muito os defensores da cidadela sertaneja. 
É o que revela a ordem do dia do comandante-chefe da 
4.
a
 expedição, general Arthur Oscar, ao marchar sobre Canu-
dos, quando procurou criar entre seus soldados o espírito ade-
quado às surpresas sem sobressaltos, advertindo-lhes: 
"Não vos oculto: daqui a onze léguas começaremos a ser 
hostilizados pelo inimigo, que nos atacará pela frente, reta-
guarda e flancos, no meio destas matas infelizes, onde as sim-
ples veredas não dão lugar à colocação de franqueadores. Ca-
minhos obstruídos, trincheiras, surpresas de toda espécie e tu-
do quanto a guerra tem de mais odioso será posto em prática 
para fazer-nos recuar.. ."
27
 
Mas a advertência do general, a lamentação contra a exis-
tência de matas que protegiam os sertanejos em nada mo-
dificavam a situação de fato. As surpresas continuariam a fa-
zer os expedicionários a pagar bem caro sua marcha sobre Ca-
nudos. 
Realmente, logo aos primeiros passos em direção ao ba-
luarte sertanejo, as tropas da 4.
a
 expedição encontraram pela 
 
27
 O país. Rio, 30-6-1887. 
113 
frente tocaias, ardis de toda sorte, assaltos inesperados, uma 
dezena de léguas antes do objetivo final. 
As "matas infelizes" não ocultavam os conselheiristas 
apenas quando estes se encontravam no solo; escondiam-nos 
também na copa das árvores mais altas, em cujos ramos cons-
truíam jiraus que comportavam um ou dois atiradores exímios. 
E os guerrilheiros rústicos utilizavam com notável senso tático 
todos os acidentes do terreno e particularmente as serras na 
passagem das estradas ou das veredas por onde transitariam 
obrigatoriamente as tropas governistas. 
Particular atenção mereciam as gargantas das serras que 
circundavam Canudos. As posições de Canudos só seriam per-
didas pelos conselheiristas em setembro de 97, poucos dias an-
tes de terminar a luta dentro de Canudos. Mesmo depois de te-
rem sofrido tremendas perdas com o assalto inimigo de 18 de 
julho, ainda em agosto mantinham inexpugnáveis os desfila-
deiros de Cocorobó, por onde passavam reforços e comboios 
de abastecimento das tropas do governo procedente da base de 
operações de Monte Santo. 
Estas e outras posições estratégicas em torno de Canudos, 
distantes duas a sete léguas, tiveram permanentemente seus 
piquetes vigilantes de mais ou menos 20 homens e, às vezes, 
fortes grupos de combate dos conselheiristas. Em geral as po-
sições escolhidas por estes não o seriam melhor por experi-
mentados generais. 
Num desses pontos, em 25 de junho de 97, não mais de 
300 camponeses detiveram durante horas a marcha de toda a 
2.ª coluna da 4.
a
 expedição, sob o comando do general Sa-
vaget. Eram 2 350 homens e uma bateria de 17 canhões 
Krupp. Pois levaram cinco horas para conseguir passar os 
flancos da serra, só o fazendo à custa de perdas catastróficas: 
178 baixas, saindo ferido o general-comandante. Este afirma-
ria depois não poder admitir "que duas ou três centenas de 
bandidos sustivessem a marcha da 2.
a
 coluna por tanto tem-
po"
28
. O fato é que o fizeram. 
Foi o primeiro combate sério travado entre os sertanejos 
e os atacantes desde a fuga da 3.ª expedição, em março. Os 
 
28
 Os sertões, pág. 441. 
114 
três