FACÓ, Rui. Cangaceiros e Fanaticos
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FACÓ, Rui. Cangaceiros e Fanaticos


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meses e meio decorridos haviam servido para concentrar
as energias dos combatentes de Canudos. Suas fileiras tinham-
se reforçado com a adesão de novos lutadores. E sobretudo
animavam-nos as vitórias sucessivas sobre as tropas gover-
nistas. Depois do desbaratamento da 3.

a
 expedição, o próprio

presidente da República, em mensagem ao Congresso, era
obrigado a reconhecer \u2014 "O desastre aumentou a força moral
dos revoltosos e os recursos naturais para a luta".

Depois do embate de Cocorobó, o general Savaget infor-
maria em ordem do dia que a 2." coluna havia suportado uma
fuzilaria cerrada e ininterrupta, como se ali estivesse uma divi-
são inteira"

29
.

Essa constatação era a melhor homenagem que se poderia
prestar aos valorosos combatentes de Canudos.

Com a chegada da artilharia, foi dada ordem de bombar-
dear a montanha. Era um bombardeio cego, contra pedras, e
que se revelou inútil. O fogo dos guerrilheiros imperceptíveis
aumentou de intensidade. O comando da tropa decidiu então
desfechar uma carga de baionetas. Era expor ao sacrifício mais
soldados, porém com algumas possibilidades de desalojar os
guerrilheiros das magníficas posições que ocupavam. Mil e se-
tecentos lanceiros foram arrojados contra a serra. Os campo-
neses não fugiram à carga de baionetas: enfrentaram-na, pro-
curando melhores posições e, numa situação que finalmente se
tornava crítica, buscaram o grande e insuperável aliado \u2014 a
mata.

De qualquer forma, uma vez mais as baionetas se reve-
laram a arma eficaz contra os defensores de posições nas ver-
tentes da serra.

Mas os sertanejos não deixaram que a perda de posições
privilegiadas significasse uma trégua para o adversário. Mes-
mo depois de expulsos da garganta do Cocorobó, prossegui-
ram fustigando a tropa até Canudos.

Esse combate, o primeiro travado pela 4.
a
 expedição, foi

um revés para as tropas governistas. Quebrara-lhes o ânimo,
com a demonstração retumbante de que enfrentavam um ad-

29

 Idem, pág. 414.

115

versário que sabia lutar e não temia a superioridade do ata-
cante; punha em contraste com a tática inadequada das forças
governistas a tática superior dos guerrilheiros, perfeitamente
adaptada ao meio em que se travava a luta; obrigava as tropas
expedicionárias a um desgaste de homens e munições que
mais tarde se revelaria fatal por um longo período, quando to-
da a 4.

a
 expedição ficou submetida a cerco à vista de Canudos,

no Alto da Favela, quase completamente desprovida de víve-
res, enfrentando provações de toda sorte, inclusive a fome.

O combate de Cocorobó mostrou também que os defen-

sores de Canudos tinham determinados objetivos militares ao
guardarem as passagens das serras:

1 \u2014 retardar ao máximo a marcha da expedição so-

bre Canudos;
2 \u2014 oferecer o primeiro combate ao inimigo em ter-

reno que lhe era o mais adverso;
3 \u2014 fazer com que a força expedicionária gastasse a

maior quantidade possível de munição antes de atingir
Canudos;

4 \u2014 eventualmente derrotar a expedição, fazendo-a
retroceder (como aconteceu com a 2.

a
 e a 3.

a
 expedições);

5 \u2014 impedir ou dificultar a chegada de víveres e re-
forços para as tropas que conseguissem atingir Canudos
(4.

a
 expedição).

Os homens de Canudos tinham conseguido aperfeiçoar de

maneira notável suas táticas de luta, seus métodos de dissi-
mulação, seus ardis, aparecendo num relampejar, desferindo
golpes fulminantes no inimigo e novamente desaparecendo cé-
leres.

A fugacidade dos guerrilheiros, por si só, constituía uma
terrível guerra de nervos contra os assaltantes. Corriam lendas
segundo as quais os defensores de Canudos eram transfor-
mados em duendes: apareciam como vultos impalpáveis que
ressuscitavam para os soldados de uma nova expedição depois
de terem sido dados como mortos pelos da expedição anterior.

116

Não era para menos. Um mês depois de ter chegado a
Canudos, o comandante da 4.

a
 expedição, general Arthur Os-

car, lamentava não ter conseguido "ver um jagunço vivo". E
em telegrama dirigido ao ministro da Guerra, "apelava para os
oficiais que tinham servido no Paraguai, em Niterói, no Rio de
Janeiro, no Rio Grande do Sul, a fim de que dissessem se ja-
mais tinha visto uma guerra como aquela... ".

30

A queixa do comandante-chefe mostra que os guerrilhei-
ros não se deixavam aprisionar, não abandonavam seus feridos
no campo da luta, como aconteceu no combate de Cocorobó,
onde não restou um só ferido, embora houvesse entre os cam-
poneses 60 mortos.

Ninguém se entregava ao inimigo nem os feridos deviam
cair prisioneiros, era uma lei de guerra dos combatentes de
Canudos.

Os expedicionários não conseguiam dar um passo nas vi-
zinhanças de Canudos sem ser observados em todos os movi-
mentos pelos campesinos em revolta. Para melhor trazê-los
sob controle, os defensores de Canudos comunicavam-se à
noite de um extremo a outro do acampamento por meio de si-
nais luminosos, ou de sons.

Enquanto isso, as armadilhas se multiplicavam, ao longo
das estradas, aproveitando a ondulação do terreno, as margens
do rio Vasa-Barris, as capoeiras, as passagens das serras.

Nos pastos que marginavam o caminho natural das tropas
governistas com a base de Monte Santo, os sertanejos, durante
muito tempo, observaram o trânsito das tropas através da car-
caça de uma vaca, na qual se ocultava um combatente. Julgan-
do tratar-se realmente de uma rês no pasto, os soldados passa-
vam despercebidos, enquanto seguiam informações para o
grupo de guerrilha mais próximo ou para Canudos, empreen-
dendo-se então emboscadas contra a força governista. "As
conseqüências dessa espionagem foram nefastas às tropas em
marcha, que eram assaltadas de chofre em diversos pontos pe-
lo mesmo magote de conselheiristas"

31
.

30

 Aristides Milton, ob. cit., pág. 110.
31

 Manuel Benício. O rei dos Jagunços, Rio, 1899. pág. 322.

117

A imaginação do habitante do campo é fértil. As ciladas
contra o agressor deviam renovar-se sempre durante a cam-
panha. Eram a grande arma dos guerrilheiros. Procuravam uti-
lizar todos os meios para retirar ao inimigo sua principal supe-
rioridade \u2014 a potência de fogo. Não bastava impedir que che-
gassem os comboios de munições, ou causar-lhes danos. À
noite, meia dúzia de canudenses se aproximavam das linhas
inimigas disparando suas armas. Era o suficiente para todo o
acampamento desmandar-se em tiros contra as trevas, contra o
vácuo...

Dentro em pouco as munições da força governista escas-
seavam de maneira alarmante. E os víveres, já racionados du-
rante os últimos dias da marcha sobre Canudos, chegaram a
faltar quase completamente. Somente os feridos (em número
superior a 1 200 nos primeiros dias de contato da 4.

a
 expe-

dição com os homens de Canudos) conseguiram alguma ali-
mentação. Soldados famintos buscavam então romper o cerco
estabelecido sobre a tropa governista para procurar alimentos.
O comandante-chefe proibia estas fugas. Mas havia um impe-
rativo superior \u2014 a fome.

Os soldados passaram a abater vacas e cabras dos cam-
poneses de Canudos, procuravam raízes e espigas de milho nas
roças circunvizinhas.

Imediatamente os locais onde podiam ser encontrados ali-
mentos se transformaram em matadouros de soldados. Os
camponeses tratavam de aproveitar o estado de fome em que
se encontravam os adversários para atraí-los a emboscadas
mortais. Reuniam num lugar adequado algumas reses, que os
soldados famintos procuravam tanger para o acampamento. E
quando os soldados campeavam os animais para o Alto da Fa-
vela, pagavam quase sempre com a vida a tentativa de escapar
à fome inexorável.

O mesmo passou a ocorrer com