FACÓ, Rui. Cangaceiros e Fanaticos
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FACÓ, Rui. Cangaceiros e Fanaticos


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a falta de água determi-
nada pelo cerco. O terreno árido não oferecia facilidade para
escavações profundas. Era necessário procurar as margens do
Vasa-Barris, onde havia fontes conhecidas. Em suas proximi-
dades os sertanejos passaram a armar tocaias. E as águas bar-
rentas dentro em pouco estavam poluídas de cadáveres.

Por tais exemplos se vê que outra lei de guerra dos habi-

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tantes de Canudos era esta \u2014 não poupar meios para exter-
minar o inimigo.

E assim conseguiram prolongar a luta até o limite extre-
mo da desistência, até a morte do último defensor de Canudos.
Ainda na investida final sobre Canudos, quando cargas e car-
gas de dinamite eram arrojadas sobre as choupanas de palha e
barro, quando o fogo lavrava devorando as últimas choças dos
camponeses, estes ainda se empenhavam na luta heróica, de
casa em casa. Os casebres restantes haviam sido transforma-
dos em trincheiras. O chão tinha sido escavado para melhor
abrigar seus defensores. Estes se comunicavam uns com os ou-
tros por meio de passagens subterrâneas, de forma que a cap-
tura de uma casa não significava a morte do defensor daquela
posição: ele conseguia escapulir para a casa contígua, e conti-
nuava combatendo.

Os últimos momentos de Canudos foram coroados por
um dos mais notáveis ardis que a imaginação fértil dos serta-
nejos pusera em prática contra o inimigo. Apresentou-se ao
comando das tropas governistas um emissário de Canudos.
Antônio Beato, ou Beatinho. A força expedicionária acreditou
ter chegado a hora da rendição completa dos derradeiros de-
fensores de Belo Monte. Depois de uma breve palestra com o
general Artur Oscar, Beatinho voltou ao arraial. Pouco mais
tarde trazia consigo umas trezentas pessoas. Eram mulheres,
crianças e velhos inválidos.

Entretanto, a luta prosseguiu. Os insurgentes desejavam
apenas ver-se livres de um peso-morto. As palavras de Eucli-
des da Cunha dão relevo ao quadro:

"Ao cair da tarde estavam desafogados os jagunços.
"Deixaram que se esgotasse a trégua. E quando lhe anun-

ciou o termo uma intimativa severa de dois tiros de pólvora
seca seguido de outro de bala rasa, estenderam sobre os si-
tiantes uma descarga divergente e firme.

"E lutavam com relativa vantagem ainda.
"Pelo menos fizeram parar os adversários...
"Canudos não se rendeu..., resistiu até o esmagamento

completo. Expugnado palmo a palmo, na precisão integral do
termo, caiu no dia 5 ao entardecer, quando caíram os seus úl-
timos defensores, que todos morreram. Eram quatro apenas:

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um velho, dois homens feitos e uma criança, na frente dos
quais rugiam raivosamente cinco mil soldados"

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.

Era 5 de outubro de 1897. A luta armada sustentada pelos
bravos habitantes de Canudos durara quase um ano.

A ordem do dia do comando da 4.
a
 expedição dando a

guerra por concluída, falando em nome dos senhores latifun-
diários e do seu governo, era obrigada a reconhecer o heroís-
mo dos sertanejos, ao afirmar: "É para lamentar que o inimigo
fosse tão valente na defesa de causas tão abomináveis". As
"causas abomináveis", naturalmente, eram o rompimento com
a ordem semifeudal, com a brutal exploração do latifúndio e a
defesa da própria vida.

Falava-se na integridade, na honra, na dignidade nacio-
nal, em defesa da República. E sob a máscara desta fraseologia
executou-se o nefando crime contra Canudos, cujos assaltantes
chegaram a requintes de selvageria. A degola dos combaten-
tes rurais foi um dos atos mais repugnantes que se conhece na
história das guerras. Não encontra paralelo em outra luta civil
no Brasil, assemelhando-se apenas ao infame ato do mercená-
rio Grenfell. Jamais pouparam a vida de um prisioneiro, fosse
homem, mulher ou criança. Não importava que se submetes-
sem ou não aos interrogatórios, atendessem ou não à intimati-
va estúpida de dar vivas à República. Todos, indistintamente,
tiveram o mesmo fim brutal: amarrados, sangrados e degola-
dos. Seus corpos eram queimados em seguida, amontoados em
grandes fogueiras.

A princípio, ante raros protestos que surgiram, tímidos,
ocultavam o crime. Levavam os prisioneiros a um lugar afas-
tado do acampamento para o sacrifício final. Mais tarde, a de-
gola foi feita às claras. No fim da luta, criado o hábito, forma-
vam-se grupos de condenados diários ao assassínio frio. A de-
gola não pouparia sequer os cadáveres em decomposição, e foi
atingir o do próprio Conselheiro, retirado da cova já em estado
de putrefação.

Canudos era um exemplo perigoso de que não deveria fi-
car memória. Exterminados seus habitantes, até o último, de-
veria ser reduzido a cinzas. Os derradeiros dias de permanên-

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 Os sertões, pág. 611.

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cia das tropas no longínquo sertão baiano foram dedicados à
destruição implacável de casa por casa, desde os alicerces das
duas igrejas, já transformadas em escombros pelo canhoneio
incessante de meses a fio, até o hospital de sangue dos campo-
neses. Tudo o que havia resistido ao canhoneio seria arrasado
com dinamite e devorado pelo fogo ateado aos casebres devi-
damente regados de querosene. A ordem terminante do co-
mando das tropas do Governo foi esta: "não deixar nem um
pau" que indicasse ter havido ali uma concentração de campo-
neses em revolta contra a opressão e a miséria. Nada que lem-
brasse uma insurreição de pobres do campo. O castigo deveria
ser exemplar para que não se reeditasse rebelião semelhante
contra os grandes fazendeiros, ameaçando o monopólio da ter-
ra e a ordem constituída sobre ele.

As classes dominantes ficariam insensíveis aos protestos
que se levantariam. Durante a luta, os alunos da Escola Militar
do Rio recusavam-se a entregar as munições requisitadas pelo
Ministério da Guerra para a 4.ª expedição contra Canudos.
Dois navios de guerra e numerosa tropa são mandados contra
os jovens sublevados. A mocidade da Faculdade de Direito da
Bahia lançaria um Manifesto contra as comemorações oficiais
da vitória, contra o "cruel massacre", exigindo que "uma geral
reprovação caia como um raio sobre aquele morticínio". No
Senado, Rui Barbosa pronunciava palavras de fogo, conde-
nando o Governo pelos atos de vandalismo em Canudos. E
Euclides da Cunha faria ouvir sua voz potente perante a histó-
ria, enaltecendo o heroísmo dos sertanejos, verberando o crime
hediondo contra Canudos.

Tais são os fatos, geralmente dissimulados por interesse
de classe, mostrando que Canudos foi, sob a capa de misti-
cismo religioso em torno do Conselheiro, fundamentalmente
uma luta de classes \u2014 uma luta aguerrida contra o latifúndio,
contra a miséria e a exploração terríveis que o monopólio da
terra engendra e mantém secularmente no Brasil.

As condições específicas da região agreste onde se desen-
rolaram estes acontecimentos, sobretudo sua localização numa
zona das mais pobres da Bahia e nas vizinhanças de outros
cinco Estados que concentram a população mais pobre do Bra-
sil \u2014 Pernambuco, Alagoas, Sergipe, Ceará e Piauí \u2014 possi-

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bilitaram o desenvolvimento de uma das lutas mais heróicas
do campesinato brasileiro, na qual a bravura, a inteligência e a
vivacidade do sertanejo brotam a cada lance da resistência in-
domável diante de forças militares organizadas, poderosamen-
te armadas e numericamente muitas vezes superiores.

Cinco ou seis mil famílias, deslocadas da terra por fatores
diversos, mas fundamentalmente pela opressão dos grandes
fazendeiros semifeudais, procuravam viver, e para isso lu-
tavam de armas nas mãos. Lutavam contra uma ordem de coi-
sas injusta, brutalmente opressiva, que esmagava qualquer an-
seio de vida, para não falar em liberdade. E nas condições da
época, isoladas, sem rumos definidos, dentro de sua com-
preensão rudimentar, quebravam a seu modo a servidão da
gleba, emigravam