FACÓ, Rui. Cangaceiros e Fanaticos
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FACÓ, Rui. Cangaceiros e Fanaticos


DisciplinaHistória e Historiografia548 materiais4.423 seguidores
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e, concentradas numa posição privilegiada, 
longe dos principais centros de repressão governamental, ocu-
pavam terras, invadiam fazendas, arrebatavam cidades. 
Havia simultaneamente um surto de misticismo religioso 
entre aqueles miseráveis ignorantes? Não há dúvida. Mas isto 
não invalida a afirmação contida nos próprios fatos: eles tra-
vavam uma luta de classes. Inconscientemente, não importa, 
mas uma luta de classes. 
Não é por acaso que historiadores, mesmo os mais hones-
tos, exageram o misticismo religioso dos habitantes de Canu-
dos e o transformam no móvel único de sua luta. Procuram as-
sim esconder as causas que a geraram, os verdadeiros motivos 
de sua resistência maravilhosa e de suas arrancadas heróicas: a 
opressão semifeudal do latifúndio, a miséria e a fome, frutos 
da posse monopolista da terra por urna minoria de grandes fa-
zendeiros. Desta forma, tratam também de amesquinhar a re-
sistência inquebrantável dos homens de Canudos diante da 
esmagadora superioridade das forças armadas com que os go-
vernos representantes dos latifundiários tentavam esmagá-los. 
Estranho misticismo esse, que arregimentava apenas os 
pobres! Estranho misticismo que transformou a própria igreja 
constituída pelo Conselheiro num baluarte de guerra, até o fim 
da luta! Estranho misticismo que repeliu a primeira tentativa 
de conseguir a redução dos insurgentes através da igreja cató-
lica, através de uma missão religiosa, dirigida pelo capuchinho 
João Evangelista do Monte Marciano. O próprio frade, bastan-
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te perspicaz, confessaria no seu relatório da missão infrutífera 
à concentração camponesa de Canudos, antes de iniciar-se o 
assalto armado: "Não é só um foco de superstição e fanatis-
mo... "
33
. 
Além disso, os combatentes de Belo Monte prosseguiri-
am lutando ainda depois da morte do Conselheiro, quando se 
afirmava que combatiam unicamente estimulados por este e 
confiantes em seus milagres. 
A verdade é que os habitantes de Canudos viviam uma 
vida muito dura, tinham que ser homens práticos e em contato 
direto com a realidade que os esmagava, para cuidarem so-
mente da alma, da salvação no céu, como se tentava fazer crer. 
A vida exigia que fossem homens frios e implacáveis com o 
inimigo, para poderem lutar com vantagem pela própria so-
brevivência. E assim foi. Não só morriam combatendo o ini-
migo peito a peito, mas enfrentavam as forças armadas envia-
das para atacá-los com o objetivo de exterminá-las. De-
safiavam-nas impávidos: 
\u2014 Avança, fraqueza do governo! 
Era o seu grito de guerra. 
 
 
Durante um ano inteiro Canudos resistiu a quatro expe-
dições regulares de forças do Exército e da polícia militar, in-
cluindo tropas de infantaria, cavalaria e artilharia, num total 
superior a 12 mil homens. Três dessas expedições foram fra-
gorosamente derrotadas. Cerca de 5 mil soldados e oficiais das 
tropas governistas foram mortos. Generais que eram o orgulho 
das classes dominantes perderam junto a Canudos não só a le-
genda de lutas passadas, mas a própria vida. Ante os métodos 
revolucionários de guerrear, impostos pelos combatentes, re-
duziram-se a nada os princípios estratégicos e táticos de seus 
adversários. Um ministro da Guerra viu-se obrigado a embre-
nhar-se, ele próprio, nos sertões agrestes da Bahia para super-
visionar a última investida contra Canudos \u2014 e este simples 
fato mostra o estado de espírito alarmado que se apoderara das 
classes dominantes. 
 
33
 Aristides Milton, ob. cit., pág. 28. 
123 
Canudos foi assim um dos momentos culminantes da luta 
de libertação dos pobres do campo. Sua resistência indomável 
mostra o formidável potencial revolucionário existente no 
âmago das populações sertanejas e a enorme importância do 
movimento camponês no Brasil, cuja população rural consti-
tui, ainda hoje, a principal parcela das massas laboriosas do 
País. A epopéia de Canudos ficará em nossa história como um 
patrimônio das massas do campo e uma glória do movimento 
revolucionário pela sua libertação. 
 
 
 
 
 
 
III PARTE 
 
 
 
 
Juazeiro e o Padre Cícero 
 
126 
 
 
 
1 
 
 
 
Antecedentes 
 
O povo insurgia-se algumas 
vezes e era terrível em sua cólera. 
 
JOÃO BRÍGIDO 
 
 
 
 
 
 
ARDIAM AINDA AS CHAMAS DE CA-
nudos quando o nome do Padre Cícero Romão Batista correu o 
País inteiro. O sacerdote, com fama de fazedor de milagres, já 
congregava em torno de si milhares de fiéis e estaria aliciando 
combatentes para as hostes de Antônio Conselheiro. Temia-se 
uma conflagração generalizada nos sertões do Nordeste. 
O Padre Cícero encontrava-se então provisoriamente exi-
lado, por determinação das autoridades eclesiásticas, na pe-
quena vila de Salgueiro, no interior de Pernambuco. 
Aguardavam ansiosos a sua volta centenas de crentes, 
vindos de lugares distantes desse mesmo Nordeste, num acam-
pamento desordenado que começava a formar-se próximo à 
velha cidade do Crato \u2014 Juazeiro \u2014 no centro de um vale 
úmido no desertão: o vale do Cariri. 
Seria este o cenário de um novo drama \u2014 misto de tra-
gédia e farsa \u2014 que se desenrolaria no Nordeste brasileiro. 
127 
Localizado no extremo sul do Ceará, o Cariri encontra-se 
estreitamente ligado a todos os Estados convizinhos: Pernam-
buco, Paraíba, Rio Grande do Norte e até mesmo o Piauí. De 
tal forma destaca-se por suas particularidades geofísicas, pela 
umidade e fertilidade de suas terras, por seu desenvolvimento 
econômico e demográfico, no coração do Polígono das Secas, 
que se conhecem de passado distante suas aspirações de tor-
nar-se uma província autônoma. Ainda hoje se fala na criação 
do Estado do Cariri, embora semelhante reivindicação não es-
teja isenta de manobras políticas imediatas deste ou daquele 
político, sem maior expressão entre os caririenses. Mas o fato 
não pode ser ignorado. Existem realmente, e devem ter existi-
do mais ainda no passado, interesses locais de certa proporção 
gerando este reclamo. 
Encravado na extremidade meridional de um Estado pobre, 
assolado por secas periódicas, quase isolado da capital desse Es-
tado, à qual apenas pagava impostos sem nada receber em com-
pensação, mais vinculado em sua vida econômica aos Estados 
vizinhos, sobretudo a Pernambuco, quase autônomo na prática, 
era natural que o Cariri aspirasse à autonomia efetiva. 
Que ele de longa data se preparava para desempenhar um 
papel saliente na vida do Nordeste, comprovam-no em par-
ticular os movimentos revolucionários de que participou ati-
vamente, como nenhuma outra região interiorana, à exceção 
dos grandes centros do Sul. Foi no Cariri, precisamente no 
Crato, que José Martiniano de Alencar encontrou campo livre 
para sua audaciosa pregação republicana de 1817, quando o 
Cariri acompanhou ativamente o movimento revolucionário 
contra os colonizadores, que acabava de explodir no Recife. 
Quando da Confederação do Equador, em 1824, mais uma vez 
o Cariri participa do movimento insurrecional de Pernambuco, 
e a Câmara do Crato nega juramento à Constituição outorgada 
por Pedro I. 
Vários fatores concorriam para esses surtos revolucioná-
rios, entre outros, um relativo adensamento de população for-
mada de imigrantes, que nos anos de seca acorriam para o 
vale, proveniente das províncias vizinhas; sua mais íntima re-
lação econômica com Pernambuco, o centro mais desenvol-
vido de todo o Nordeste e cujos movimentos insurrecionais se 
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refletiam mais ou menos acentuadamente na região; um relati-
vo progresso econômico do próprio Cariri, que já nos fins do 
século XVIII contava cerca de 90 engenhos de açúcar
1
 e, causa 
não desprezível, a influência de padres católicos, como Alen-
car, imbuídos das idéias da Revolução Francesa, que