FACÓ, Rui. Cangaceiros e Fanaticos
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FACÓ, Rui. Cangaceiros e Fanaticos


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fosse o fanatismo a origem e o fim de tu-
do, esquecendo-se os fatores materiais que geraram o próprio
fanatismo.

No caso do Padre Cícero, surge ele como um contrapeso
para a crise de autoridade que sucedera à derrubada da mo-
narquia e à Abolição da Escravatura. Esta última, sem repre-
sentar qualquer mudança fundamental na economia do Nor-
deste, onde a escravaria era pouca, significava que os senhores
de escravos, isto é, os latifundiários, já não tinham direito de
vida e morte sobre os que os serviam. A extinção do regime
escravista em todo o País rompera um dos mais fortes laços
que uniam as classes dominantes de um extremo a outro do
território nacional, enfraquecendo-as, portanto. Havia assim
um debilitamento do Poder local, embora subsistissem,-como
potência econômica única nos sertões, os grandes lati-
fundiários .

Deve datar dessa época, a partir da Abolição, uma vulne-
rabilidade mais acentuada da autoridade do senhor de terras, o
que, naturalmente, não significava, longe disso, que outro po-
der local ombreasse com ele. Ao contrário, os latifundiários
ainda manteriam por muito tempo sua supremacia econômica
e política.

Momentaneamente, houve como que um afrouxamento
da velha submissão dos sem-terra aos latifundiários. Aqueles,
desde a grande seca de 1877-1879, emigravam em escala cres-
cente para a Amazônia. Isto significava que o grande proprie-
tário territorial nordestino começava a ver desfalcadas suas
disponibilidades de mão-de-obra semi-servil, com que sempre
contara, de velhos tempos. Mais para o fim do século inicia-se
a emigração para o Sul.

Em resumo, os despossuídos do campo já podiam livrar-
se da opressão dos senhores locais, embora fossem cair em si-
tuação sob certos aspectos idêntica, nos seringais da Ama-
zônia.

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Mas, como vimos, havia outra alternativa à submissão ao
grande proprietário territorial: engajar-se no cangaço. Os gru-
pos de cangaceiros formavam-se entre as vítimas do latifúndio
semifeudal, entre os mais insubmissos à exploração brutal a
que eram submetidos os que pertenciam às camadas pobres da
população.

Temos, assim, uma série de fatores conjugados no surgi-
mento de fenômenos como Juazeiro. O básico, naturalmente, é
o regime de propriedade da terra, numa economia quase total-
mente agropecuária. É o regime latifundiário com suas rela-
ções de produção pré-capitalistas. Mas ele só não basta para
explicar o aparecimento em massa dos bandos de cangaceiros
ou dos redutos de fanáticos. Se assim fosse, num determinado
período de nossa história, tais bandos e tais redutos ter-se-iam
espalhado pelo Brasil inteiro. A enfermidade se encontrava,
decerto, disseminada pelo organismo todo do imenso País.
Mas seus pontos de manifestações constituem aquelas zonas
onde se reúnem ou coincidem outros fatores coadjuvantes,
como o isolamento da região dada em relação às cidades, o
atraso cultural maior, maior influência do clero na exacerba-
ção das tendências místicas, fato já observado por Euclides da
Cunha quando condenava os padres missionários como um
"agente prejudicialíssimo" ao contato com as massas ingênuas
dos sertões. Porque "alucina o sertanejo crédulo; alucina-o,
deprime-o, perverte-o"

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.

No caso do Padre Cícero, não podemos esquecer algumas
causas "positivas" na sua formidável projeção em todo o Nor-
deste. Seu apostolado se inicia de maneira diversa dos demais
sacerdotes católicos: não cobra em dinheiro os serviços reli-
giosos. É o ponto de partida da sua popularidade, ao lado, é
claro, de certas manifestações místicas coincidentes com as
das camadas mais atrasadas da população sertaneja local. A ci-
dade de Crato era o centro do vale, mas quem não podia pagar
casamento, batizado, missas votivas dirigia-se a Juazeiro, que
apenas surgia, em busca do jovem padre que não recebia di-
nheiro por coisas sagradas... Depois, na medida em que cres-

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 Os sertões, págs. 147-148, 13.ª ed.

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ceu o ajuntamento em torno da capela do "santo", aquela po-
pulação miserável e enferma, que não conhecia médico nem
jamais havia procurado uma farmácia, encontrava nos conse-
lhos do Padre Cícero os ensinamentos para curas que realmen-
te se efetivavam. Muitas vezes, simples conselhos higiênicos
elementares que a população pobre desconhecia totalmente. E
vieram as lendas dos "milagres"...

Aspirações a mudanças? Sim, no fundo estavam latentes
estas aspirações. Eram elas que motivavam basicamente tudo
aquilo. Pode-se perguntar então: por que não havia um levante
direto por elas?

Seria exigir-se muito de populações mergulhadas secular-
mente num tão grande atraso, num isolamento não menor, nu-
ma situação de miséria tal que não tinham sequer a cons-
ciência dos direitos mais elementares ao ser humano. Sabe-se
que toda manifestação coletiva traz consigo uma justificativa
teórica, por mais primária que seja, baseada numa ideologia,
uma forma qualquer de consciência do mundo e de expressão
de interesses materiais. A única "ideologia" possível entre
aquelas camadas da população sertaneja era a religião. Uma
religião que elas adaptaram às suas próprias concepções da vi-
da e das coisas, às suas necessidades materiais imediatas \u2014 as
manifestações de fanatismo.

O Padre Cícero em parte adaptou-se também a esta exi-
gência das massas pobres do campo que o cercavam e que, de-
pois, passaram a endeusá-lo. Eles as moldava, mas lhes sofria
a influência. Elas o seguiram mais firmemente, dispostas a tu-
do, quando ele revelou uma qualidade que elas exigiam: a in-
submissão. Insubmissão religiosa, desobediência às ordens da
cúpula da Igreja Católica, mas insubmissão pública e que cor-
respondia ao espírito insubmisso daquela pobreza desvalida.
Esta é uma das principais qualidades do sacerdote para que ele
mantenha o seu prestígio, a sua popularidade, o seu conceito
de "santo" entre os que estavam dispostos a segui-lo em qual-
quer emergência. Assim, o movimento religioso, "fanático",
era o mais elementar e a mais admissível das formas de luta
pelas aspirações elementares, as vezes inconscientes, e que só
iriam tornar-se consciência no processo mesmo das lutas.

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O Padre Cícero

e Seus "Milagres"

O povo havia de rebelar-se, e,

então, viria a alegação: "É o banditis-

mo!" Iriam as forças e acabava-se com

a população. Sabemos o que foi Canu-

dos, o que foi Contestado...

FLORO BARTOLOMEU

NESSE AMBIENTE É QUE APARECEU,

nos fins do século XIX, num distrito do Município do Crato \u2014
Juazeiro \u2014 a 13 quilômetros da principal cidade do Cariri, o
protagonista de um drama que envolveria mais tarde milhares
de pobres do campo, em armas, sem ser uma luta camponesa,
mas um logro às populações rurais do Nordeste.

Talvez jamais um homem tenha adquirido no Brasil e
mantido durante tanto tempo o prestígio alcançado pelo Padre
Cícero entre as massas do campo. Sua popularidade espalhou-
se por todo o interior setentrional do País, do Amazonas à Ba-
hia, movimentou romarias durante décadas inteiras, foi alvo de
discussões no Parlamento e na imprensa, colocou a cúpula da
Igreja Católica em difícil posição, acirrou discórdias e lutas
entre facções políticas. O sacerdote, apontado como milagrei-
ro, conseguiu ser, por um longo período, ditador de almas,
chefe político local, vice-governador do Estado, deputado fe-

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deral eleito que se recusou a assumir a cadeira para não aban-
donar seu aprisco, tornou-se grande proprietário territorial,
contribuiu decisivamente para fomentar a agricultura no Cariri
e fundou uma cidade que, poucos anos mais tarde, seria a se-
gunda do Estado, depois da capital. "Não exageramos. Vene-
ravam-no como a um santo multidões de todos os recantos do
Nordeste brasileiro"