FACÓ, Rui. Cangaceiros e Fanaticos
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FACÓ, Rui. Cangaceiros e Fanaticos


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em armas no interior para impor seu prestígio
local, repelir um assalto do adversário à sua fazenda ou to-
mar de assalto a fazenda do adversário e corresponder-se
amistosamente com o governador do Estado, com o ministro
da Guerra, com o presidente da República. Floro Bartolomeu
foi um desses tipos, uma de suas mais altas expressões no
Brasil.

Chegou ele a Juazeiro vindo do interior da Bahia, seu Es-
tado de origem, em 1908. Formara-se em Medicina em Salva-
dor e clinicara durante algum tempo nos sertões de sua terra.
Se já conhecia de perto o espírito da gente sertaneja, melhor o
terá conhecido no exercício da clínica. Esta não podia pro-
piciar-lhe os meios de vida entre sertanejos pobres naquela
época. Empreendeu uma aventura. A cavalo, em companhia de
um estrangeiro de espírito aventureiro, que se dizia engenheiro
de minas e se intitulava conde \u2014 predicados jamais con-
firmados plenamente \u2014 chegou ao Cariri, dizem, atraído pelas
notícias de uma mina de cobre da área do Coxa, no município
de Aurora. A mina havia sido adquirida então pelo Padre Cíce-
ro Romão Batista, mas sua posse era litigiosa.

Floro Bartolomeu entrou logo em contato com o sacer-
dote famoso e, em pouco tempo, conseguiu tornar-se homem
da máxima confiança e da intimidade do Padre, servindo-o
como médico particular. A confiança deve ter aumentado ain-
da mais quando, naquele ano de 1908, Floro Bartolomeu não
vacilou em resolver a questão da mina do Coxa à revelia da
Justiça e à boa maneira da terra: pelas armas. Com as forças
disponíveis em Juazeiro mesmo, armou um grupo de capan-
gas. Foi a sua primeira prova de fogo. Com o consentimento
do Padre, Floro resolveu dirigir os trabalhos de demarcação da
propriedade onde ficava a mina. Dizem ter sido então agredido
por um grupo de jagunços e soldados da polícia, a mando dos
que disputavam a posse da jazida, no município vizinho. Nu-
ma descrição incompleta que deixou do episódio, diz Floro
Bartolomeu que os atacantes "eram em número maior de 50
cangaceiros"

1
.

1
 Citado por I. Pinheiro, O Juazeiro do padre Cícero, pág. 167.

152

Mas os antagonistas foram repelidos e as terras ficaram
demarcadas como domínio do Padre Cícero, isto é, selada a
bala a sua posse.

O nome de Floro Bartolomeu projetou-se rapidamente
por todo o vale do Cariri e passou a ser respeitado não apenas
por ter-se tornado um homem de confiança direta do Padre Cí-
cero, mas por sua coragem pessoal, sua decisão de enfrentar
inimigos numa luta armada com poderosos locais, verdadeiro
chefe que se revelara.

Daí por diante seria ele personagem infalível na história
de Juazeiro, ao lado do Padre Cícero, inicialmente, como exe-
cutante da vontade do chefe espiritual do Cariri, logo a seguir,
como chefe político autônomo e, mais tarde, verdadeiro dita-
dor sobre a vontade do sacerdote e dos romeiros. Estes passa-
ram às suas mãos de homem prático e enérgico desde o episó-
dio da mina do Coxa, que podia não conter nenhum cobre,
mas que fez a fortuna política de Floro Bartolomeu.

Os dois anos seguintes, 1909 e 1910, assinalam novas
agitações internas no Cariri, concentradas agora em torno de
Juazeiro. Sua população aumentava dia a dia. Tinha pretensões
de separar-se do município do Crato, do qual permanecia sim-
ples distrito. Pleiteava-se para o povoado a categoria de vila.
Mas o Governo do Estado protelava a decisão por não querer
descontentar correligionários políticos do Crato, até então con-
troladores tradicionais da melhor parcela do eleitorado cariri-
ense, e, também, por questões fiscais. Os ânimos se exaltam,
trava-se polêmica pela imprensa, da qual participa Floro Barto-
lomeu, que ataca acremente seus adversários da cidade vizinha.

Advém então outro episódio, que iria consolidar o pres-
tígio de Floro Bartolomeu. Durante algumas semanas, em
1909, o Crato e municípios vizinhos ficam em pé de guerra.
De parte a parte mobilizam-se uns dois mil capangas. O chefe
político do Crato, Alves Pequeno, recebe ameaças anônimas,
alguns de seus apaniguados vacilam, mostram-se favoráveis a
um entendimento pacífico, mas o coronel mantém a velha tra-
dição do senhor feudal: é inabalável, contrário a qualquer en-
tendimento com o adversário.

Aquelas tentativas de conciliação de 1909 concretizam-se
dois anos mais tarde, em 1911, logo depois de ser Juazeiro

153

elevado a município autônomo, tendo o Padre Cícero como
seu primeiro prefeito. Não é improvável ter sido Floro Barto-
lomeu o verdadeiro inspirador do famoso pacto dos coronéis,
um dos documentos mais significativos da história do corone-
lismo no Brasil.

A aliança insólita foi assinada em Juazeiro em 4 de outu-
bro de 1911, numa importante assembléia que congregava em
torno do chefe político local, o Padre Cícero, como árbitro das
divergências que perturbavam intermitantemente a paz no Ca-
riri, os coronéis de todos os municípios da zona

2
. Nada menos

de 17 chefes políticos municipais, inclusive o recalcitrante
prefeito do Crato, Alves Pequeno, que nunca admitiria antes
ombrear-se com os demais.

O documento, assinado e registrado em cartório, invoca
inicialmente o nome prestigioso do sacerdote que se tornara
chefe político, juntando-o ao nome do município que governa:
". . . Nesta vila de Juazeiro do Padre Cícero, município do
mesmo nome. . ." \u2014 quando a denominação oficial era sim-
plesmente Juazeiro

3
. Haveria aí, talvez, um assomo de bajula-

ção para com o homem que se constituíra em depositário da
confiança de milhares de nordestinos que o acompanhavam
cegamente. Mas havia também uma transferência de respon-
sabilidade por esse acontecimento invulgar: um entendimento
entre potentados que se odiavam de morte, que viviam em
brigas permanentes, que, se pudessem, se devorariam uns aos
outros.

O objetivo declarado era, como se diz no preâmbulo dos
nove artigos do pacto, que "se estabelecesse definitivamente

2
 Devemos observar que se tem modificado constantemente a composição

dos municípios que compreendem o Cariri. Não só tem havido desmembra-
mentos, como retificações na caracterização da própria zona. Diz Jáder de
Carvalho que se tem obedecido sucessivamente a critério diverso, levando-
se em conta às vezes a geografia econômica e física e, em época mais recu-
ada, "a insula era muito maior, vista do ângulo do coronelato e do cangaço"
(O Município, órgão do Conselho de Assistência Técnica aos Municípios,
Fortaleza, Ceará, n.° 1, 1955, pág. 147).
3
 O nome foi alterado para Juazeiro do Norte em 14-6-1946, para não se

confundir com o da cidade e município baianos de Juazeiro, denominação
mais antiga.

154

uma solidariedade política entre todos, a bem da organização
do partido

4
 os adversários se reconciliassem, e ao mesmo tem-

po lavrassem um pacto de harmonia política".
O artigo 1.° visava, aparentemente, por na ilegalidade os

grupos de cangaceiros. Mas como todos os chefes políticos
possuíam seus bandos de jagunços e não podiam viver sem
eles, estabelecia-se que "nenhum chefe protegerá criminosos
do seu município nem dará apoio nem guarida aos dos muni-
cípios vizinhos". O termo criminosos era por demais vago e ao
mesmo tempo restritivo. Em relação aos cangaceiros e capan-
gas, não obstante o pacto, prevalecia o costume que a tradição
consagrava. Eles não seriam considerados criminosos, desde
que se pusessem a serviço dos potentados locais, pois assim
estavam ao serviço da ordem...

O núcleo central do pacto se encontra no artigo seguinte,
que é terminantemente: "Nenhum chefe procurará depor outro
chefe, seja qual for a hipótese".

Os demais artigos lhe eram complementos: só poderia
haver intervenção "para