FACÓ, Rui. Cangaceiros e Fanaticos
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FACÓ, Rui. Cangaceiros e Fanaticos


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manter", nunca para derrubar o chefe 
constituído (art. 4.°); "inquebrantável solidariedade, não só 
pessoal como política" (art. 8.°); "um por todos, todos por um" 
(art. 8.°). E, finalmente, o último artigo, conclusão lógica dos 
anteriores: "Manterão todos os chefes incondicional solidarie-
dade com o Excelentíssimo Doutor Antônio Pinto Nogueira 
Acioli, nosso honrado chefe, e como políticos disciplinados 
obedecerão incondicionalmente suas ordens e determinações". 
Este pacto é um sinal de debilidade, um prenuncio de de-
cadência do coronel tradicional, do potentado do interior, ou-
trora senhor absoluto de seu feudo e em disputa constante com 
os feudos vizinhos. Sua maneira de pensar fora sempre esta: 
todos lhe deviam render vassalagem. Mas, ante um fenômeno 
como Juazeiro, ante essa jamais vista movimentação de cam-
poneses pobres que nada tinham a perder e cujo controle era 
problemático \u2014 não estaria perigando a velha e entorpecida 
ordem latifundiária semifeudal? 
 
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 Tratava-se do oligárquico Partido Republicano Conservador, cujo 
chefe era então no Ceará o próprio presidente do Estado, Nogueira 
Acióli. 
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Se isso inquietava os coronéis do Cariri, havia outro mo-
tivo ainda para que eles se unissem, "um por todos, todos por 
um": já não era segura a posição da oligarquia que, durante oi-
to anos seguidos e mais quatro, depois de um breve intervalo, 
estava à frente dos destinos políticos do Estado. O governo 
Acióli, baseado fundamentalmente no poderio dos chefetes po-
líticos locais, fazendo a política que interessava aos latifundiá-
rios, incompatibilizara-se, de há muito, com a burguesia co-
mercial de Fortaleza, com a pequena burguesia urbana, e con-
tra ele se manifestavam os próprios operários, apesar de sua 
fraqueza numérica e de sua falta de organização. Assim, um 
dos objetivos do pacto dos coronéis era também mobilizar a 
opinião pública do Estado em favor dos Aciólis, garantindo a 
seu governo a solidariedade e o apoio de seus grupos de can-
gaço, agora unificados. 
Nem terá sido por outro motivo que relutou durante tanto 
tempo em aderir ao pacto o prefeito do Crato, o município ca-
ririense onde era maior a influência da burguesia comercial. O 
Crato constituía, de certa forma, uma excrescência nessa ali-
ança dos coronéis. Os interesses dos grandes comerciantes cra-
tenses não podiam conciliar-se de todo com os dos latifun-
diários, que constituíam a força predominante e quase absoluta 
dos demais municípios da zona. 
Nada impedia porém a marcha dos acontecimentos no sen-
tido contrário às aspirações e aos empenhados esforços dos lati-
fundiários do Cariri. Menos de quatro meses depois de assinado 
o pacto dos coronéis, era derrubada por movimento popular em 
Fortaleza a oligarquia Acióli (janeiro de 1912). Constituiu este 
acontecimento um duro golpe para os grandes proprietários ru-
rais do Cariri. Seu desarvoramento foi completo. Mas era de tal 
forma sólida ainda sua base econômica, que eles não tardaram 
em rearticular-se para o revide imediato. 
O substituto de Acióli no Governo do Estado era um ofi-
cial do Exército, Franco Rabelo, homem que desfrutava de 
ampla popularidade tanto entre a burguesia comercial como 
entre a pequena burguesia de Fortaleza e das principais cida-
des do Estado. Contaria também com o apoio declarado e ati-
vo dos portuários de Fortaleza, que foram ao palácio do go-
verno hipotecar solidariedade ao recém-eleito, logo que este se 
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viu ameaçado; dos ferroviários, que organizaram turmas para 
guardar o palácio. Carroceiros, trabalhadores de rua, bem co-
mo funcionários públicos, comerciados, estudantes, re-
vezavam-se na guarda do palácio, quando mais tarde bandos 
de capangas comandados por Floro Bartolomeu chegaram às 
portas da Capital. 
Derrubada a oligarquia impopular dos Aciólis, os latifun-
diários do Cariri não vacilaram um só instante: enviaram ime-
diatamente um emissário ao Rio de Janeiro, para entender-se 
diretamente com o Governo central. 
O emissário escolhido era Floro Bartolomeu. 
No Rio, sua missão seria fácil, embora demorada. A re-
presentação parlamentar do Ceará no Parlamento federal con-
tava com sua principal base de eleitores no interior do Estado, 
particularmente entre os coronéis do Cariri. Não se tratava de 
eleitores de cabresto. As atas eleitorais eram simplesmente 
forjadas: eleições a bico de pena, como se chamavam. Era do 
interesse dos senadores e deputados reacionários, como Fran-
cisco Sá e outros, restaurar a antiga situação em sua província, 
restabelecer os privilégios locais de suas famílias e seus gru-
pos. Do contrário, eles próprios correriam perigo num futuro 
pleito, com o desmonte de sua máquina eleitoral. Empe-
nharam-se, assim, por todos os meios, para substituir Franco 
Rabelo no Governo do Estado. 
Não constituía problema sério encaminhar as coisas com 
esse objetivo. Apenas demandava tempo, uma vez que casos 
análogos ocorriam em vários Estados, onde velhas oligarquias 
locais vinham sendo postas abaixo, muitas vezes substituídas 
apenas por novas oligarquias. O poder central era exercido de 
fato pelo chamado "homem forte'' do regime, Pinheiro Ma-
chado, presidente do Senado; o presidente da República, ho-
mem medíocre e fraco, lhe era submisso. E Pinheiro Machado 
tratava de criar condições para, a menos de dois anos da su-
cessão presidencial suprema, substituí-lo na chefia do Estado. 
As eleições eram decididas pelas camarilhas dos chefetes esta-
duais, apoiados nos coronéis do interior. Não era desprezível o 
contingente eleitoral do Ceará, e nele avultava o do Cariri. Era 
natural, portanto, que tudo se resolvesse de acordo com a von-
tade dos coronéis do Cariri. 
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Floro Bartolomeu regressa ao Ceará, em outubro de 
1913, com as credenciais de futuro Governador do Estado. Os 
representantes do Ceará no Congresso lhe haviam dado carta-
branca para agir de acordo com os interesses dos latifundiários 
caririenses, criando condições para derrubar Franco Rabelo e 
para uma intervenção federal no Estado, a qual lhes seria favo-
rável. 
Cartas divulgadas mais tarde revelam toda a trama. Um 
senador da República, Francisco Sá, escrevia ao Padre Cícero 
indicando-lhe que em Juazeiro se reuniria uma "assembléia es-
tadual" insubmissa, sob a presidência de Floro Bartolomeu. 
Declarar-se-ia assim uma dualidade de poderes legislativos no 
Estado, e o Governo federal teria razões suficientes para de-
cretar a intervenção, isto é, para afastar Rabelo do Governo es-
tadual. Quanto aos "detalhes" \u2014 acrescentava o senador \u2014 
"há um, entretanto, que me parece conveniente deixar claro 
desde já. Esse é o que se refere à eleição do presidente da as-
sembléia legal a reunir-se em Juazeiro... Esse deve ser o pró-
prio Floro, cujo nome encontrará o mais decidido apoio da po-
lítica federal"
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. O mais, Floro Bartolomeu diria por sua própria 
voz. 
Do plano à sua execução foi um passe de mágica. Ho-
mens e armas suficientes estavam à disposição de Floro Bar-
tolomeu. O Governo federal lhe dera o resto \u2014 e o essencial, 
que era dinheiro. 
Floro chega a Juazeiro, procedente do Rio, em 22 de no-
vembro de 1913, e em 9 de dezembro rebenta em Juazeiro o 
movimento armado contra o Governo do Estado. Floro Bar-
tolomeu, pessoalmente, com seus jagunços, assalta o quartel 
da Força Pública local, cuja guarda se rende sem oferecer a 
menor resistência. 
Três dias depois, como ficara assentado no Rio, reúne-se 
em Juazeiro a assembléia "legal", sob a presidência de Floro 
Bartolomeu, que era deputado estadual então. A seguir, a as-
sembléia juazeirense proclama Floro presidente temporário do 
sul do Estado. 
 
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 J. Pinheiro, ob. cit., págs. 194-195. 
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Seu objetivo