FACÓ, Rui. Cangaceiros e Fanaticos
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FACÓ, Rui. Cangaceiros e Fanaticos


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do ponto de vista po-
lítico. Os coronéis do Cariri consideravam-se agora seguros
em suas posições, vitoriosos num conflito armado contra o
Governo do Estado, que haviam conseguido substituir. Po-
diam, portanto, dispensar uma grande parte dos capangas que
tinham sido arregimentados para um empreendimento de
grande importância, fato inédito na vida do País: o assalto à
capital do Estado. Eram aproximadamente uns 5 000 homens
\u2014 um exército para a época, num Estado de população rala e
cujo total não ia além de 1 milhão de habitantes.

Cumprindo as ordens de Floro Bartolomeu, esses homens
regressaram a Juazeiro e sem dúvida alguma iriam constituir
um problema para as autoridades locais.

Terminada a luta, competia muito mais ao Padre Cícero
do que a Floro Bartolomeu resolver um sério problema: a su-
perpopulação de Juazeiro. Tratava-se de uma situação concreta
e que os "milagres" do sacerdote não podiam solucionar. Eram
milhares de homens válidos, energias transbordantes, e agora
com sua mentalidade modificada pela luta armada em que se
tinham envolvido. Aqueles meses em armas, em condições

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perfeitamente "legais", a derrota que tinham infligido às tropas
governistas, às portas de Juazeiro, a marcha vitoriosa sobre a
capital, a tomada de muitas cidades intermediárias, a deposi-
ção do governo contra o qual tinham sido mobilizados. \u2014 tu-
do isto lhes dera outra mentalidade. Muitos deles não aceitari-
am de boa-vontade a volta ao trabalho, ao cabo da enxada, on-
de viviam antes como míseros explorados, semi-servos, con-
tando apenas com a alimentação parca e a moradia por 12 ho-
ras e mais de labor estafante. De bom grado, preferiam perma-
necer como jagunços de algum fazendeiro ou sitiante. Era uma
espécie de libertação...

Mas Juazeiro não era só esses 5 000 homens armados por
Floro Bartolomeu e seus correligionários. Eram milhares e mi-
lhares de pessoas, entre a população fixa e a enorme popu-
lação flutuante, a maioria das quais, no meio da segunda dé-
cada do século, vivia mais ou menos aos deus dará. Consti-
tuíam um esplêndido manancial de mão-de-obra barata ou
quase gratuita para os fazendeiros do Cariri. Estes, que de há
muito lutavam com a escassez de braços, podiam agora ver
supridas suas necessidades.

A época, o Brasil ainda figurava como o único produtor
de borracha em larga escala para o mercado mundial. Florescia
a Amazônia com seringais nativos, sangrados por esses mes-
mos nordestinos, retirantes das secas, que lá iam viver quase
como escravos. À sua custa, enriqueciam da noite para o dia
os donos dos seringais amazonenses. Corriam lendas, por todo
o Ceará, sobre as fortunas acumuladas rapidamente com a ex-
tração da borracha. Era uma forma tradicional de atrair mais e
mais imigrantes para a Amazônia.

A formidável concentração de nordestinos em Juazeiro era
como que uma tentativa inconsciente de preservar para os coro-
néis do Cariri esses braços disponíveis e que emigravam em
ritmo alarmante. A borracha dava dinheiro? Se não era possível
a adaptação da Hevea brasiliensis no clima do Nordeste, era
possível estender por todo o vale o plantio de um arbusto facil-
mente cultivável e também produtor de látex: a maniçoba.

Enquanto Floro Bartolomeu decidia os assuntos políticos,
Padre Cícero mandava distribuir seus romeiros entre os donos
de sítios do Cariri. Deles dispunha como objetos de posse. Ci-

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ta Irineu Pinheiro o trecho de uma carta dirigida pelo Padre a
um seu encarregado de sítio na serra do Araripe, em que diz:
"Vão os 25 homens que ele [o suposto conde Adolfo van den
Brule, que acompanhara Floro Bartolomeu da Bahia a Juazei-
ro] mandou pedir" para os trabalhos de extração da borracha

3
.

Acrescenta o cronista caririense que a partir de 1889 "enche-
ram-se de romeiros as serras e os vales, os baixios e as caatin-
gas de todo o sul cearense [... ] Avultou a lavoura do Cariri,
até então carecido de braços para a cultura de suas terras". E
acrescenta "ter sido o fenômeno de Juazeiro uma das princi-
pais causas do povoamento e riqueza econômica da zona me-
ridional do Ceará"

4
.

Muito antes da luta armada dirigida por Floro Bartolo-
meu, já em 1909, João Brígido aplaudia a iniciativa do Padre
Cícero de arregimentar 2 500 romeiros para capinar uma roça
avaliada em 700 tarefas de arroz, milho e feijão, na Baixa da
Anta, a três quilômetros do Crato

5
. Mais tarde, 3 000 romeiros

eram mandados para os plantios de mandioca da serra do Ara-
ripe.

Por estes dados se percebe que Juazeiro se transformara
num grande mercado de mão-de-obra barata ou quase gratuita
para os proprietários de terra do vale do Cariri. Com a uni-
ficação temporária dos chefes políticos locais sob a égide do
Padre Cícero, os coronéis que pertenciam às suas hostes rece-
biam a sua cota-parte de trabalhadores que, conforme a tra-
dição do vale, nas épocas mais ou menos tranqüilas iam lavrar
a terra, cortar a cana, fabricar a rapadura, extrair a borracha,
colher o algodão, plantar o milho e o feijão, vaquejar o gado, e
nas épocas conturbadas pegavam de um rifle para o que desse
e viesse: em defesa da propriedade do patrão ou em assaltos
por ele ordenados.

Com a substituição do Governo estadual e o advento de
uma situação mais favorável aos coronéis do Cariri, os homens
válidos, na sua maioria, pegavam na enxada. Progredia não

3
 Irineu Pinheiro, O Cariri, Fortaleza, 1950, pág. 21.

4
 Idem, pág. 280.

5
 A. Montenegro, História do fanatismo, pág. 18. (A tarefa, no Ce-

ará, equivale a 3 600 metros quadrados.)

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apenas o cultivo da maniçoba. À falta da farinha de trigo, que
as populações interioranas nem sequer conheciam, plantava-se
mais e mais mandioca, que proporcionava a base quantitativa
da alimentação da pobreza. O crescimento da população re-
clamava maior abundância de produtos alimentares. E os cam-
pos se povoavam. Juazeiro, misto de cidade e acampamento,
com seus casebres improvisados, de gente que não tinha a cer-
teza se demoraria ali muito tempo, adquiria ares urbanos, se-
gundo o conceito vigente desde os tempos da Colônia: nas
vastidões sem fim do País, qualquer mísero burgo era conside-
rado cidade. O Crato, bem próximo, lucrava também com essa
onda de migração interna, e seu comércio crescia, estimulando
a agricultura.

Era geralmente reconhecida a falta de ambição pessoal do
Padre Cícero Romão Batista. Sabe-se que o sacerdote jamais
admitira, desde sua ordenação, receber um níquel sequer como
pagamento da celebração de atos religiosos. Era este um dos
principais motivos de sua enorme popularidade entre gente
que vivia em extrema pobreza e que, muitas vezes, trabalhava
também mediante remuneração em espécie, sem ver a cor do
dinheiro. Era como se a própria religião se adaptasse ao impé-
rio da economia natural. Pois presentes, em produtos, gados e
terras, jamais faltaram ao sacerdote. O certo é que, com o cor-
rer dos anos, o Padre Cícero teve que se adaptar ao meio onde
vivia, acumulando bens, cortejado pelos grandes proprietários,
até se tornar um deles. E foi comprando terras, pelo "bom de-
sejo de deixá-las, por sua morte [... ] para as instituições pias e
de caridade"

6
, inicialmente no vale, depois nos Estados de

Pernambuco e Rio Grande do Norte, além de numerosos pré-
dios em Juazeiro. O testemunho de Floro Bartolomeu, neste
particular, é do mais valiosos, no referente ao Padre Cícero,
suas posses, e ao favorecimento dos latifundiários do vale:
"Pelos seus esforços de homem inteligente e bem intenciona-
do, não só em Juazeiro como em toda a zona do Cariri, a agri-
cultura foi sendo pouco a pouco desenvolvida. A medida posta
em prática para esse fim patriótico foi de colocar-se nos sítios
dos amigos as pessoas