FACÓ, Rui. Cangaceiros e Fanaticos
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FACÓ, Rui. Cangaceiros e Fanaticos


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pobres que iam chegando, resolvidas a 
 
6
 Juazeiro e o padre Cícero, pág. 32. 
166 
fixar residência [... ] De forma que os proprietários foram au-
ferindo melhores lucros pela maior produção"
7
. Acrescenta o 
caudilho que o sacerdote, "para estimular os romeiros, também 
fazia grandes plantios por sua conta". E esclarece em nota de 
pé de página: "Deve-se exclusivamente ao Padre Cícero o 
plantio da maniçoba na serra do Araripe em uma área de cerca 
de dez léguas"
8
. E ainda em referência ao sacerdote milagrei-
ro: "... ele é o maior agricultor do Cariri..." 
A essa época, o Padre Cícero organizara, ele mesmo, uma 
relação de suas propriedades, pela ordem alfabética de suas 
denominações. Tantas eram! E naquele mesmo ano em que 
Floro Bartolomeu lhe fazia o elogio na Câmara Federal, redi-
gia o Padre seu testamento, que é uma espécie de síntese de 
sua vida até então. Aí são enumeradas 5 fazendas, 30 sítios, 
além de vários terrenos, ou lotes de terra, prédios urbanos, cu-
jo total, pelo testamento, é impossível avaliar. Menciona, por 
exemplo, 15 "prédios" (casas térreas) e sobrados (casas de dois 
pavimentos) em Juazeiro, faz referência a "um quarteirão de 
prédios", sem dizer quantos, na Rua São Pedro, na mesma ci-
dade; cita, de maneira imprecisa, como propriedade sua, o 
prédio onde funciona a cadeia pública, "bem como os demais 
que se seguem contiguamente à mesma rua e na Rua Padre Cí-
cero", de forma que, pelo documento em apreço, não se sabe 
exatamente quantos imóveis urbanos possuía o sacerdote. 
Além disso, tinha criação de gado, não se conhecendo porém o 
número de reses. 
Era uma fortuna regular para a época e para o meio. Ha-
via ultrapassado, em posses, antigas e tradicionais famílias de 
grandes fazendeiros do vale, sendo sua origem a de uma mo-
desta família pobre. 
Nascido aí, vivendo aí, desfrutando aí de enorme popu-
laridade, dispondo de tudo quanto fazia de alguém um coro-
nel, por que não seria ele um coronel? Apenas por que vestia 
batina, ordenara-se padre, fazia "milagres"? Na verdade, nada 
diferenciava o Padre Cícero Romão Batista de qualquer dos la-
 
7
 Idem, pág. 44. 
8
 Idem, pág. 45. 
167 
tifundiários da zona. Utilizava, e em enorme escala, os mes-
mos métodos familiares àqueles, como dar abrigo a capangas e 
cangaceiros e aproveitá-los ou permitir que outrem os apro-
veitassem para a consecução de objetivos políticos que tam-
bém eram os seus. 
Pode-se argumentar: o Padre não tinha ambições políti-
cas, tanto que eleito vice-presidente do Estado, por mais de 
uma vez, não foi nunca a Fortaleza tomar posse de seu cargo, 
nem tampouco exerceu o alto mandato de deputado federal 
que lhe haviam confiado seus romeiros. Sim, sua ambição po-
lítica era limitada ao meio em que vivia. Mas, de onde lhe vi-
nha o prestígio entre aquela massa que o cercava, senão da 
convivência diária com ela, do sermão cotidiano à multidão 
aglomerada em frente a sua casa, da esperança dos romeiros 
em seus "milagres"? Porque o sacerdote nem uma só vez de-
sautorizou os consabidos embustes apresentados como mila-
gres seus, preferindo, pelo silêncio, alimentar a crença de que 
era capaz de fazê-los. Com sua cultura restrita, sua mentali-
dade provinciana, seus parcos dons tribunícios, ele devia ter 
suficiente bom-senso para reconhecer que fora de Juazeiro, 
mesmo em Fortaleza, muito menos no Rio, teria um papel 
mais do que medíocre, apagado. 
Além disso, abandonar os romeiros seria perdê-los. Au-
sentar-se de Juazeiro, seria despojar-se do principal motivo de 
atração daquela onda humana permanente que demandava o 
Cariri, e da qual já não podiam prescindir os donos de sítios e 
engenhos e o próprio comércio das cidades do vale. 
Neste ponto, Floro Bartolomeu mais uma vez nos traz 
seus depoimento preciosos para uma justa apreciação da reali-
dade da época. Replicando a palavras do Dr. Morais e Barros, 
chefe de uma comissão federal que fora a Juazeiro e apre-
sentara ao Governo um relatório bastante negativo sobre a si-
tuação da cidade, o caudilho caririense dizia, com bastante 
acuidade e sinceridade não menor: "Se S.S. fosse um homem 
de critério na observação, perceberia que o único risco a se 
temer, depois da morte daquele sacerdote, é grande parte da 
população, coagida por perseguições ou desolada pela sua fal-
ta, abandonar o lugar, dando vultoso prejuízo ao Estado, pela 
168 
diminuição da lavoura, redução do comércio e falta de braços 
para o trabalho útil e compensador"
9
. 
É a prova cabal de que os grandes proprietários de terra 
do Cariri, entre eles o Padre Cícero, tinham interesse na con-
centração de "fanáticos" em Juazeiro, precisamente como re-
serva de mão-de-obra barata. 
Deve-se observar que, no mesmo discurso perante a Câ-
mara, Floro Bartolomeu foi mais longe na defesa dos interes-
ses dos latifundiários da zona, acusando os governos de facili-
tarem "criminosamente a deslocação dos flagelados nordesti-
nos para o sul do País"
10
. E diz em nota acrescentada ao dis-
curso: "Se não fosse a população de Juazeiro, a cultura de al-
godão de grande parte do sertão da Paraíba desapareceria. 
Atualmente, na época da colheita, seguem para os municípios 
de Souza, Cajazeiras, São João do Rio do Peixe, São José de 
Piranhas e outros, cerca de cinco mil pessoas, na maioria mu-
lheres"
11
. 
Assim, os fatos evidenciam uma acirrada disputa entre la-
tifundiários do Extremo Norte e do Sul com os do Nordeste 
pelo controle e utilização desse manancial de mão-de-obra 
semi-servil, que a tudo se sujeitava. É uma luta que não cessou 
até hoje. O Sul, já então, começava a ganhar terreno, apesar da 
distância, graças ao seu ritmo mais intenso de de-
senvolvimento econômico e, portanto, maior capacidade de 
absorção de mão-de-obra. Nas épocas de seca, deslocam-se 
para aquela região grandes contingentes de nordestinos que a 
economia do Nordeste não tinha possibilidade de manter du-
rante os períodos de estiagem. 
O Cariri, com os "milagres" do Padre Cícero e a esper-
teza de Floro Bartolomeu, funcionava como válvula de con-
tenção da sangria enorme que desfalcava permanentemente as 
reservas humanas do Nordeste. O grande perigo estava em 
perder essas reservas. 
 
 
9
 Ob. cit., pág. 153. 
10
 Idem, pág. 13. 
11
 Idem, pág. 90 
169 
6 
 
 
 
 
Apogeu do Cangaceiro 
e do Jagunço 
 
Não poupe bandido. Execute-os 
sumariamente. (Ordem do presidente 
do Ceará a um comandante de tropas 
no sertão.) 
 
 
 
 
 
 
 
 
DUROU MENOS DE TRÊS MESES A IN-
tervenção federal no Ceará. Em junho de 1914, o interventor 
era substituído por um presidente eleito para completar o pe-
ríodo do governo derrubado pelos coronéis do Cariri. 
Em setembro de 1915, um acontecimento fortuito vem 
abalar a facção dos grandes proprietários de terra: o assassínio, 
no Rio, do caudilho nacional Pinheiro Machado. Com sua 
morte, cai por terra todo um esquema já montado e an-
tecipadamente considerado vitorioso para a sucessão à Pre-
sidência da República, no qual era ele o candidato indiscutido. 
Já antes, a vitória fácil restaurara o anterior status quo no 
Cariri: os chefes políticos locais tinham voltado a suas rixas e 
conflitos armados. Em meados de 1915, alguns chefetes inves-
tem, com 300 homens, contra a vila de Porteiras, defendida 
por uma guarnição da Polícia Militar do Estado. Esta é desba-
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ratada e posta em fuga. A situação atinge tal gravidade que é 
sugerido o estabelecimento de unidades do Exército nos ser-
tões do Nordeste. Faz-se, durante anos, uma verdadeira cam-
panha neste sentido. Isto, naturalmente, correspondia aos dese-