FACÓ, Rui. Cangaceiros e Fanaticos
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FACÓ, Rui. Cangaceiros e Fanaticos


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secundária o fato de ficarem
presos aos cofres dos capitalistas locais os donos dos sítios e
engenhos de rapadura. O importante é que os elementos da
economia natural iam sendo eliminados, ainda que lentamente,
ante a penetração capitalista. Ê verdade que esta não erradica-
va por completo os restos feudais, que ainda hoje subsistem.
Mas contribuía para um relativo progresso, para a substituição
do engenho de madeira pelo de ferro, do engenho puxado a

1
 José Figueiredo Filho e Irineu Pinheiro, Cidade do Crato, Ministério de

Educação e Cultura, Rio, 19SS, pág. 32.

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bois pelo engenho movido a motor, um maior emprego do tra-
balho assalariado e mesmo do trabalho feminino. Interessante
observação a este respeito faz Irineu Pinheiro quando escreve
que "as crises climáticas periódicas produziram no Nordeste
importantes efeitos sociais, ensinando os homens a emigrar, as
mulheres a trabalhar fora do lar" [... ] "No campo \u2014 acrescen-
ta \u2014 as mulheres tudo fazem: plantam roças, limpam-nas e as
colhem. Auxiliam os vaqueiros ordenhando, de manhãzinha,
as vacas, chiqueirando, à tarde, os bezerros"

2
.

A maior oferta de mão-obra propiciou o incentivo de no-
vas culturas ou o aumento da área de culturas já existentes e
tradicionais, como a mandioca.

O crescimento vertiginoso de um novo núcleo populacio-
nal, como era Juazeiro, o aumento da população de outras ci-
dades do vale, como reflexo do seu surgimento, foram, por sua
vez, poderoso incentivo ao florescimento da agropecuária lo-
cal, que passava a contar com um mercado mais amplo para a
sua produção.

Devido ao atraso da técnica, à rotina generalizada, ao len-
tíssimo entrelaçamento do Cariri com outras zonas, o seu pro-
gresso econômico fora retardado. Processava-se quase exclu-
sivamente em função do desenvolvimento interno. Seu princi-
pal fator, no início do século XX, foi o crescente desloca-
mento das populações interioranas. Este deslocamento, em
vasta escala a partir da última década do século XIX, agiu co-
mo um acicate sobre a estagnação do Cariri, estimulando o
fomento de sua economia.

No vale úmido, as terras, ainda que mal aproveitadas,
permaneciam indivisas, monopolizadas pelos antigos senhores
de engenho e donos de sítios. A tradição, atribuindo foros de
nobreza aos possuidores de latifúndios, ao lado da falta de ca-
pitais e da ausência de meios técnicos adiantados, mantinha a
imobilidade rural.

Foi essa imobilidade da propriedade territorial, mergu-
lhada em seu atraso secular, que, ante a onda humana que aflu-
iu em poucos anos para o Cariri, atraída pelos "milagres" do

2
 Irineu Pinheiro, O Cariri, pág. 120.

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Padre Cícero, gerou o artesanato em Juazeiro em proporções
inéditas.

A partir do começo do século, quando se consolida o
prestígio religioso e político do sacerdote e se dá na prática
sua beatificação em vida, inicia-se, nesse ajuntamento ainda
disforme, a fabricação de objetos de uso corrente, tais como
potes, rendas, labirintos, esteiras, que os acampados de Jua-
zeiro iam vender na tradicional feira do Crato ou em outras ci-
dades vizinhas. Era o seu único meio de vida possível em tais
condições. Os sítios não podiam absorver, senão lentamente,
uma parcela daquela população adventícia. Pois, nos começos
da formação do povoado, não havia casas para os recém-
chegados, que se abrigavam debaixo de árvores. Ainda muito
mais tarde, já nos começos do século atual, os romeiros fica-
vam ao relento, nas ruas ou sob latadas improvisadas. A popu-
lação flutuante era enorme. Ondas que vinham, ondas que re-
fluíam, "dias de chegarem 500 pessoas e até mais", segundo
informa um dos secretários particulares do Padre Cícero, na
juventude, o engenheiro Pedro Coutinho

3
. Essa gente, vivendo

ao léu, tinha como única possibilidade imediata de sobrevi-
vência a confecção de objetos de fabricação tradicional no
campo, utilizando os materiais que lhes eram mais acessíveis,
como barro, cipós, palhas de palmeiras nativas. Mais tarde,
com o aparecimento das primeiras oficinas, vêm os objetos
de culto religioso: medalhas, imagens de santos e, sobretudo,
efígies e estatuetas do Padre Cícero, que passam a ser vendi-
das em quantidade fabulosa por todo o Nordeste. Estende-se
toda uma rede de comércio desses objetos, além dos limites
de Juazeiro e do próprio Cariri. Instalam-se novas e novas
oficinas, concentrando os artesãos, dando trabalho a uma
parcela dos adventícios que não são mandados para os sítios
e engenhos. A falta ou escassez de numerosos bens de con-
sumo determina o aparecimento de outras oficinas ou de pe-
quenas fábricas: de redes \u2014 o leito comum do nordestino e
em particular do cearense \u2014, calçados, chapéus, objetos de
cutelaria, espingardas, pólvora, fósforos, artefatos de couro,
relógios de parede e de torres de igreja, sinos para os templos

3
 Informação prestada ao Autor.

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católicos, mas, principalmente, objetos de ourivesaria, ini-
cialmente ligados ao culto religioso, mais tarde, para fins de
adorno.

Assim surgiu no Cariri um centro urbano baseado fun-
damentalmente no artesanato, em escala desconhecida no Pa-
ís, dadas as suas proporções e variedades. É possível que Ju-
azeiro tenha congregado todo um artesanato doméstico antes,
disperso, não só dos arredores, como dos Estados vizinhos.
Inicialmente, o artesão caririense, como o da Antigüidade,
confunde-se com o camponês, limita-se à fabricação de obje-
tos com a matéria-prima de origem rural. Pouco a pouco, na
medida em que cresce o comércio artesanal, passa a trabalhar
em oficinas melhor aparelhadas e a diversificar sua produ-
ção. Dá-se então a separação completa do artesão do traba-
lhador rural. O antigo artesão rural urbaniza-se, modifica-se
sua mentalidade, passa a -constituir uma camada social per-
feitamente caracterizada.

Dessa indústria artesanal, estritamente ligado a ela, surge
todo um comércio especializado, que, de início, apenas distri-
bui a sua produção, e, mais tarde, passa a financiá-la e a con-
tratá-la, determinando uma crescente diferenciação social no
seio do artesanato: donos de oficinas, uns independentes, ou-
tros submetidos aos comerciantes financiadores e um maior
número de artífices que recebem salários, particularmente me-
nores de idade, de mãos mais ágeis e a quem pagam menos.

Para aquele artesanato que crescia e que passava a cons-
tituir o principal setor da economia do município, uma ativi-
dade antes aleatória tornava-se agora permanente. Antes dis-
persa em milhares de choupanas sertanejas, estava agora con-
centrada. Antes destinada quase exclusivamente ao próprio
uso do artesão, destinava-se agora ao mercado. Pode-se ima-
ginar o que esta atividade artesanal-mercantil vinha represen-
tar para libertar um elevado contingente de homens que até en-
tão viviam submetidos aos grandes proprietários rurais.

Em conseqüência, as rendas do município cresceram, ao
mesmo tempo que uma camada desta nova classe enriquecia
mediante a crescente utilização do trabalho dos artesãos.

Em 1923, Floro Bartolomeu, em seu discurso de defesa
da situação em Juazeiro, menciona dados que mostram um

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considerável incremento da riqueza local em poucos anos. As
rendas da Coletoria Federal do município havia passado de 2
contos 440 mil-réis, em 1916, para 36 contos 550 mil-réis, em
1923

4
. Isto numa época em que a moeda estava praticamente

estabilizada, não havendo aí nenhum efeito sensível de desva-
lorização. Representava, assim, um aumento de aproxi-
madamente 15 vezes em sete anos. Mesmo levando-se em
conta que se partia quase que da estaca zero, não só devido ao
atraso