FACÓ, Rui. Cangaceiros e Fanaticos
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FACÓ, Rui. Cangaceiros e Fanaticos


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da economia, como à sua desorganização, o fato revela 
um notável desenvolvimento econômico de Juazeiro e uma 
certa ordem em sua administração e finanças. 
Este incentivo econômico tinha lugar em todo o Cariri. 
Na vizinha cidade do Crato, funda-se, em 1921, a primeira ins-
tituição de crédito do sul do Estado, o Banco do Cariri
5
. Em 
1920, chegara ao Crato o primeiro automóvel e, um lustro 
mais tarde, a via férrea atingia Juazeiro e Crato, ligando-as a 
Fortaleza. 
Era o progresso tardio em relação a regiões mais adian-
tadas do próprio Brasil. A estrada de ferro chegava ao sul do 
Ceará mais de 70 anos depois de haver corrido a primeira lo-
comotiva em terras brasileiras. Mas eram indicações impor-
tantes de um desenvolvimento de tipo capitalista, tendo por 
base um relativo desenvolvimento da agricultura em todo o 
Cariri, ainda que nela subsistissem as relações pré-capitalistas 
de produção. 
Não era um fenômeno isolado. Acontecia como se ao Ca-
riri chegassem, nas primeiras três décadas do século, os re-
flexos de um abalo cujo epicentro se achava a grande dis-
tância, no sul do País. Não fora naturalmente uma explosão, 
mas, de qualquer forma, sacudira a modorra econômica em 
que estava mergulhado o Brasil. A Primeira Guerra Mundial, 
determinando uma série de restrições ao comércio exterior, 
forçara a fundação de novas indústrias, ainda que de bens de 
consumo, na sua quase totalidade. O fato é que, em 1920, o 
operariado brasileiro tinha quase sextuplicado seus efetivos, 
em relação à época da Proclamação da República, atingindo, 
 
4
 Floro Bartolomeu, ob. Cit. pág. 170 
5
 R. Girão e A. Martins Filho, O Ceará, Fortaleza, 1939, pág. 160 
182 
aproximadamente, a casa dos 300 000. Somente de 1915 a 
1919, tinham entrado em funcionamento cerca de seis mil no-
vas empresas industriais. Registrava-se, é verdade, uma crise 
na produção e no comércio do café, mas a expansão da in-
dústria açucareira, que interessava então particularmente ao 
Nordeste, vinha compensar em grande parte as perdas. De uma 
exportação de açúcar da ordem de 5 000 toneladas, em 1913, 
passávamos a 252 000, em 1922. O valor da produção indus-
trial aumenta de mais do dobro, entre 1914 e 1920
6
. 
A influência deste desenvolvimento sobre as cidades foi 
enorme. Mesmo no Nordeste. Vemos então a população de 
Fortaleza, que estivera estagnada e, inclusive, diminuíra em 
1890, em relação ao índice 10 para o ano de 1872, atingir um 
incremento de 85 por cento, em 1920. Quase dobrara, portan-
to. E a maior parte desse crescimento se verificara nos primei-
ros vinte anos do século. 
Assim, tanto fatores internos, nordestinos, como externos 
\u2014 em particular a crescente atração do desenvolvimento in-
dustrial do Sul sobre as populações interioranas \u2014 contribuem 
para modificar a fisionomia do Nordeste e, também, do vale 
do Cariri. 
A essas mudanças de ordem econômica deve-se acres-
centar a efervescência política que empolgou o País, ao ini-
ciar-se a década de 20. Os efeitos psicológicos da Primeira 
Guerra Mundial, as agitações operárias que se seguiram ime-
diatamente à revolução socialista na Rússia, determinando 
uma formidável onda de greves e agitações operárias e popu-
lares no Rio, em São Paulo, no Recife, o crescimento da pe-
quena burguesia urbana e suas aspirações de um lugar ao sol, 
deram como conseqüência a fundação do Partido Comunista 
Brasileiro, em 1922, e uma espetacular tentativa de rebelião 
armada, resumida ao levante do Forte de Copacabana e se-
guida, em 1924, de uma mais séria sublevação de tropas em 
São Paulo e no Rio Grande do Sul. Desta última saiu a Coluna 
Prestes, como um rastilho de pólvora a arder pelos sertões do 
 
6
 J. F. Normano, Evolução econômica do Brasil, 2.ª ed., São Paulo, 1945, 
pág. 139. 
183 
Brasil. Na sua longa marcha de sacrifícios e heroísmo, durante 
dois anos, a Coluna, não obstante a ausência de objetivos con-
cretos, de longo alcance, de seus chefes, foi um elo de ligação 
entre a cidade e o campo, uma aragem dos novos ventos que 
sacudiam a vida urbana, despertando a consciência revolucio-
nária entre as massas oprimidas das populações rurais. 
Os "revoltosos", como eram chamados no Nordeste os 
homens da Coluna Prestes, se mobilizavam contra si o ódio 
dos chefetes locais e dos grandes latifundiários \u2014 e é sinto-
mático como, por instinto, se lançaram à sua perseguição os 
coronéis da mais elevada categoria, aqueles que contavam 
com os maiores exércitos de jagunços \u2014 tinham os "revolto-
sos" a seu favor a admiração sem limites da pequena burguesia 
e dos trabalhadores das cidades e do campo. Os pobres e hu-
mildes lhes votavam grande simpatia, reforçavam-lhe os con-
tingentes, davam-lhe toda a ajuda possível. 
A passagem da Coluna Prestes pelo Ceará deu azo ao pri-
meiro teste negativo do prestígio do Padre Cícero e de Floro 
Bartolomeu. 
Em 1926, Lampião é chamado a Juazeiro, com o objetivo 
predeterminado e a aquiescência das próprias autoridades fe-
derais, de armá-lo para dar combate à Coluna. Floro Barto-
lomeu recebe dinheiro do Governo central com esta finalidade 
expressa: armar capangas contra os "revoltosos". Não foi Flo-
ro, dizem, mas um seu lugar-tenente, Pedro Silvino, quem teve 
a idéia de mobilizar precisamente o chamado Rei do Cangaço 
para lançá-lo contra a Coluna
7
. O certo é que Lampião entra 
em Juazeiro, acompanhado de um contingente de uns 40 ca-
pangas, conversa com o Padre Cícero, recebe uma falsa paten-
te de capitão do exército e avultada quantidade de armas e 
munições. Obtém a benção do Padre Cícero, a quem promete 
regenerar-se, e segue seu destino. Mas se escolhe um caminho, 
é qualquer outro que o distancie da Coluna. Jamais procurou 
entrar em contato com ela
8
, dela deve ter sempre fugido, tal a 
fama de valor de seus componentes. Mas não há dúvida de que 
 
7
 Informação prestada ao Autor pelo Eng.° Pedro Coutinho. 
8
 Informação de Luís Carlos Prestes ao Autor. 
184 
o principal motivo por que Lampião não tratou jamais de 
cumprir seu trato com os chefes de Juazeiro foi precisamente a 
popularidade que desfrutava a Coluna, a glória de seu coman-
dante, a repercussão de seus feitos entre as populações rurais. 
Lampião saíra daquela mesma gente simples, cujos filhos in-
gressavam voluntariamente nas fileiras da Coluna, e via quem 
a perseguia como cães de fila: os coronéis, os grandes fazen-
deiros. Isto, muito embora Floro Bartolomeu lançasse mão de 
sua capangada para tentar impedir a passagem da Coluna pelo 
sul do Ceará. 
Em março de 1926, morre o caudilho Floro Bartolomeu 
da Costa. Seu desaparecimento coincide com a curva acen-
tuada da decadência da influência do Padre Cícero e da sua 
própria como chefe político. Nem um nem outro era mais árbi-
tro dos destinos do Estado ou mesmo do Cariri. Contam pes-
soas que o conheceram que nos últimos anos de vida, já en-
fermo, era-lhe indiferente viver. Talvez sentisse que sua época 
havia passado, que estava próximo o fim dos coronéis. Que 
mais ambicionava na vida? De médico sem clientela e aventu-
reiro dos sertões subira a prefeito de Juazeiro, chefe de um 
movimento sedicioso que derrubara o Governo do Estado, de-
putado estadual, presidente da Assembléia e do "Governo pro-
visório" do sul do Ceará entre o começo da sedição e a queda 
de Franco Rabelo, deputado federal, comissionado pelo Go-
verno da República para dar combate à Coluna Prestes no Ca-
riri... Esta a sua extraordinária carreira \u2014 de chefe de capan-
gas a membro preeminente do mais alto parlamento da Repú-
blica. Dentro dos conceitos da moral vigente entre as classes 
dominantes, era uma carreira lógica e natural, de autêntico