FACÓ, Rui. Cangaceiros e Fanaticos
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FACÓ, Rui. Cangaceiros e Fanaticos


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triota. 
Floro Bartolomeu da Costa teve, em seus funerais, a co-
roação da trajetória que havia seguido, recebeu as honras ofi-
ciais de general do Exército Brasileiro. Troaram em sua me-
mória as salvas dos canhões... 
Era o começo dos funerais dos coronéis. 
 
185 
 
 
8 
 
 
Última Fase da 
Guerra Civil Nordestina 
 
Toquem para Penedo. O mundo 
não tem mais lugar para mim. 
(Palavras do coronel José Abílio 
ao fugir, em 1927, de Pernambuco para 
Alagoas.) 
 
 
 
 
 
 
ANTES MESMO DO FALECIMENTO DE Floro Bartolomeu, 
os governos estaduais do Nordeste vinham tomando medidas 
cada vez mais enérgicas de repressão aos grupos de cangacei-
ros. Em 1922, é assinado um convênio interestadual entre os 
governos do Ceará, Pernambuco, Paraíba e Rio Grande do 
Norte objetivando ações conjugadas na perseguição aos ban-
dos volantes do cangaço. Eram franqueadas as respectivas 
fronteiras para o trânsito das tropas perseguidoras. Fronteiras 
jamais tinham existido para os grupos de bandoleiros, que, 
perseguidos num Estado, acoitavam-se no território de outro 
Estado. Os coiteiros eram amigos e correligionários entre si e 
tampouco tomavam conhecimento dos limites administrativos 
oficialmente traçados. Suas propriedades muitas vezes se en-
contravam tanto no Ceará como em Pernambuco, em Pernam-
buco como em Alagoas. Por isso mesmo, o convênio interes-
186 
tadual previa também "medidas contra os asiladores de bandi-
dos", os coiteiros. 
Durante vários anos, tais medidas haviam sido mais ou 
menos inócuas. Algumas vezes, os grandes proprietários con-
seguiam manobrar com tanta habilidade que lançavam as for-
ças da polícia do Estado contra seus adversários locais ou, en-
tão, mediante falsas informações, as fazendas destes eram ata-
cadas sob o pretexto de que abrigavam cangaceiros. Outras 
vezes estavam em jogo questões de terra, nas quais as forças 
policiais eram envolvidas, voluntariamente ou não, a serviço 
de um latifundiário contra outro. 
Mas era um acontecimento denunciador da mudança a 
violação da soberania de um grande fazendeiro, desde sem-
pre senhor absoluto, cujos domínios eram intocáveis. Diz, a 
propósito, um senhor de engenho, referindo-se a essa época: 
"Polícia e justiça dentro de suas terras eram eles [. . . ] As au-
toridades e a polícia respeitavam os engenhos, alguma vezes 
coito de criminosos defendidos e inatingíveis como tabus sa-
grados [. . . ] Certos senhores arrogantes não permitiam a 
mais razoável visita da polícia às suas propriedades. Reputa-
vam-na um ultraje, de que cuidavam de desafrontar-se fosse 
como fosse"
1
. 
E não era só isso. Existia um verdadeiro entrosamento, 
uma grande harmonia entre coiteiros e chefes políticos locais e 
mesmo governadores de Estado. Uns necessitavam do apoio 
político dos outros e se entendiam às mil maravilhas, condes-
cendendo com os coiteiros. Testemunha-o um governador de 
Estado dos mais atingidos pelo cangaço e onde ao mesmo tem-
po o jaguncismo imperava. Escrevia ele em mensagem ao 
Congresso Legislativo do Estado de Alagoas: "Se pesquisar-
mos a vida abominável de cada um desses indivíduos, de que 
se encontram, pelo sertão, exemplares muito fáceis de reco-
nhecer e distinguir, veremos que a de todos eles começou qua-
se sempre de modo idêntico. Praticado o primeiro crime, hou-
ve quem protegesse o criminoso, ocultando-o ou conservando-
 
1
 Júlio Belo, Memórias de um Senhor de engenho, Rio, 1938, pág. 
183 
187 
o acintosamente em sua companhia. A política quis ir buscá-
lo. O protetor recorreu ao chefe político. A justiça pretendeu 
submetê-lo às penas da lei. O chefe político recorreu ao Go-
verno. O Governo, por meios indiretos, atendeu ao chefe po-
lítico, porque tinha a ilusão \u2014 e quantos ainda continuam ten-
do! \u2014 de que só há uma forma de governar: condescender 
com os abusos das influências locais para que estas alimentem 
a popularidade do Governo"
2
. E acrescentava: "Muitos propri-
etários agrícolas consideram invioláveis as suas terras, quando 
é a polícia que nelas penetra; mas acham-se sempre prontos a 
dá-las como abrigo aos criminosos"
3
. 
A mensagem do governador de Alagoas data de 1925. 
Nessa época, já estava sendo quebrada a inviolabilidade do la-
tifúndio. Alguns anos antes, mesmo, não era mais intocável a 
grande propriedade. De 1922 encontramos um depoimento re-
velador. Um dos maiores e mais afamados fazendeiros do sul 
do Ceará, coronel José Inácio, conhecido senhor da fazenda do 
Barro, tinha suas terras invadidas pela polícia militar estadual, 
que desarma seus capangas, detém o próprio fazendeiro para 
interrogatório e apreensão de armas, embora logo em seguida 
lhe desse fuga
4
. 
Os governos estaduais viam-se na emergência de tomar 
providências acauteladoras, que visavam ao mesmo tempo os 
grupos volantes de cangaceiros e os jagunços a serviço dos co-
ronéis, como pistoleiros seus. Já havia entre os governadores 
de Estado uma consciência de que a situação poderia agravar-
se seriamente e por em perigo a estabilidade da própria admi-
nistração estadual, a exemplo do que ocorrera no começo do 
século no Ceará. Em 1926, falando numa reunião de chefes de 
polícia dos Estados do Nordeste, no Recife, o governador de 
Pernambuco, Estácio Coimbra, dizia: "O sertão vive descurado 
pelos governos, sem instrução, sem assistência de saúde, sem 
transportes, e, numa vasta extensão, entregue aos mandões po-
líticos que são, como afirmei na minha plataforma, responsá-
 
2
 Pedro da Costa Rego, Mensagem, Maceió, 1925, pág. 22. 
3
 Idem, pág. 24. 
4
 A. Montenegro, História do cangaceinsmo, pag. 85. 
188 
veis pelo desenvolvimento do banditismo que eles coroçoam e 
protegem"
5
. 
Sempre fora assim. Os governos estaduais apoiavam-se 
precisamente nesses mandões locais para ganhar eleição e 
mesmo para "manter a ordem" no interior, contra a gente po-
bre. A paga que lhe davam era a proteção, até mesmo pelas 
armas, de seus latifúndios imensos, delegando-lhes poderes de 
governo em todos os setores da coisa pública. 
Por que a mudança agora, na década de 20? Porque já se 
sentiam fortes com o apoio da burguesia urbana, cujos in-
teresses, em medida crescente, contrapunham-se aos interesses 
dos latifundistas. 
O empreendimento, decerto, não era fácil. Demandava 
vultosas verbas, aumento das forças de polícia e seu municio-
namento, transportes e meios de comunicação, extremamente 
precários na época. Isso sem levar em conta que teriam de en-
frentar inúmeras ciladas armadas pelos coronéis, perfeitos co-
nhecedores de seu meio e onde tudo permanecia submetido a 
seu comando. 
Tratava-se, porém, da disputa de uma hegemonia, num 
conflito que vinha de longa data e duraria ainda muitos anos. 
A própria burguesia vacilava em golpear de rijo o poder dos 
coronéis. Temia que com o seu desaparecimento ou o enfra-
quecimento de sua autoridade deflagrasse uma generalizada 
insurreição de pobres no campo. Embora excepcionalmente os 
latifundiários já tivessem seus domínios devassados, muito de 
seu antigo poderio era mantido. Não perdiam a guarda de suas 
fazendas, os jagunços, os capangas, os cabras. O mesmo ci-
tado governador de Alagoas informa ter mandado apreender 
armas dos "indivíduos habituados a viverem armados", "aberta 
uma única exceção para os vigias das fábricas e propriedades 
agrícolas"
6
, isto é, os capangas do coronel. Era, portanto, um 
desarmamento parcial. 
Na década de 20, não há exagero em afirmar-se que es-
tavam em armas, pelos sertões do Nordeste, alguns milhares 
de cangaceiros. Os grupos haviam-se multiplicado e atuavam 
 
5
 Idem, pág.