FACÓ, Rui. Cangaceiros e Fanaticos
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FACÓ, Rui. Cangaceiros e Fanaticos


DisciplinaHistória e Historiografia551 materiais4.430 seguidores
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o fim. 
O golpe contra os coronéis vinha desferido do alto, não 
era iniciativa regional e, mesmo sem liquidar com o seu do-
mínio econômico, restringe-lhes os poderes políticos e lhes 
subtrai de muito a faculdade de árbitros incontestes da situa-
ção das comunas interioranas. 
Eis um documento interessantíssimo dessa realidade no-
va, que infelizmente não seria conduzida com plena conse-
qüência: "Nota do Governo de Pernambuco: "1.°) Nenhum 
prefeito ou quem quer que se julgue com prestígio partidário 
se intitulará chefe político. O Governo condena, de modo mais 
peremptório, esta instituição, que concorreu poderosamente 
para transformar o ambiente político nacional em corrilhos 
pessoais..." "2.°) Em conseqüência, os prefeitos se limitarão a 
administrar os municípios: cortarão as verbas inúteis; dimi-
nuirão as excessivas; manterão o pessoal estritamente necessá-
 
4
 Idem, 11-2-1931. 
5
 Otacílio Anselmo, O Ceará na revolução de 30, 2.ª ed., Crato, 
1957, pág. 38. 
198 
rio ao serviço público; escolherão funcionários de idoneidade 
comprovada, evitando as nomeações que tenham visos oligár-
quicos". E adiante: "Os prefeitos não interferirão em assuntos 
policiais, que ficam a cargo das autoridades respectivas. Tais 
autoridades, por sua vez, jamais se entenderão com os pre-
feitos sobre assuntos que digam respeito à sua função, uma 
vez que nenhuma hierarquia têm os mesmos prefeitos sobre as 
autoridades policiais"
66
. 
Neste ato governamental, datado de novembro de 30, isto 
é, poucos dias depois da vitória do levante armado, é evidente 
a intenção de cortar as asas dos coronéis do interior ou de pos-
síveis prepostos seus, retirando-lhes a força de polícia que fi-
caria subordinada diretamente ao Governo do Estado. É a bur-
guesia procurando impor sua presença nos próprios e tradicio-
nais domínios do latifúndio. Ela é que nomeia os prefeitos das 
municipalidades. Determina-se, mais tarde, o controle das fi-
nanças municipais por meio da fiscalização, segundo a Carta 
Constitucional de 1934. Não é um choque violento, mas é uma 
investida da burguesia, que alcançara maior parcela de Poder 
pela força das armas, tentando reduzir a área de ação dos che-
fetes locais, os latifundiários. A decadência econômica, a ruína 
crescente de seus domínios, na razão direta do ascenso eco-
nômico e político da burguesia urbana. 
É preciso, como amargo testemunho deste processo, o 
depoimento de um senhor de engenho do Nordeste relativo 
àquela época. Escreve ele ipsis litteris; 
"Depois da aventura política de 1930 [sobreveio] um pe-
ríodo de desassossego e de desordens em alguns engenhos... A 
palavra de ordem era o achincalhe e a desmoralização dos 
proprietários rurais, de política diversa da de supostos "pala-
dinos" revolucionários... Muitos senhores de engenho foram 
chamados à presença de simples sargentos, delegados de polí-
cia, e injuriados baixamente como se fossem malfeitores, in-
dignos de melhor tratamento por parte das autoridades... Os 
atentados contra os proprietários [de terras] foram muito fre-
qüentes depois daquele desabamento político... Esta situação 
 
6
 A Tarde, Salvador. 5-11-1930. 
199 
de desgoverno, de insegurança e de perseguições políticas, que 
sucedeu à revolução de 30, entibiou o ânimo de muitos propri-
etários agrícolas..."
7
 
Não se julgue, por isso, que houve uma ruptura completa 
e definitiva entre a burguesia e o latifúndio. A velha aliança 
anteriormente existente fazia-se agora sob uma nova fórmula, 
numa inversão de papéis: quem estava por baixo passa para 
cima. O conluio continua. 
O primeiro interventor do Ceará após o movimento de 
30, Fernandes Távora, compreende e expressa perfeitamente 
esta manobra. Ao assumir o governo, telegrafa amabilidades 
ao Padre Cícero, confiante em sua "boa-vontade"
8
. 
Diz Irineu Pinheiro que, "depois de 1930, em vez de co-
ronéis da Guarda Nacional, comerciantes e agricultores, co-
meçaram a dominar os municípios do Ceará, elementos das 
chamadas classes liberais, tais como bacharéis e médicos..."
9
. 
Mas, na realidade, estes elementos não passam, muitas vezes, 
de simples prepostos dos coronéis ou, no melhor dos casos, 
conciliadores de interesses entre o coronelismo e a burguesia 
comercial local. 
O coronel geralmente se conforma com a nova ordem de 
coisas, ainda que perdendo parte de suas atribuições e de seus 
privilégios. "O ano de 1930 assinala o fim do prestígio político 
da cidade de Juazeiro, com a queda da primeira República, 
mas o Padre Cícero continuou com a mesma ascendência so-
bre as populações dos Estados do Nordeste. Não se opôs à 
busca de armas na cidade, não combateu, por palavras ou ati-
tudes, a revolução triunfante.. ."
10
. 
Talvez haja exagero aqui na afirmativa de que a ascen-
dência do Padre sobre as populações do Nordeste permanecia 
a mesma. Se assim fosse, não assistiriam impassíveis os seus 
"afilhados" às buscas domiciliares de armas em Juazeiro, in-
 
7
 Júlio Belo, ob. cit., págs. 186-187. 
8
 Edmar Morel, Padre Cícero, o santo de Juazeiro, Rio, 1946, 
pág. 194. 
9
 Ob. cit., pág. 33. 
10
 Joaçuim Alves, "Juazeiro, Cidade Mística", In Revista do Instituto do Ce-
ará, Fortaleza, t. 62, 1948, pág. 99. 
200 
clusive nas propriedades do Padre Cícero
11
, à retirada de seu 
retrato da sede da municipalidade, seu despojamento do poder 
político de fato, a ponto de não ser eleito seu candidato às 
primeiras eleições que se seguiram a outubro de 30 para a As-
sembléia Constituinte de 1933. 
Mais ou menos um ano depois das eleições, em julho de 
1934, morre o Padre Cícero Romão Batista. Acorrem a Jua-
zeiro milhares e milhares de seus amigos fiéis. Registram-se 
cenas dramáticas de lamentos e imprecações "dessa pobreza 
desvalida que, ao passar das décadas, se haviam mantido na 
mesma situação de miséria extrema; seus filhos tinham cres-
cido sem escola, sem saúde, subnutridos como seus pais, emi-
grando como eles de um para outro Estado, de uma para outra 
região, em ritmo crescente, agora sobretudo para o Sul. Muitos 
voltavam os olhos para os céus, confiantes em supostas profe-
cias do sacerdote nonagenário, e diziam convictos: Ressuscita-
rá um dia... Ainda acreditavam em seus milagres. Durante 
meio, século haviam esperado inutilmente por eles. Muitos, no 
mesmo obscurantismo a que os haviam relegado, continuavam 
a esperar... 
 
 
 
 
11
 Informação de Otacílio Anselmo ao Autor. 
201 
 
10 
 
 
Um Saldo Positivo: 
Caldeirão 
 
Sob a influência direta do beato 
havia cerca de duas mil pessoas de 
ambos os sexos e de todas as idades. 
Reinava ali uma disciplina absoluta e 
uma ordem rígida. 
Ten. J. G. DE CAMPOS BAHROS 
 
 
 
 
 
NESTE ESTUDO FIZEMOS REFERÊNCIAS 
várias vezes ao Beato Lourenço e ao sítio do Caldeirão. Trata-
se do mais interessante episódio local resultante dos aconteci-
mentos de Juazeiro ao tempo do Padre Cícero e logo depois de 
sua morte. É o melhor fruto da grande hégira sertaneja. Con-
firma a tendência das massas rurais sem terra, em certa fase da 
história do Brasil, ao encontrarem um pedaço de chão para 
cultivar: sem recursos, sem meios técnicos, falhos até mesmo 
de enxadas, rasgam a terra com as próprias mãos e, eles sim, 
obram milagres. 
Foi o que aconteceu no Caldeirão. 
Era uma das propriedades do Padre Cícero, na chapada 
do Araripe, no município do Crato, porém, próximo a Jua-
zeiro. O sacerdote havia entregue o sítio a um de seus fiéis 
romeiros, José Lourenço, considerado "beato", isto é homem