FACÓ, Rui. Cangaceiros e Fanaticos
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FACÓ, Rui. Cangaceiros e Fanaticos


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4
. De outra forma não se 
explicaria o surgimento impetuoso de Manaus, em plena selva, 
borbulhante de vida, onde o trabalho do seringueiro era a ga-
rantia de todos os negócios. Escrevia um autor contemporâ-
neo: "... a Amazônia é a terra do crédito. Não há capitais. O 
seringueiro deve ao 'patrão', o 'patrão' deve à 'casa aviadora', a 
'casa aviadora' deve à [casa] estrangeira, e assim segue"
5
. 
O aparecimento do regatão, rio acima, rio abaixo, porta-
dor de um movimentado comércio ambulante que atinge o 
âmago da floresta, é uma das expressões dessa economia mer-
cantil que brotou com o florescimento da extração da borra-
cha. "Vende nos 'barracões', nas 'barracas', por toda a parte"
6
. 
Quanto a Manaus, chegava a "dar a idéia de uma pequena 
colméia. Só se vê gente chegada de todos os pontos do interior 
do Estado, indo e vindo, de um lado para outro, a tratar de ne-
gócios, num açodamento de admirar... Assim é que se vê a to-
do o momento os seringueiros entrando nas 'casas aviadoras', 
levando os saques que trouxeram dos seringais onde traba-
lham. Porque o seringueiro não recebe o valor da borracha que 
'fez' no seringal. Não. Ele vem recebê-lo na 'casa aviadora' do 
seringal, numa das praças de Belém ou Manaus". Acrescenta 
Guedes: "Cada ano entram no Ceará centenas de contos [de 
réis]. Há um sem-número de famílias que vivem do que lhes 
mandam os seus da Amazônia; estudantes que fazem os seus 
cursos, nos diversos institutos do País, com recursos de igual 
procedência"
7
. 
E a conclusão lógica: "... há na Amazônia mais liberda-
de... "
8
 Era a economia mercantil que proporcionava essa "li-
berdade" ao antigo servo da gleba nordestino, que continuava 
preso ao seringalista, mas com uma diferença essencial para 
ele: ganhava dinheiro; comprava no barracão, mas também na 
cidade, no grande comércio; mantinha seus negócios com o 
 
4
 Euclides da Cunha possui uma página clássica sobre o aspecto mais impres-
sionante e dramático do trabalho semi-servil dos nordestinos na Amazônia. 
Embora absolutamente verídica, é uma apreciação unilateral. Ver À mar-
gem da História, 2.ª ed., Porto, 1913, págs. 27-33. 
5
 Mário Guedes, Os seringais, Rio, 1914, pág. 143 
6
 Idem, pág. 173. 
7
 M. Guedes, págs. 183 e 196. 
8
 Idem, pág. 197. 
32 
regatão que subia e descia o rio; adquiria visos de in-
dependência. 
Aquele quadro de prosperidade da Amazônia refletia-se 
no Nordeste. Um escritor cearense indica esse reflexo quando 
informa: "O Ceará progredia [...] devido a alguns anos de es-
tações regulares e sobretudo à grande alta da borracha no 
Amazonas, que derramou rios de dinheiro no Estado. Em 
1910, quando a borracha chegou a dar 16 mil-réis por quilo, 
entraram para aqui cerca de 30 mil contos!... Em Fortaleza tu-
do se valorizou. As casas subiram de preço e o comercio teve 
grandes lucros. Os paroaras tudo compravam sem regatear 
preço"
9
. 
Um grande número voltava ao Ceará, sobretudo nas épo-
cas de queda do preço da borracha. Os latifundiários nordes-
tinos, nos anos de chuvas normais, facilitavam esse regresso, 
que foi sempre cantado em prosa e verso por literatos da re-
gião. Era o que precisamente queriam os latifundiários cearen-
ses: que em condições "normais" lhes sobrasse a mão-de-obra 
dos que não tinham terra, dos que eram obrigados a vender pe-
la comida de um dia o fruto do trabalho de 12 horas no cabo 
da enxada. O próprio Governo do Ceará, nos começos do sé-
culo, mandava fornecer passagens para a volta dos emi-
grantes
10
. 
Mas o homem que voltava não era o mesmo. Ao contato 
com outras gentes, com outras formas de vida social, a con-
corrência desenfreada entre os donos de seringais, uma luta 
pela existência muito mais afanosa do que na pasmaceira do 
Nordeste, sua mentalidade se modificara. Um dos governado-
res do Ceará nos começos do século XX, Benjamim Barroso, 
reconhecia, em mensagem à "Assembléia Legislativa estadual, 
este fato, que devia corresponder inteiramente à realidade: 
"Depois que se estabeleceu a corrente emigratória para a 
Amazônia [isto é, depois de 1877], é que os hábitos e costu-
mes cearenses se modificaram"
11
. O governador lamentava is-
so, pois essa modificação se manifestava principalmente num 
 
9
 R. Teófilo, Libertação do Ceará, Lisboa, 1914, pág 42 
10
 R. Teófilo, A Seca de 1915, Rio, 1922, pág. 83 
11
 Cit. Por A. Montenegro, História do cangaceirismo, pág. 77. 
33 
maior grau de inconformismo das populações sertanejas com a 
vida de miséria e fome e, portanto, em sua luta por uma exis-
tência melhor. 
A luta só podia corresponder ao nível em que se encon-
travam econômica e socialmente colocados os que constituíam 
a parcela mais explorada e oprimida da população, aqueles que 
nada possuíam e tinham algo a reivindicar, ainda que não sou-
bessem formular claramente essa reivindicação. Faltava-lhes 
ainda a consciência de si mesmos, quando segundo Marx, a 
opressão se torna mais opressiva porque o oprimido possui a 
consciência de que o é. 
O despotismo dos potentados rurais havia, durante sécu-
los, relegado os pobres do campo à condição de objetos. A 
classe-agrária dominante via no trabalhador da terra o escravo, 
que o era de fato e juridicamente. Mesmo com a Abolição, 
uma vez que não se processaram mudanças fundamentais no 
campo e o latifúndio foi mantido com todas as suas prerroga-
tivas e privilégios, o trabalhador rural continuava a ser consi-
derado um semi-escravo. O conceito de ser humano em rela-
ção a ele não era válido para o grande proprietário. A classe 
dos pobres do campo se achava à margem da sociedade consti-
tuída. Não tinha terra, nem outros bens, não tinha direitos, não 
tinha sequer deveres \u2014 além daqueles de servir ao senhor. 
Proliferando, em meio à miséria, seu número crescendo, 
o latifúndio estagnado não podia integrá-los totalmente em sua 
economia limitada. Temendo-os, dispersa-os. É a sua grande 
arma. A própria existência do latifúndio, açambarcando terras, 
expulsa-os de suas vizinhanças. Cria-se no Nordeste uma es-
pécie de nomadismo permanente, que as secas só fazem au-
mentar e dar características mais trágicas. É então que se jun-
tam, ante o flagelo, reúnem-se nos caminhos para as longas 
jornadas em busca de pão e água. Jamais haviam tido laços es-
treitos de solidariedade, isolados em choupanas perdidas nos 
ermos, a enormes distâncias umas das outras, sem formarem 
ao menos qualquer simulacro de aldeia. A seca expulsa-os e 
congrega-os. O acicate para a sua unidade é a fome. Ficavam 
então até mesmo sem os recursos da economia seminatural. A 
seca mata-lhes a criação, queima-lhes a roça e não lhes resta 
sequer a água barrenta da cacimba rasa, cavada com a enxada, 
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junto ao casebre. 
Contra a fome e a miséria que aumentam com a seca, 
manifestam-se dois tipos de reação da parte dos pobres do 
campo: 
a) a formação de grupos de cangaceiros que lutam de 
armas nas mãos, assaltando fazendas, saqueando comboios e 
armazéns de víveres nas próprias cidades e vilas; 
b) a formação de seitas de místicos \u2014 fanáticos__ em 
torno de um beato ou conselheiro, para implorar dádivas aos 
céus e remir os pecados, que seriam as causas de sua desgraça. 
 
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3 
 
 
 
 
 
Os Cangaceiros 
 
 
 
 
 
 
 
 
NUM MEIO EM QUE TUDO LHE É ad-
verso, podia o homem do campo permanecer inerte, passivo, 
cruzar os braços diante de uma ordem de coisas que se esboroa 
sobre ele? 
Euclides da Cunha já compreendera que o homem do ser-
tão [...] está em função direta da terra"
1
. Se a terra é para ele 
inacessível, ou quando possui uma nesga de chão vê-se atena-
zado pelo domínio