FACÓ, Rui. Cangaceiros e Fanaticos
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FACÓ, Rui. Cangaceiros e Fanaticos


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in-
fluente, cabo eleitoral ou chefe de bando do presidente ou do
governador do Estado?... "

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 E narra episódios de demarcações

de terras mandadas fazer por certo magistrado sob uma chefia
local, e desfeitas pelo mesmo magistrado quando o município
se encontrava sob outro governo. Como poderia, pois, haver
alfabetização, instrução, educação popular? Além disso, para
que? O interesse do grande proprietário da terra é manter no
obscurantismo a população local. Ele quer braços servis e não
cabeças que pensem. Ninguém necessita de saber ler e escre-
ver para pegar numa enxada. O Governo do Estado ou do mu-
nicípio não dispunha de verbas para gastar com escolas. As
verbas iam para o bolso dos potentados locais, seus familiares
e apaniguados. Mesmo que fundassem escolas \u2014 a não ser
uma ou duas, na sede do município, para os filhos dos ricos ou
dos remediados \u2014 os filhos dos pobres não poderiam freqüen-
tá-las. Não podiam comprar as coisas mais elementares, como
um par de sapatos ou uma roupa, quanto mais livros e material
escolar. E quando seus pais tinham trabalho garantido ou um
lote de terra para plantar, necessitavam de sua ajuda, desde a
mais tenra idade, nos duros labores da terra.

Quanto aos meios de comunicação e transportes, como
podiam existir se o latifúndio era o feudo quase fechado, se
pouco produzia ou produzia apenas para o consumo familiar
ou local? Os meios de transporte comuns eram os animais, o
lombo do burro ou o carro de boi, que passavam por quaisquer
caminhos, qualquer picada aberta no campo.

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 Ver, a propósito, o romance-sátira de Jáder de Carvalho. Sua majes-
tade, o juiz.
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 Xavier de Oliveira, ob. cit.. pag. 22.

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Alguns dos que preconizavam tais providências, viam-
nas isoladas de todo um complexo: um meio onde dominavam
relações de produção pré-capitalistas, semifeudais.

Ainda hoje muitos acreditam que foram simplesmente as
estradas, o caminhão, que acabaram com o cangaço. Esquecem
que os jagunços de Floro Bartolomeu foram conduzidos de
trem de Iguatu a Fortaleza... Que Lampião viajou com seu
bando em caminhões e ocupou cidades servidas pelo te-
légrafo... No entanto, um bom conhecedor do Nordeste e lúci-
do estudioso de seus problemas repetia, nos anos 20, que "a
repressão [ao cangaceirismo] é neste extenso território um
problema de fácil transporte"

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.

Não se percebe que as estradas de nada valeriam sem a
penetração, ainda que limitada, do capitalismo no meio rural,
sem o estabelecimento de uma rede comercial que favorecesse
sua penetração, sem os créditos bancários que já haviam apa-
recido no Cariri nos começos da década de 20, em suma, no-
vas relações de produção e troca que se iam criando, mesmo
quando subsistiam \u2014 e subsistem em larga escala ainda hoje
\u2014 fortes remanescentes das relações anteriores. Mas as novas
é que operam a mudança. Desenvolvem-se, bem ou mal, as
forças produtivas, e esse desenvolvimento, embora lentíssimo,
é que constitui a força motriz das transformações operadas que
atingem o meio social. A penetração do capitalismo no campo,
com desenvolvimento acentuado no Sul, o surto de industriali-
zação que atrai imigrantes, a urbanização intensiva é que fo-
ram arrancar o semi-servo da estagnação do meio rural e dar-
lhe outros caminhos que não os do bando do cangaço, ou os
místicos itinerários dos beatos e conselheiros. Não é que a es-
trada e o caminhão espantem o cangaceiro. A estrada e o ca-
minhão trazem para a cidade o cangaceiro de amanhã. A in-
dústria o entrosa em suas engrenagens, os próprios meios de
transporte o absorvem, ou o conduzem para os novos cafezais
que se abrem no norte do Paraná. A estrada e o caminhão já
resultavam, eles mesmos, daquela mudança.

Porque não é só no monopólio da propriedade fundiária

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 José Américo de Almeida, A Paraíba e seus problemas, 2.ª ed. Porto
Alegre, 1937.

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que reside a matriz do cangaço; era em todo o atraso econô-
mico, no isolamento do meio rural, no imobilismo social, na
ausência de iniciativas outras que não fossem as do latifun-
diário \u2014 e as deste eram quase nenhuma. Pode-se imaginar o
que representou como fator de comoção interna no Cariri o
surgimento de uma cidade cuja população, nos primeiros vinte
anos de seu nascimento, era maior do que a de meia dúzia das
cidades clássicas do vale, como aconteceu em Juazeiro. Era
uma subversão para o latifúndio nordestino.

Tem-se opinado também que o cangaceirismo advinha da
ausência de policiamento nas regiões interioranas profundas.
Todos os fatos provam o contrário: quando a polícia apareceu
para combater o cangaço, teve o mérito de exacerbá-lo. Por todo
este interior do Brasil, onde quer que a polícia tenha chegado
para perseguir cangaceiros ou "fanáticos", praticou contra as po-
pulações rurais crimes mais hediondos do que os cangaceiros
mais sanguinários. A primeira coisa que fez foi colocar-se in-
condicionalmente a serviço de um dos potentados locais, a
serviço, portanto, de suas intrigas, seus ódios, suas persegui-
ções. E visava indistintamente cangaceiros e supostos cangacei-
ros, ou informantes seus, ou ainda pessoas que nada tinham a ver
com o cangaço. Enquanto os cangaceiros andavam de preferên-
cia nos matos, a polícia percorria cidades, vilas e povoados, cu-
jos habitantes muitas vezes fugiam à sua aproximação. Não era
para menos. As andanças dos destacamentos policiais eram ver-
dadeiras expedições punitivas, atingindo indistintamente culpa-
dos ou supostos culpados e até inocentes, inclusive mulheres e
crianças. Todo o sertão sabia como tinham agido as forças envi-
adas contra Canudos nos fins do século XIX: matado homens,
mulheres e crianças. Com os cangaceiros, cortavam-lhes a cabe-
ça quando mortos em combate. Aprisionados, eram em geral fu-
zilados sumariamente e só conduzidos para a cadeia quando se
tratava de um ou outro nome conhecido, cumprindo ordens supe-
riores dos chefes. Ainda em 1938, destruído com requintes de fe-
rocidade pela polícia de Pernambuco, sob o comando de Optato
Gueiros, um dos núcleos remanescentes do Beato Lourenço, a
selvageria policial se repete mais uma vez. Narra-o um repórter
dos Diários Associados em Salvador, depois de visitar o local da
carnificina: "Trinta e cinco prisioneiros feridos, na maioria mu-

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lheres e crianças, foram abandonados numa casa da estrada em
virtude da dificuldade de transporte. Estes infelizes foram encon-
trados por uma coluna da Polícia do Piauí e... fuzilados. A cha-
cina estava completa"

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.

Não se compreendia, ou não se queria compreender, pois
que interesses materiais do mais abjeto egoísmo não o per-
mitiam, que se havia aquela convulsão, abrangendo tão gran-
des massas humanas por todo o Nordeste \u2014 e não só no Nor-
deste \u2014 é que deviam existir necessidades sociais que as ins-
tituições entorpecidas não podiam satisfazer. Não se tratava de
crimes individuais \u2014 não era portanto um crime, mas um pro-
blema social a enfrentar.

Essas mesmas instituições respondem aos que expressam
a agudeza desse problema como se enfrentassem criminosos
comuns, homens que nada tinham a ver com a própria socie-
dade onde viviam. E eram eles \u2014 cangaceiros e "fanáticos" \u2014
os elementos ativos de uma transformação que prepara mu-
danças de caráter social. Eles subvertem a pasmaceira imposta
pelo latifúndio durante séculos, provocam choques de classes,
lutas armadas, preparam os combates do futuro. Não são ainda
a revolução social, mas são o seu prólogo. São os elementos
regeneradores daquela sociedade estagnada, em processo de
putrefação. Revivem-na, dão-lhe sangue novo, põem-na em
movimento, preparam-na para o advento de uma nova época.