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A INAPETÊNCIA

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em casa, as reuniões com minhas amigas foram a salvação. Magali, Romita. Quero experimentar uma transa forte, quero ser amarrada na mesa e que mordam meu sexo. Quero vestir-me toda de couro e empunhar o chicote. Quero dominar homens e mulheres, com dor ou sem dor. Tenho muitas fantasias sobre isso.
SARA: Faz quanto tempo? 
SRA. PERROTA: Olha, essa é uma boa pergunta.
FUNCIONÁRIO: Quer um copo de água?
SRA. PERROTTA: Quero sim, por favor.
FUNCIONÁRIO: (Para o interfone.) Virgílio.
SRA. PERROTTA: E você? Você tem família?
SARA: Tenho, moramos fora do centro, perto do aeroporto.
SRA. PERROTTA: Que bom. Minha casa não é grande coisa, mas de qualquer jeito, é o suficiente por enquanto. 
Entra VIRGÍLIO.
FUNCIONÁRIO: Ah, Virgílio, entre, por favor.
SRA. PERROTA: Olá. 
FUNCIONÁRIO: Bom, melhor nós os deixamos sós. Qualquer coisa que precisar é só chamar. Nós vamos ficar aqui ao lado.
SARA: Tchau, até logo.
SRA. PERROTTA: Tchau Sara, até logo mais.
FUNCIONÁRIO: A gente se vê daqui a pouco.
SARA e o FUNCIONÁRIO saem. VIRGÍLIO fica em pé na frente da SRA. PERROTTA, quem continua sentada numa cadeira.
SRA. PERROTTA: Então, você é o Virgílio! Falaram muito bem de você. Talvez já conheça o meu marido. É um senhor muito amável, têm uns quarenta e cinco anos. Usa óculos. Tem um metro e setenta. Veste-se muito elegantemente. Justo hoje de manhã, ele falou: “Se você vê o Virgílio ou se são apresentados, pode dar meus cumprimentos e fale para ele que arrumei aquilo do outro dia”. Nada disso, “que aquilo do outro dia ficou na casa de Horácio”. Horácio é o amigo dele, aquele que tem uma quinta perto de casa. Ele vai muito lá por causa da quadra de tênis. Bom, acredito que você já sabe quem é o Horacio, acho que vocês todos já se conhecem bastante. E muito bem! Não sei se eu conseguiria passar uma semana lá... Não sei, não. Sendo a primeira vez, talvez seja melhor ficar num feriado prolongado. Agora em junho, tem dois feriados prolongados. Falo por causa da falta de tempo. Acontece que durante a semana trabalho em várias escolas. É só para experimentar, não é? Vai ver que acabo não gostando de nada. Você conhece o meu filho mais velho? Deve ter aparecido alguma vez acompanhando o meu marido. Faz um bom tempo que não falo com ele. Bobagens. Quer dizer, acabamos nos afastando. Como qualquer mãe, acho que fiz um julgamento errado dele. Enfiei a minha colher em coisas que não me diziam respeito. Bom, você sabe como é aquela mania dos pais de querer dar lição de moral nos filhos. Como se todos não fossemos pessoas independentes, não é? Porém com os filhos é bem mais difícil. Eu tenho dois meninos. Acho que o caçula você não conhece. Jamais. Tomara que nunca os tivesse tido. Você não tem filhos, não é Virgílio? Você foi vasectomizado? Desculpe a pergunta, ela não tem nada a ver, mas acabei de pensar que de certa forma essa pergunta está relacionada com outras que sim tem a ver com o assunto, e que seria muita falta de educação ir perguntando logo de entrada por coisas muito mais atrevidas ou pelos detalhes de tudo isso. Bom, de qualquer jeito, se algum dia quer ter um filho e não consegue, acho que sempre existe outra opção. (Longa pausa.) Sempre existe outra opção, Virgílio. (Black out.) 
CENA 3
A SRA. PERROTTA está numa praça. Um CIGANO.
CIGANO: Olá.
SRA. PERROTTA: Olá.
CIGANO: Me da sua mão.
SRA. PERROTA: Dou garoto, dou.
CIGANO: Tem um futuro brilhante, cheio de caminhos que vão e voltam, tem desejos e fantasias, vejo um porco, um porco orelhudo e muito querido numa encruzilhada da sua vida e também uma tomada de decisão madura e inteligente. Vai viver cem anos, mil anos, todos os anos que quiser sempre e quando não fique gulosa. Você é uma mulher intensa. Qual é seu signo?
SRA. PERROTTA: Isso não tem importância. Venha, sente-se aqui e continue falando, isso faz um bem enorme para mim.
CIGANO: Vou avisando logo que são mentiras.
SRA. PERROTTA: Sei disso. Mas vou pagar mesmo assim.
CIGANO: Muito bem. O que você quer ouvir?
SRA. PERROTTA: Fale se vou ser feliz com minha filha Leila.
CIGANO: É aquela lá?
SRA. PERROTTA: Aquela no balanço. Não é linda? Ás vezes duvido se vou ser feliz com ela. Olho para ela e não a reconheço.
CIGANO: Sim, ela é lindíssima. Leila vai ser protestante. Abrirá uma agencia de turismo. Vão ser muito felizes juntas.
SRA. PERROTTA: Protestante?
CIGANO: Só pelo fato de ser sua filha, hoje ela balança feliz feita um pêndulo acreditando que um único Deus a mantém unida aos seus pais. No ginásio, numa terça feira 20, daqui a uns poucos anos, uma professora com sobrenome espanhol falará sobre Martinho Lutero. Leila vai pesquisar compulsivamente no seu livro de história. Encontrará dados soltos, incompletos, um resumo estudantil sobre a reforma protestante. Um resumo fraco. Porém, a febre começa nessa terça. Ela é arrastada por um impulso por conhecê-lo tudo à procura de maiores informações. Estuda alemão com uma bolsa de estudo arrumada por você e seu marido.
SRA. PERROTTA: Pelo meu marido?
CIGANO: É. Ela lê direto na fonte. E acaba convertendo-se. Mas, isso não a transforma num monstro, de jeito nenhum. Suas atividades, seus afetos, seu gosto musical, não ficam afetados em nada. Porém, abraça fortemente a causa, encontrando a felicidade nisso.
SRA. PERROTA: (Com os olhos cheios d’água.) Obrigado.
CIGANO: Passou mal?
SRA. PERROTTA: Já sabia que era mentira, mas o que eu não sabia era que ia acabar percebendo tão rápido assim. Pode levar a Leila de presente.
CIGANO: A menininha? 
SRA. ERROTTA: Pode levar. Não gosto mais dela.
CIGANO: É verdade?
SRA. PERROTA: É aquela, que está no balanço. Pode cria-la do seu jeito, do jeito como os ciganos criam seus filhos. Eu não posso fazer tudo. Pegue antes de ela perceber que estou indo embora e queira voltar comigo para casa como um cachorrinho. Vai pegue ela. Só não mude o nome dela, por favor. Ela se chama Leila. Se quiser, pode dar-lhe seu sobrenome. Teria acontecido do mesmo jeito se ela casa-se, coitadinha. Mas, não deixe de chama-la de Leila. A única coisa que ela tem é seu nome. Ela não é boba não, ela já responde pelo seu nome quando é chamada. Adeus.
CENA 4
A SRA. PERROTTA está na casa de ROMITA. MAGALI as acompanha, as três estão sentadas a mesa em volta de alguns folhados de creme.
MAGALI: Perceberam que ela concorda toda vez que sabe que o assunto não tem importância para ele? Desse jeito, o deixa permanentemente irritado. Quando é importante para ele, ela discorda. Pior ainda, ela não bate de frente. Ela diz: “sei lá, não sei”. Vira a cabeça ou olha para outro lado. Finge que está pensando em outra coisa. Não fala nada. Ele fica na mão dela. Ela está certa. Se ela deixar, ele faria a mesma coisa com ela.
SRA. PERROTTA: O que está fazendo?
MAGALI: Está fazendo aquilo.
SRA. PERROTTA: Bom, ele merece. Olha o folheado, parece bem gostoso!
MAGALI: É bem gostoso.
ROMITA: Foi Magali que trouxe.
MAGALI: É de lá embaixo. 
ROMITA: Lá embaixo tem coisas bem gostosas.
SRA. PERROTTA: Sim, bem gostosas.
Pausa. Ninguém come nada.
ROMITA: Conheceu o Virgílio?
SRA. PERROTTA: Sim conheci.
ROMITA: Não liga para ele.
MAGALI: Fala por falar.
ROMITA: O que você falou?
MAGALI: Eu é que sei.
ROMITA: Bom, você deve saber.
MAGALI: Tem que desconsiderar o que ele fala. Você tem que encara-lo do jeito que ele é.
ROMITA: Que é...?
MAGALI: Aquilo.
ROMITA: É.
Pausa.
SRA. PERROTTA: Não estava pensando nisso.
Pausa.
MAGALI: Uma pica. Virgílio.
SRA. PERROTTA: Estava numa praça, veio uma garota e pediu para que eu desse uma olhada na sua filha que estava no balanço.
ROMITA: É sempre a mesma coisa.
SRA. PERROTTA: Apareceu um cigano e entreguei a criança.
Pausa.
SRA. PERROTTA: Hoje tivemos uma briga terrível. As crianças escutaram tudo. Isso foi o pior.
ROMITA: Sim, sempre a mesma coisa.
SRA. PERROTTA: Então, saí batendo a porta. Ele reclamava que eu não sei criar meus filhos, que fico o dia todo em casa sem dar a mínima para eles. Eu não quero invadir a vida deles, isso é diferente. Parece que somos estranhos, não é? Na minha própria casa.
Pausa.
ROMITA: Estava caminhando
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