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A INAPETÊNCIA

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Alem do mais, pedi dois fainâs.
LEILA: Mmm! Gostoso.
SRA. PERROTTA: É gostoso, não é?
LEILA: Papai está sangrando.
O MARIDO passa a mão no almofadão onde está sentado. Realmente, pode ter um pouco de sangre. 
SRA. PERROTTA: A fainâ é do que? De grão de bico, não é? De farinha de grão de bico. Gostoso.
Pausa.
SRA. PERROTTA: Ah, tava esquecendo, hoje fui pagar aquela bendita fatura. Arme um barraco. Fiquei esperando por duas horas. Depois fui atendida por uma Sara de tal. Você é obrigado a falar diretamente com ela.
Toca a campainha.
SRA. PERROTTA: Deve ser a pizza.
Ninguém se mexe.
SRA. PERROTTA: Quem vai abrir?
Silêncio. A campainha volta a tocar.
SRA. PERROTTA: Ah, sim, podemos usar guardanapos, assim ninguém precisa levantar para pegar os pratos. Uma napolitana falei, aquela que acompanha tomate natural em pedaços, aí o sujeito repete, “uma napo”, “uma napo”. Eu peço uma napolitana e ele repete, “uma napo, uma napo e dois fainâs”. Onde já se viu, dá para você explicar? “Uma napo, uma napo”. Eu vou falar um negocio, esse cara é um cretino. Você vai sozinha? Quando, é segunda que vêm, terça, ou algo parecido? Sai por Ezeiza?[footnoteRef:4] [4: Ezeiza é o aeroporto mais importante de Buenos Aires.] 
LEILA: Não faço ideia, mamãe, não faço ideia. Agora chega!
SRA. PERROTTA: Bom, é para a gente ficar sabendo. Já estou imaginando, eu lendo tuas cartas da Sérvia. As cartas que eu vou guardar, com muito amor e carinho, na mesma caixa onde guardo teu seio tatuado. As cartas, teu pequeno seio, os cartões postais da Iugoslávia, os campos de rosas devastados. Todas as noites releu cada frase e fico emocionada como só uma mãe pode ficar. Como uma mãe que o está perdendo tudo. Adormeço com teu seio e tuas cartas debaixo do meu travesseiro, então já não me sinto mais só. Sabendo que no dia seguinte esperarei por noticias suas, saberei que você está viva, e aquelas coisas que só uma mãe compreende. Porque eu sou uma mãe. (A campainha toca por última vez.) Tudo bem. Tenho uma fome enorme. (Pausa.) Quem vai abrir?
Black out. 
Novembro de 1996
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