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O SERVIÇO SOCIAL NA EDUCAÇÃO INFANTIL

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civil. Por um lado pode ser apreendido como mecanismos que estabelecem a ordem social
disciplinando a sociedade a fim de manter a ordem – perspectiva durkheimniana. Por outro lado, há também um
controle pela sociedade civil via atuação em setores organizados que vem a representar a gestão de políticas para
que essas atendam aos seus interesses (CORREIA, 2000).
11 Ressalta-se aqui a dupla jornada das mulheres no processo de integração ao mercado de trabalho, acumulando
a jornada de trabalho – na esfera pública – com as atribuições domésticas – na esfera de reprodução da vida –,
considerando para essa compreensão a relevância do conceito da “divisão sexual do trabalho” (HIRATA, 2007).
OLIVEIRA, A. D. de. O Serviço Social na educação infantil: uma desafiadora reflexão. In
Revista Dialogus – periódico discente do Curso de Serviço Social – Niterói/UFF , n. 01, ano
1, julho/dez 2012.
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Vincula-se essa iniciativa, no plano ideopolítico, à existência de equipamentos e
serviços de doação e benesse social, marcado tanto por um padrão higienista de controle,
como do disciplinamento da força de trabalho e do modo de vida das famílias proletárias. Tal
fato se traduz nas palavras de Nunes:
As creches não tinham nenhuma visibilidade enquanto reivindicação da classe trabalhadora.
Nesse sentido, continuavam a se legitimar como uma prática assistencialista, com todas as
decorrências disto no que diz respeito aos cuidados com a criança pequena e com a sua
família (NUNES, 2004, p. 16).
É a partir dos anos de 1970 que ocorre maior organização de movimentos de luta por
creche12, requisitando alguma resposta do Estado através de uma política social de
atendimento à criança pequena (de 0 a 6 anos de idade). Porém, a mesma ainda ocorre em
grande parte referenciada a lutas atribuídas às mulheres, como direito das mães.
Apenas nos anos de 1990 que há maior reconhecimento da luta pela educação infantil
como direito de todas as crianças, e não apenas daquelas privilegiadas financeiramente por
seus pais, a despeito dos poucos avanços, em nossa cultura, em relação à percepção do lugar
das mulheres em relação ao cuidado com as crianças. Conforme Kuhlman (2000), “daí a
proposição de que as instituições de educação infantil precisariam transitar de um direito de
família ou da mãe para se tornarem um direito da criança” (KUHLMANN, 2000, p.14).
O acesso à educação infantil é reconhecido como direito de toda criança a partir da
Constituição Federal (1988) e, especialmente, a partir do Estatuto da Criança e do
Adolescente (1990), e anunciado como dever do Estado, associando-se administrativamente a
órgãos da educação. Na Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB, 1996), há o
reconhecimento sobre a importância da educação infantil para o desenvolvimento da criança
pequena, considerando-a como a primeira etapa da educação básica (composta por três etapas:
educação infantil, ensino fundamental e ensino médio), representando a “raiz” de sua
formação (CURY, 2008).
Apesar de limites políticos, passa a se configurar, formalmente, em atendimento
integrado entre educação, saúde e assistência social, para garantir sua qualidade em contribuir
12 Este ligado aos movimentos de mulheres. Mas vale aqui destacar que o Movimento de Mulheres possui
objetivos diferentes do Movimento feminista. O primeiro movimento se destaca por representar as lutas das
mulheres em torno de suas necessidades, ligadas a distintas manifestações, sejam elas relacionadas às entidades
religiosas, organizações de comunidades, clubes de mães e dentre outros. Por outro lado, a luta das feministas
volta-se para a emancipação da mulher, para que essas tenham autonomia e poder de decisão sobre seu corpo, ou
seja, é uma luta pela descriminação e opressão de gênero (PINTO, 2003).
OLIVEIRA, A. D. de. O Serviço Social na educação infantil: uma desafiadora reflexão. In
Revista Dialogus – periódico discente do Curso de Serviço Social – Niterói/UFF , n. 01, ano
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para o desenvolvimento nos aspectos físico, social, intelectual e emocional da criança
pequena.
Verifica-se, no entanto, que a política pública de educação infantil, na qual se integra a
oferta pela creche, se desenvolve paralelamente com a consolidação da Educação como
direito de cidadania.
A educação infantil nasce no seio do setor da assistência social, limitada à oferta do
equipamento de creche. Em determinado momento, como resposta às pressões e à luta por
direitos, transita para o campo das políticas de educação. A educação infantil se propõe então
a atender os direitos de cidadania da criança pequena. Mas convive, por um lado, com as
conseqüências da contra-reforma e, por outro, com a forte cultura clientelista13 e
assistencialista que predomina nos municípios.
Tem-se a compreensão da educação como resultante de um processo histórico e
cultural da transição do feudalismo para o sistema capitalista dos meios de produção14. Ela se
constitui como política a partir do século XX, no entanto, também como mecanismo de
controle da classe trabalhadora e de disseminação de uma ideologia dominante (PEREIRA,
2008).
Recorrendo a Pereira (2008) percebe-se que a política social por meio de bens e
serviços desempenha papel ambíguo, tanto por permitir o reconhecimento parcial de direitos
quanto por assegurar as condições para a reprodução da força de trabalho, constituindo-se
também em formas indiretas e parciais de partilha da riqueza socialmente construída. Essa se
constituiu a partir de um conjunto de direitos sociais que passaram a ser reconhecidos a partir
das lutas da classe trabalhadora, e dentre esses direitos se encontra o direito à educação. Ou
seja, o Estado ao mesmo tempo em que funciona como provedor da política social, de modo a
universalizá-la, também se constitui como aparelho de dominação para formar um novo tipo
de sujeito. Um sujeito adaptado aos novos padrões de produtividade capitalista, modelando
sua força de trabalho à demanda do mercado (PEREIRA, 2008).
13 A cultura clientelista se caracteriza pela distribuição de privilégios e favores, sejam eles a “criação de
empregos, ocupação de cargos, realização de obras...” (CARDOSO e SANTOS JUNIOR, 2006).
14 A gênese histórica da educação tem início no século XVII, concomitantemente emergem idéias da ciência
moderna e da burguesia como classe dominante da sociedade. No entanto, esta educação não era destinada para
todos, ela se restringia apenas para aqueles que tinham tempo de desfrutá-la, e não para aqueles que
necessitavam vender sua força de trabalho. Após um período de transformações temos um segundo momento, a
partir do século XX, em que a educação passa a ser reconhecida como direito. Isto ocorre em conformação do
capital em reproduzir as relações sociais do sistema vigente em contrapartida das manifestações da classe
trabalhadora. A educação assim é considerada como um meio de (re)produção de conhecimentos, valores,
atitudes, símbolos...(FRIGOTTO, 2009).
OLIVEIRA, A. D. de. O Serviço Social na educação infantil: uma desafiadora reflexão. In
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Seguindo essa lógica de raciocínio, a educação passa a se concretizar e ser reconhecida
como um direito a partir das ações do Estado na constituição de sistemas educacionais, essas
pautadas pela ideologia desenvolvimentista, principalmente a partir dos anos de 1950, por
influência de organismos internacionais15.
Na análise desta relação entre o processo de acumulação capitalista e as ações estatais
educacionais de cunho desenvolvimentista é possível destacar suas funções existenciais, tais
como: (I) criar um novo tipo de trabalhador científico; (II) aumentar o número de instituições
escolares abrangendo o quantitativo da formação de trabalhadores especializados para o
mercado de trabalho; (III) funcionamento como um instrumento de valorização do trabalho; e
(IV) como resposta de uma demanda real da classe trabalhadora