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8-A-PSICANÁLISE-NA-CENA-DO-CRIME-22

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(2011, p. 12): 
Quando aplicamos as concepções da formação do aparelho psíquico da 
Psicopatologia Fundamental às premissas com as quais a criminologia 
trabalha, estamos em pleno exercício da transdisciplinaridade: uma 
confrontação de modelos onde aquilo que pode parecer óbvio para um, seria 
motivo de perguntas para outro. Confrontação esta que nos lembra que tanto 
a nossa prática, quando nossa escuta, são determinadas pelo modelo que 
elegemos. Não podemos nós esquecer disto, sob pena de tomarmos nossas 
teorias em verdades inquestionáveis, o que nos levaria a um embotamento 
crítico. 
Após o entendimento da psicopatologia fundamental, bem como da sua contribuição 
às Ciências Criminais, vale destacar que, o contexto sócio histórico de cada indivíduo 
identifica o verdadeiro perfil psíquico de cada sujeito. Ainda, registra-se que, a 
particularidade da paixão (pathos) do delinquente é o principal e relevante traço da 
psicanálise aplicada na criminologia. 
Assim, às séries complementares de Freud são imprescindíveis às Ciências 
Criminais. Isto porque, em face da não generalização os fatores acidentais, 
biológicos, culturais, pessoais, ambientais, bem como os psicológicos devem ser 
levados e observados na criminologia. 
 
Desse modo, mais uma vez, leciona Ceccarelli (2011, p. 15): 
À luz da Psicopatologia Fundamental o que se torna relevante não são os 
padrões que se repetem em criminosos e delinquentes, mas justamente, 
aquilo que foge aos padrões: é lá que poderemos encontrar a particularidade 
pulsional do sujeito, e retraçar seus caminhos identificatórios que nos levam 
às escolhas de objeto. 
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Pode-se afirmar que, na onda da psicanálise, é necessário destacar que a mesma 
apresenta uma solução adequada à teoria criminológica, cuja proposta não 
“desumaniza o criminoso” (LACAN, 1998/2003, p.135). 
Diante do contexto e aproximação da psicanálise, bem como da psicopatologia 
fundamental às Ciências Criminais, a principal contribuição se insere na postura ou 
no entendimento do crime e do criminoso a partir do cenário sócio- histórico e da 
análise do inconsciente na cena do crime. 
Pelo exposto, na perspectiva psicanalítica, apresentam-se como principais 
contribuições às Ciências Criminais: a ampliação do tratamento do criminoso, a noção 
de responsabilidade, a dinâmica psíquica na cena do crime, bem como o contexto 
sócio histórico do indivíduo. 
No presente estudo procurou-se mostrar a presença da psicanálise na cena do crime. 
Isto é, como a questão da dinâmica psíquica presente no ato criminoso é 
extremamente complexa, por evocar cenários inconscientes (Balier, 1999). 
Assim, mister frisar sobre o quanto devemos ser cautelosos em relação à globalização 
de modelos de transtornos psíquicos utilizados em criminologia e em psicologia 
criminal. Na atualidade, os estudos sobre a criminologia baseiam-se em grande parte 
nas teorias macrossociológicas norte- -americanas, que procuram dar uma visão de 
conjunto do fenômeno criminal em detrimento da história de cada indivíduo e de suas 
peculiaridades psicológicas. 
Não podemos negligenciar o fato de que o adoecimento psíquico só pode ser 
devidamente avaliado dentro do contexto sócio-histórico do qual emerge, pois o crime 
não é redutível a um sintoma a partir de uma pretensa racionalidade psicopatológica. 
O criminoso, qualquer que seja a forma que seu ato possa tomar, coloca em cena 
cenários que só podem ser compreendidos através da causalidade psíquica 
inconsciente. 
Por isso, importar 
modelos e saberes que nos informam sobre o funcionamento psíquico de 
indivíduos oriundos de contextos socioculturais diferentes dos nossos exige 
uma extrema prudência, para não corrermos o risco de importarmos, 
também, a repressão sexual e a moral da cultura que produziu aquela forma 
de comportamento desviante: para além de possíveis fatores biológicos no 
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aparecimento da conduta criminosa, nunca devemos perder de vista que é a 
cultura, com sistema de valores ético-morais, que cria os comportamentos 
desviantes e a delinquência. Sem este cuidado, estaríamos aos poucos 
importando modos de conduta e valores que serão impostos como os únicos 
capazes de gerar saúde psíquica. Trata-se, pois, de ficarmos alertas contra 
os perigos da globalização da origem do adoecer, das causas do sofrimento 
e, consequentemente, das formas de tratamento (Ceccarelli, 2011: 339). 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
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