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BDA-2005-Os-Custos-da-Atividade-Administrativa-e-o-Princípio-da-Eficiência-Ética-Dalton-S-Morais

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in José dos Santos Carvalho Filho, Manual
de Direito Administrativo, 11ª ed., Rio de Janeiro, Lumen Juris, 2004, pp. 250/251.
48. Ob. cit., p. 6.
49. Ob. cit.
BDA – Boletim de Direito Administrativo – Janeiro/200574
Como dissemos anteriormente, o direito ad-
ministrativo brasileiro é um dos ramos que mais
apresenta resistências à moderna interpretação
do direito público sob a “lente” da principiologia
constitucional. Talvez devido a isso, a fixação da
eficiência administrativa como princípio constitu-
cional expresso encontra tanta resistência entre
ilustres e doutos administrativas brasileiros, como
a seguir se expõe.
Para Jessé Torres Pereira Junior, a inclusão
da eficiência administrativa como princípio ex-
presso da Administração Pública na Carta Mag-
na representa um mero reforço de linguagem,
sem qualquer outro efeito:
“No que tange ao arrolamento da eficiên-
cia entre os princípios reitores da atividade
administrativa estatal, só se pode compreen-
der como uma figura de estilo, um reforço de
linguagem para enfatizar o que é inerente à
Administração Pública e é dela reclamado
pelos administrados, justificadamente. A so-
ciedade não organiza e mantém o Estado
para ser ineficiente, embora ineficiências po-
dem ser, e são, encontráveis em setores de
qualquer empreendimento privado”.50
Maurício Antônio Ribeiro Lopes opõe-se, ra-
dicalmente, ao caráter principiológico da eficiên-
cia administrativa:
“Inicialmente cabe referir que eficiência,
ao contrário do que são capazes de supor os
próceres do Poder Executivo federal, jamais
será princípio da Administração Pública, mas
sempre terá sido – salvo se deixou de ser
em recente gestão pública – finalidade da
mesma Administração Pública. Nada é efi-
ciente por princípio, mas por conseqüência
(...).
Trata-se de princípio retórico imaginado
e ousado legislativamente pelo constituinte
reformador, sem qualquer critério e sem ne-
nhuma relevância jurídica no apêndice ao
elenco dos princípios constitucionais já con-
sagrados sobre Administração Pública”.51
No mesmo caminho segue Celso Antônio
Bandeira de Mello:
“Quanto ao princípio da eficiência, não
há nada a dizer sobre ele. Trata-se, evidente-
mente, de algo mais do que desejável. Con-
tudo, é juridicamente tão fluido e de tão difí-
cil controle ao lume do Direito, que mais pa-
rece um simples adorno agregado ao art. 37
ou o extravasamento de uma aspiração dos
que burilam no texto”.52
Na mesma linha de descrédito quanto à fixa-
ção da eficiência administrativa como princípio
constitucional expresso da Administração Públi-
ca, posiciona-se Lúcia Valle Figueiredo para
quem:
“É de se perquirir o que muda com a
inclusão do princípio da eficiência, pois, ao
que se infere, com segurança, à Administra-
ção Pública sempre coube agir com eficiên-
cia administrativa para seus cometimentos”.53
Ouso discordar de vozes tão importantes do
direito administrativo brasileiro para afirmar que
a fixação da eficiência administrativa como prin-
cípio constitucional expresso, após a EC nº 19/
98, representou vultosa inovação no juspublicis-
mo brasileiro, em especial, se considerarmos a
nova hermenêutica à luz dos princípios de direito
fixados na Constituição da República. Como diz
Galdino “as idéias evoluem, em especial, as
idéias acerca dos direitos”.54
Talvez como fruto da influência francesa na
gênese de nosso direito administrativo, sempre
se deu, no âmbito da Administração Pública bra-
sileira, mais importância à formalidade do que à
materialidade da atuação administrativa, em es-
pecial, quanto ao alcance, em si, do fim de inte-
resse público que deve, sempre, ser pretendido
pela Administração. A fixação da eficiência admi-
50. In Da Reforma Administrativa Constitucional, Rio de Janeiro, Renovar, 1999, pp. 41/42.
51. In Comentários à Reforma Administrativa. De Acordo com as Emendas Constitucionais 18, de 05.02.1998, e 19, de
04.06.1998, São Paulo, Revista dos Tribunais, 1998, pp. 108/109.
52. In Curso de Direito Administrativo, 12ª ed., São Paulo, Malheiros, 2000, p. 92.
53. In Curso de Direito Administrativo, 4ª ed., São Paulo, Malheiros, 2000, p. 60.
54. In Flávio Galdino, ob. cit., p. 200.
DOUTRINA, PARECERES E ATUALIDADES 75
nistrativa como princípio constitucional expresso
da Administração Pública, nos termos da altera-
ção produzida pela EC nº 19/98 no art. 37, caput,
da Constituição da República, vem mudar de uma
vez por todas este errôneo paradigma, não só
pela necessidade de observância da eficiência,
após a referida emenda constitucional, como
norma pelo administrador público, como também
pela conseqüente sindicabilidade judicial da exis-
tência ou não de eficiência na atividade adminis-
trativa que daí decorre.
Conforme já exposto anteriormente, estamos
numa fase do direito em que os princípios são
devidamente reconhecidos como espécies de
norma, com grau hierárquico superior a todas as
demais normas, especialmente, quando reconhe-
cidas constitucionalmente. É a lição de Paulo
Bonavides:
“Postos no ponto mais alto da escala
normativa, eles mesmos, sendo normas, se
tornam, doravante, as normas supremas do
ordenamento. Servindo de pautas ou critérios
por excelência para a avaliação de todos os
conteúdos normativos, os princípios, desde
sua constitucionalização, que é ao mesmo
passo positivação no mais alto grau, rece-
bem como instância valorativa máxima cate-
goria constitucional, rodeada de prestígio e
da hegemonia que se confere às normas
inseridas na Lei das Leis. Com esta relevân-
cia adicional os princípios se convertem igual-
mente em norma normarum, ou seja, norma
das normas”.55
Assim, se antes a eficiência era qualidade
desejável à atividade administrativa, após a sua
fixação como princípio constitucional expresso
pela EC nº 19/98, e, portanto, como norma cons-
titucional dotada das características de impera-
tividade, coercibilidade e precedência, passa a
ser oponível ao administrador público a sua ob-
servância, tanto em relação ao trato com a cole-
tividade, para quem os serviços públicos são
prestados, como nas atividades organizacionais
internas da própria Administração Pública brasi-
leira.56
Ademais, a eficiência administrativa passa a
ser vetor de interpretação de todas as demais
normas de direito administrativo vigentes em nos-
so ordenamento jurídico, pois essa é uma das
funções primordiais dos princípios de direito, ante
sua impregnação por valores socialmente reco-
nhecidos como mais importantes em determina-
do tempo e lugar.
Se está, portanto, inserto no texto da Consti-
tuição que a Administração Pública deverá de-
sempenhar as atividades administrativas no sen-
tido de produzir resultados os mais satisfatórios
possíveis ao atendimento das necessidades da
coletividade e da própria máquina administrati-
va57, dispendendo o mínimo possível de recur-
sos públicos para tanto, deverá o administrador
público, no exercício ex lege da atividade admi-
nistrativa, interpretar as normas a que está sujei-
to sob o prisma da legalidade material, em detri-
mento de um exacerbado formalismo que even-
tualmente seja exigido pela legislação vigente.58
Pode-se exemplificar a proposição acima ex-
posta através de caso concreto enfrentado por
este autor no exercício da atividade de consultor
jurídico da Administração Pública federal. Deter-
minada instituição pública federal tinha em seu
patrimônio certos bens que, através de comis-
55. In Curso de Direito Constitucional, 7ª ed., São Paulo, Malheiros, 1997, p. 261.
56. José dos Santos Carvalho Filho, Manual de Direito Administrativo, 11ª ed., Rio de Janeiro, Lumen Juris, 2004, p. 20.
57. “Agora a eficiência é princípio que norteia toda a atuação da Administração Pública. O vocábulo liga-se à idéia de
ação, para produzir resultado de modo rápido e preciso. Associado à Administração Pública, o princípio da eficiência

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