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Consumidor - Responsabilidade pelo fato e vício

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1. DOUTRINA (RESUMO) 
1.1 RESPONSABILIDADE CIVIL DE CONSUMO 
1.1.1. FUNDAMENTOS E CONSIDERAÇÕES INICIAIS 
 
Um dos fundamentos para a responsabilidade civil nas relações de consumo, decorrente do próprio microssistema, é a previsão da “efetiva prevenção e reparação de danos patrimoniais e morais, individuais, coletivos e difusos” como direito básico do consumidor (CDC, art. 6o, VI). 
Observe-se que o dispositivo trata tanto da efetiva prevenção – denotando a importância da tutela inibitória – quanto da efetiva reparação. Como exemplos de prevenção, tem-se a possibilidade de se ingressar no Poder Judiciário com tutelas de urgência, tanto de natureza cautelar como de cunho antecipatório.
Com base na previsão legal (que fala em efetiva reparação e traz a lume os danos de diversas espécies), a doutrina costuma destacar que o CDC consagrou o princípio da reparação integral (restitutio in integrum). Quer-se com isso dizer que o dever de reparação (ou o direito à reparação) no campo de consumo é mais amplo do que na responsabilidade civil regida somente pelo Código Civil. 
Algumas regras – que serão à frente estudadas – demonstram esse princípio: 
a) a responsabilidade civil objetiva como regra; b) a não incidência de determinadas regras de mitigação da responsabilidade previstas no CC (ex vi art. 944, parágrafo único); c) a vedação de cláusula contratual que impossibilite, exonere ou atenue a obrigação de indenizar pelo fato ou pelo vício do produto ou serviço (art. 25 do CDC); d) a previsão de nulidade da cláusula contratual que impossibilite, exonere ou atenue a responsabilidade do fornecedor por vícios de qualquer natureza dos produtos e serviços (art. 51, I, do CDC).
ATENÇÃO! Apesar de não ser a sede própria, alerta-se desde já para uma exceção à nulidade das cláusulas contratuais do art. 51, I, do CDC: 
- É possível a limitação da indenização devida pelo fornecedor nos casos em que o consumidor é PESSOA JURÍDICA e desde que haja situação justificável. Por essa razão, diz-se que o princípio da reparação integral não é absoluto. 
 
1.1.2. NATUREZA, EM GERAL, DA RESPONSABILIDADE CIVIL CONSUMERISTA 
 
Via de regra, a responsabilidade, na sistemática de consumo, é objetiva, dispensando a presença de culpa lato sensu (arts. 12 e 14 do CDC – “independentemente da existência de culpa”). 
 
ATENÇÃO! EXCEÇÃO: A responsabilidade pessoal dos profissionais liberais será apurada mediante a verificação de culpa (ou seja, responsabilidade subjetiva). O tema ainda será estudado com mais detalhes. 
 
O fundamento para a responsabilidade objetiva nas relações de consumo é a adoção da Teoria do Risco da Atividade, segundo a qual o fornecedor deve assumir os riscos decorrentes da inserção de determinado produto ou atividade no mercado de consumo. Ora, é o fornecedor – e apenas ele -, quem pode distribuir, mediante mecanismos de preços, os custos dos danos causados pela atividade (é quem pode fazer a distribuição dos riscos). 
A responsabilidade, aqui, é objetiva com lastro na teoria da atividade ou do empreendimento. Não vigora a responsabilidade objetiva com base na teoria do risco integral (ou seja, existem excludentes de responsabilidade). Questões e assertivas que digam que o CDC adotou a teoria do risco integral estão INCORRETAS. 
Além de objetiva, a responsabilidade é, em regra, solidária, em conformidade com a previsão dos arts. 7o, parágrafo único, e 25, § 1º, do CDC (maiores detalhes serão oportunamente estudados): 
 
Art. 7o, parágrafo único. Tendo mais de um autor a ofensa, todos responderão solidariamente pela reparação dos danos previstos nas normas de consumo. 
Art. 25, parágrafo 1o. Havendo mais de um responsável pela causação do dano, todos responderão solidariamente pela reparação prevista nesta e nas seções anteriores. 
 
Exceção à responsabilidade solidária - Como já visto anteriormente, a regra é 
a solidariedade na responsabilidade de consumo, respondendo todos os envolvidos com o fornecimento ou a prestação. 
Entretanto, a responsabilidade pelo fato (defeito) do produto não é de todo atingida pela solidariedade, pois, segundo os arts. 12 e 13 do CDC, neste caso é consagrada a responsabilidade imediata do fabricante, do produtor, do construtor e do importador e a responsabilidade subsidiária do comerciante. Tal tema será estudado com mais vagar ainda nesta rodada. 
 
ATENÇÃO! Teoria Unitária da Responsabilidade! 
Para o Direito do Consumidor, não importa a distinção entre responsabilidade contratual e extracontratual (aquiliana). 
Trata-se de uma diferença importante em comparação à responsabilidade do Código Civil. Na seara do Direito do Consumidor, entendeu-se necessário romper com a divisão acima, para a proteção do consumidor, permitindo a responsabilização direta do fabricante pelo dano ao consumidor (seja o consumidor stricto sensu seja o equiparado). 
OBSERVAÇÃO: Várias questões objetivas já abordaram a referida Teoria! 
 
1.1.3. DIFERENÇA ENTRE VÍCIO E FATO 
 
Existem duas grandes divisões de responsabilidade civil no CDC: a responsabilidade pelo fato (arts. 12 a 17) e a responsabilidade pelo vício (arts. 18 a 20). Nesta rodada, estudaremos detalhadamente ambas em tópicos próprios. 
a) Vício do produto e do serviço – o vício baseia-se na qualidade-adequação de produtos ou serviços. Há uma inadequação entre o produto ou o serviço oferecido e as legítimas expectativas do consumidor. Configura-se quando torna o produto ou serviço impróprio ou inadequado ao seu uso regular ou quando diminui o seu valor ou quando há disparidade de informações. 
Com relação aos efeitos, o vício atinge o produto ou serviço em si (é intrínseco), e não a pessoa do consumidor. 
b) Fato do produto e do serviço – também denominado como defeito ou acidente de consumo. Baseia-se na qualidade-segurança do consumidor ou de terceiros (vítimas de consumo – consumidores equiparados bystander). Envolve, portanto, problemas de segurança, a existência de riscos.
Com relação aos efeitos, o fato atinge a incolumidade físico-psíquica do consumidor (é extrínseco); gera danos além do produto. Gera, com mais frequência, danos materiais, morais, estéticos etc.
A diferença entre ambos já foi abordada em detalhes pelo STJ, explicando a bipartição da responsabilidade da exigência de adequação e segurança (REsp 967.623/RJ, DJe 29/06/2009): observada a classificação utilizada pelo CDC, um produto ou serviço apresentará vício de adequação sempre que não corresponder à legítima expectativa do consumidor quanto à sua utilização ou fruição, ou seja, quando a desconformidade do produto ou do serviço comprometer a sua prestabilidade; outrossim, um produto ou serviço apresentará defeito de segurança quando, além de não corresponder à expectativa do consumidor, sua utilização ou fruição for capaz de adicionar riscos à sua incolumidade ou de terceiros.
ATENÇÃO! Cuidado para alguns equívocos frequentes! 
A existência de vício pode ensejar, além das hipóteses do parágrafo 1o do art. 18, também danos morais. Para o STJ, “o regime previsto no art. 18 do CDC, entretanto, não afasta o direito do consumidor à reparação por danos morais, nas hipóteses em que o vício do produto ocasionar ao adquirente dor, vexame, sofrimento ou humilhação, capazes de ultrapassar a esfera do mero dissabor ou aborrecimento” (REsp 324.629, T3, Rel. Ministra Nancy Andrighi, DJ 28/04/2003). 
O defeito gera a inadequação do produto ou serviço e dano ao consumidor; assim, há vício sem defeito, mas não defeito sem vício (alternativa considerada correta pelo CESPE – prova de Defensor Público do AC/2012). 
 1.1.4. RESPONSABILIDADE PELO VÍCIO 
 	
Pede-se licença, neste ponto, para fazer uma inversão da ordem legal (haja vista que a responsabilidade pelo fato está prevista no CDC antes da responsabilidade pelo vício). Consideramos que a inversão é benéfica ao estudo, haja vista que é interessante primeiro conhecer os vícios intrínsecos aos produtos e serviços, para, só então, passar às consequências extrínsecas (fato ou defeito ou acidente). Além disso, a abordagem sobre a

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